Curdos enfrentam alternativas sombrias depois da retirada das tropas dos Estados Unidos

Esqueçam um Curdistão independente: eles talvez tenham que fazer um acordo com Damasco e compartilhar seu território com os refugiados árabes sunitas

(Foto: AFP / Delil Souleiman)

Artigo publicado no Asia Times

Tradução de Patricia Zimbres

Nos anais dos tweets bombásticos de Trump, este é simplesmente estarrecedor: temos aqui um presidente dos Estados Unidos, desmascarando publicamente a totalidade da intervenção de oito trilhões de dólares no Oriente Médio como sendo uma guerra sem fim baseada numa "falsa premissa". Não é de admirar que o Pentágono não tenha gostado nem um pouco.

O tweet de Trump secciona o surreal espetáculo geopolítico da Turquia atacando uma faixa de 120 quilômetros de território sírio a leste do Eufrates para, essencialmente, expulsar os curdos sírios. Mesmo depois de o presidente turco Recep Tayyip Erdogan ter explicado a Trump os termos da orwelliana "Operação Primavera de Paz", Ancara agora talvez tenha que enfrentar o risco das sanções econômicas dos Estados Unidos.

A narrativa ocidental predominante dá às Forças Democráticas Sírias, em sua maioria curdas, o crédito de terem combatido e derrotado o Estado Islâmico, também conhecido como Daesh. As FDS é, essencialmente, um grupo de mercenários trabalhando para o Pentágono contra Damasco. Mas muitos cidadãos sírios afirmam que o ISIS, não verdade, foi derrotado pelo Exército Árabe Sírio, pela capacidade aérea e técnica russa, com a colaboração de assessores e das forças especiais do Irã e do Hezbolah.

Por mais que Ancara veja os curdos do YPG - as "unidades de proteção do povo" - e o PKK - O Partidos dos Trabalhadores Curdos - como meros "terroristas" (no caso do PKK, alinhados a Washington), a Operação Primavera de Paz, em princípio, nada tem a ver com o massacre dos curdos. Os que virá a ocorrer revelará se há limpeza étnica intrínseca à ofensiva turca. Um século atrás, poucos curdos viviam nessas paragens, cuja população era, em sua maioria, árabe, armênia e assíria. De modo que não se trata de limpeza étnica em terras ancestrais. Mas, a julgar pela cidade de Afrin, as consequências podem vir a ser severas.

A essa mistura estonteante, acrescente-se um possível e desconfortável pacificador: a Rússia. Moscou, em ocasiões anteriores, incentivou os curdos sírios a conversarem com Damasco para evitar uma campanha turca - em vão. Mas o Ministro do Exterior Sergey Lavrov não desiste jamais. Ele, recentemente, disse: "Moscou pedirá o início de conversações entre Damasco e Ancara". Os laços diplomáticos entre a Síria e a Turquia foram suspensos há anos.

Com a Operação Primavera de Paz rolando praticamente sem oposição, o General curdo Mazloum Keobani Abdi dobrou a aposta, dizendo aos americanos que ele terá que negociar com Moscou uma zona de exclusão aérea para proteger cidades e vilarejos curdos contra as Forças Armadas Turcas. Diplomatas russos, em off, dizem que isso não vai acontecer. Em Moscou, a Operação Primavera de Paz é vista como um direito da Turquia de garantir sua segurança, nas palavras do porta-voz do Kremlin Dmitri Peskov. Contanto que a operação não se transforme em um desastre humanitário.

Sem um Curdistão independente

Da perspectiva de Washington, tudo o que acontece no volátil espectro Irã-Iraque-Síria-Turquia está sujeito a dois imperativos: 1) em termos geopolíticos, quebrar o que regionalmente  é visto como o eixo de resistência: Irã, Iraque, Síria, Hezbolah e; 2) em termos geoestratégicos, impedir que a Iniciativa do Cinturão e Rota, liderada pela China, seja incorporada tanto pelo Iraque quanto pela Síria, para não falar da Turquia.

Quando Erdogan afirmou que a cúpula trilateral de Ancara do mês passado foi "produtiva", ele quis dizer, essencialmente, que a questão curda foi resolvida por meio de um acordo entre a Rússia, a Turquia e o Irã.

Diplomatas confirmaram que a Comissão Constitucional da Síria se esforçará ao máximo para implementar uma federação - sugerindo que os curdos terão que voltar para o aprisco de Damasco. Teerã talvez até tenha um papel a desempenhar, que seria o de facilitar as coisas, uma vez que os curdos iranianos também se tornaram muito ativos no comando do YPG.

