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Alexandre Machado Rosa

Alexandre Machado Rosa é professor do Instituto Federal de São Paulo (IFSP) e doutor em Saúde Coletiva.

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Da CBD à CBF: a ascensão com Havelange e a decadência com Ricardo Teixeira

Vitórias esportivas duradouras exigem instituições legítimas, escreve Alexandre Machado Rosa

Sede da CBF, na Barra da Tijuca (RJ) (Foto: Lucas Figueiredo/CBF)
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A Copa do Mundo de 2026 pode expor, para o mundo, a decadência do futebol brasileiro. A crise técnica, que se arrasta há anos dentro de campo, se soma à decadência moral e política construída ao longo de décadas. O que hoje se manifesta como improvisação, falta de projeto esportivo e constantes disputas internas não surgiu do nada. É fruto de um modelo de gestão que transformou a principal entidade do futebol nacional em um espaço marcado pela concentração de poder, interesses corporativos e sucessivos escândalos.

A trajetória da antiga Confederação Brasileira de Desportos (CBD) até a atual Confederação Brasileira de Futebol (CBF) ajuda a entender esse processo.

Até o final da década de 1970, o futebol brasileiro era administrado pela CBD, entidade criada em 1914 e responsável também por diversas modalidades olímpicas. Seus dirigentes mantinham laços estreitos com as elites políticas e, principalmente após 1964, com o regime militar. O futebol era visto como instrumento de projeção nacional, prestígio internacional e construção simbólica da unidade do país.

O longo mandato de João Havelange à frente da CBD, de 1958 a 1975, marcou um ponto de virada no futebol brasileiro. Aproveitando o sucesso da Seleção Brasileira, campeã mundial em 1958, 1962 e 1970, Havelange construiu uma vasta rede de alianças internacionais. A força simbólica do futebol brasileiro serviu como trampolim para sua ambição política, culminando em sua eleição para a presidência da FIFA em 1974.

Havelange modernizou a política do futebol global. Ampliou o número de participantes da Copa do Mundo, aproximou a FIFA das grandes empresas e transformou o futebol em um negócio de escala mundial. No entanto, também consolidou práticas de centralização decisória, clientelismo e falta de transparência, que marcariam profundamente a cultura política do futebol brasileiro.

A fundação da CBF em 1979 foi uma consequência das exigências da FIFA para que as federações nacionais se dedicassem exclusivamente ao futebol. A separação da CBD representou uma mudança estrutural importante, mas não trouxe democratização. Pelo contrário, a nova entidade reproduziu as práticas do período anterior.

A CBF estruturou-se como uma espécie de agência privada responsável pela gestão de um patrimônio cultural coletivo. Embora administrasse a seleção mais popular do planeta e exercesse enorme influência sobre o futebol nacional, desenvolveu mecanismos internos pouco transparentes, concentrando poder nas mãos de dirigentes sustentados por alianças com federações estaduais.

A transição

Após a passagem de Giulite Coutinho pela presidência, a entidade entrou em uma nova fase sob o comando de Ricardo Teixeira, genro de João Havelange. Presidente da CBF entre 1989 e 2012, Teixeira personificou a transformação definitiva do futebol brasileiro em um ambiente dominado por interesses econômicos e disputas políticas.

Seu período à frente da entidade coincidiu com conquistas importantes dentro de campo, como os títulos mundiais de 1994 e 2002, mas também foi marcado por denúncias de corrupção, contratos suspeitos e investigações parlamentares. A parceria com a empresa ISL, International Sport and Leisure (ISL), foi, no período Havelange, uma das maiores e mais importantes agências de marketing esportivo do mundo. Fundada na Suíça em 1982 por Horst Dassler (filho do fundador da Adidas) e a japonesa Dentsu, a empresa impulsionou os negócios do futebol, mas faliu em 2001, deixando um enorme rastro de escândalos financeiros internacionais de pagamento de propinas a dirigentes da FIFA, e tornou-se símbolo desse modelo de gestão.

A CPI da Nike, no final dos anos 1990, e posteriormente as investigações conduzidas pelo Ministério Público suíço e pela Justiça norte-americana lançaram luz sobre práticas que pareciam naturalizadas no comando do futebol. Ricardo Teixeira deixou a presidência em 2012, cercado por denúncias e sob crescente pressão pública, mas a estrutura política que o sustentava permaneceu praticamente intacta.

Desde então, a CBF atravessou novas crises, afastamentos judiciais, disputas internas e mudanças de presidentes sem que houvesse uma reforma profunda de seu modelo institucional. José Maria Marin foi preso nos Estados Unidos em decorrência do escândalo conhecido como Fifagate. Marco Polo Del Nero foi banido do futebol pela FIFA por acusações de corrupção. Rogério Caboclo deixou o cargo após denúncias de assédio moral e sexual. Ednaldo Rodrigues, por sua vez, tornou-se alvo de sucessivas batalhas judiciais que evidenciam a instabilidade política da entidade.

Enquanto outras potências do futebol investiram na formação de treinadores, em centros de desenvolvimento, em planejamento esportivo e em processos mais profissionais de gestão, o Brasil passou a conviver com decisões improvisadas, descontinuidade administrativa e crescente dependência de interesses imediatos. A Argentina, por exemplo, reorganizou sua estrutura técnica, valorizou seus profissionais e consolidou uma identidade de jogo que hoje produz resultados consistentes. A Associação de Futebol da Argentina (AFA) exporta treinadores para todas as ligas e seleções.

A possível frustração brasileira na Copa de 2026, portanto, não poderá ser explicada apenas por escolhas equivocadas de convocação, pelo desempenho de um treinador ou pela má fase de determinados jogadores. Ela deve ser compreendida como expressão de um problema mais profundo: a falência de um projeto de gestão que substituiu o interesse público do futebol brasileiro pela lógica da autopreservação de suas elites dirigentes.

O futebol brasileiro continua produzindo talentos, mobilizando paixões e ocupando um lugar central na identidade nacional. O que está em crise não é a capacidade do povo brasileiro de jogar futebol. O que está em crise é o modelo de governança que capturou a principal instituição do esporte mais popular do país.

Se a Copa de 2026 confirmar dentro de campo a decadência que há muito tempo se observa fora dele, talvez ela cumpra uma função histórica inesperada: obrigar o Brasil a encarar a urgência de democratizar a CBF, ampliar a transparência, reformar seus mecanismos de representação e recolocar o futebol a serviço do interesse público.

A história mostra que nenhuma hegemonia é eterna. O Brasil que encantou o mundo com sua criatividade e excelência futebolística só voltará a ocupar posição de destaque quando compreender que vitórias esportivas duradouras exigem instituições legítimas, planejamento e compromisso com valores republicanos. Sem isso, continuaremos tratando como acidente aquilo que, na verdade, é consequência de décadas de escolhas políticas equivocadas.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.