Em suma: não haverá Curdistão independente - tal como detalhado em um mapa  previamente publicado pela agência de notícias Anadolu.

Do ponto de vista de Ancara, o objetivo da Operação Primavera de Paz é o que Erdogan já havia anunciado ao Parlamento Turco - ou seja, organizar a repatriação de nada menos que dois milhões de refugiados sírios para um conjunto de vilas e cidades espalhadas por uma zona de segurança de trinta quilômetros de largura, supervisionada pelo exército turco. Mas ainda não foi dita uma única palavra sobre outros supostos 1,6 milhão de refugiados que também se encontram na Turquia.

As ameaças curdas de abandonar o controle de cinquenta presídios onde estão detidos pelo menos onze mil jihadis do ISIS/DAES são claras o suficiente. O mesmo se aplica ao campo de detenção al-Hol, que guarda o estarrecedor número de oitenta mil familiares de membros do ISIS.  Se libertados, esses jihadistas iriam atrás dos curdos num piscar de olhos.

O correspondente de guerra veterano e analista de riscos Elijah Magnier faz um excelente resumo dos planos fantasiosos dos curdos comparados às prioridades de Damasco, Teerã e Moscou:

Os curdos pediram a Damasco, na presença de negociadores russos e iranianos, que lhes fosse permitido manter o controle sobre os riquíssimos campos de petróleo e de gás ocupados por eles no que representa um pouco menos de um quarto do território sírio. Além disso, os curdos pediram que lhes fosse dado pleno controle sobre o enclave na fronteira com a Turquia, sem nenhuma presença ou atividade do exército sírio. Damasco não tem a intenção de atuar como guarda de controle de fronteira e pretende recuperar o controle sobre a totalidade do território sírio. O governo sírio quer pôr fim aos acordos que os curdos estão oferecendo aos Estados Unidos e a Israel, semelhantes ao que ocorreu com os curdos do Iraque.

As alternativas para os curdos do YPG são sombrias. Eles começam a perceber que foram usados como mercenários pelo Pentágono. Ou eles se tornam parte da federação síria, abrindo mão de parte de sua autonomia e de seus sonhos hiper-nacionalistas, ou terão que compartilhar a região em que vivem com pelo menos dois milhões de refugiados sunitas reassentados sob a proteção do exército turco.

O fim do sonho está próximo. No domingo, Moscou intermediou um acordo nos termos do qual as principais cidades de fronteira controladas pelos curdos, Manjbi e Kobane, voltam ao controle de Damasco. As tropas turcas, portanto, terão que recuar ou, caso contrário confrontar-se diretamente com o Exército Árabe Sírio. Esse acordo, que altera totalmente a situação atual, deve ser interpretado como o primeiro passo para que a totalidade do nordeste da Síria acabe por voltar ao controle estatal.

Em termos geopolíticos, o ponto central é que fica evidenciada uma grave cisão interna no acordo de Ancara. Teerã e Moscou - para não falar de Damasco - não irão aceitar a ocupação turca de quase um quarto do território sírio, soberano e rico em recursos energéticos, substituindo o que antes foi uma ocupação americana de fato. Diplomatas confirmam que Putin, repetidamente, insistiu com Erdogan que a integridade do território sírio era imperativa. A SANA, a agência noticiosa síria, atacou a Primavera de Paz como "um ato de agressão".

O que nos traz a Idlib. Idlib é uma província pobre e rural, lotada de jihadis salafi ultra-radicais, a maioria deles ligada, em uma infinidade de níveis, às sucessivas encarnações da Jabhat al-Nusra, a al-Qaeda da Síria. Damasco, apoiada pelo poderio aéreo russo, acabará por limpar o que, na verdade, é o caldeirão de Idlib, criando uma nova onda de refugiados. Erdogan, com esse investimento na sua zona segura do Curdistão sírio, está na verdade tentando evitar o êxodo para a Turquia de possivelmente 3,5 milhões de sunitas radicais.

O historiador turco Cam Erimtan  disse a mim o mesmo que afirma no ensaio  "A Turquia na Síria: a Operação Primavera de Paz - O expurgo dos curdos como dever religioso" (link): que se trata basicamente do choque entre o "municipalismo libertário" pós-marxista do eixo PKK/PYD/YPG/YPJ turco-sírio e a corrente islâmica defendida pelo partido AKP de Erdogan: "A estonteante fusão do islamismo e do nacionalismo turco, que se tornou a marca do AKP e moeda corrente na Nova Turquia, resulta no fato de que, enquanto grupo social, os curdos da Síria foram universalmente identificados como inimigos do Islã". Assim, acrescenta Emritan, "os curdos agora tomaram o lugar de 'Assad' como representantes de um inimigo herético que tem que ser derrotado no território vizinho".

Em termos geopolíticos, o ponto crucial continua sendo que Erdogan não pode ser dar ao luxo de alienar Moscou por uma série de razões estratégicas e econômicas, que vão desde o gasoduto Turkish Stream até o interesse de Ancara em ser um nó importante no Cinturão e Rota e na União Econômica Eurasiana, e em tornar-se membro pleno da Organização de Cooperação de Xangai, iniciativas essas direcionadas à integração eurasiana.

Vantagens para todas as partes

E, enquanto a Síria ferve, o Iraque esfria.

O Curdistão iraquiano vive em um mundo à parte, não tendo sido afetado pelos protestos iraquianos motivados por queixas genuínas contra o pântano de alta corrupção que é a política de Bagdá. O sequestro subsequente para uma agenda geopolítica específica era inevitável. O governo diz que as forças de segurança iraquianas não atiraram contra os manifestantes. Os tiros teriam sido obra de franco-atiradores.

Homens armados usando balaclavas de fato atacaram os escritórios de várias estações de televisão de Bagdá, destruindo equipamentos e instalações de transmissão. Além do mais, segundo me informaram fontes iraquianas, grupos armados atacaram equipamentos de infraestrutura de importância estratégica, como redes e usinas elétricas, principalmente em Diwaniyah, ao sul do país. Isso teria mergulhado na escuridão todo o sul do Iraque, até Basra, desencadeando assim novos protestos.

O analista paquistanês Hassan Abbas passou doze dias em Bagdá, Najaf e Karbala. Segundo ele, uma polícia altamente militarizada atuou contra os protestos, "optando pelo uso da força desde o primeiro momento - uma má estratégia". Ele acrescentou: "Há onze forças policiais diferentes em Bagdá, usando vários uniformes, e a coordenação entre elas é extremamente deficiente em condições normais". 

Mas, acima de tudo, insistiu Abbas: "Muitas pessoas com quem conversei em Karbala acham que essa é a reação americana à tendência do Iraque a favorecer a China".

Isso se encaixa à perfeição na ampla análise contida no ensaio de Elijah Magnier, "A guerra silenciosa EUA-Irã é transformada em 'rebelião iraquiana'".

O Iraque não obedeceu às sanções (ilegais) do governo Trump contra o Irã. Na verdade, o país continua a comprar eletricidade do Irã. Bagdá finalmente abriu o importante posto de al-Qaem, na fronteira Iraque-Síria. O primeiro-ministro Adel Abdel Mahdi quer comprar sistemas de mísseis S-400 da Rússia.

Ele também declarou explicitamente que Israel era responsável pelo bombardeio de cinco depósitos pertencentes ao Hashd-al-Shaabi, as unidades de mobilização popular. E ele não apenas rejeitou o "acordo do século" de Trump entre Israel e a Palestina, como também vem tentando mediar as negociações entre o Irã e a Arábia Saudita.

E então temos - o que mais? - a China. Em uma visita a Pequim em 23 de setembro, Mahdi fechou um negócio proverbialmente lucrativo para ambas as partes: fornecimento de muito petróleo em troca da reconstrução de infraestrutura. E o Iraque será oficialmente um nó do Cinturão e Rota, com o presidente Xi Jinping exaltando a nova "parceria estratégica China-Iraque". A China também pretende fazer trabalho de pós-reconstrução na Síria, para transformar o país num nó importante das Novas Rotas da Seda.

Nada vai terminar até a (gorda) senhora chinesa cantar enquanto entra em acordos. Enquanto isso, Erdogan pode sempre se gabar de enviar 3,6 milhões de refugiados para a Europa.

O que vem acontecendo é uma situação quadruplamente vantajosa. Os Estados Unidos salvam a face fazendo uma retirada que Trump pode vender como sendo uma tentativa de evitar um conflito com a Turquia, aliada na OTAN. A Turquia tem a garantia - dada pelos russos - de que o exército sírio irá controlar a fronteira turco-síria. A Rússia evita a escalada da guerra e mantém vivo o processo Rússia-Irã-Turquia. E a Síria acabará por recuperar o controle de seus campos petrolíferos e de todo o nordeste do país.

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