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Carlos Castelo

Jornalista, sócio-fundador do grupo Língua de Trapo, um estilo sem escritor

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Da farda ao feed

O regime de 64 prendia quem pensava diferente. O regime atual não precisa prender ninguém. O cidadão se tranca em casa sozinho, de boa vontade

Da farda ao feed (Foto: Freepik)

Há 62 anos, o Brasil foi tomado por homens de farda. Tinham tanques, decretos e um plano (ainda que sórdido). Havia método na loucura. O censor lia o texto antes de proibi-lo, o que, admitamos, já o colocava em vantagem sobre boa parte dos comentaristas de redes sociais contemporâneos.

A ditadura militar exigia silêncio total. A ditadura da ignorância dispensa a exigência: o cidadão se cala sozinho, por falta de assunto que não seja ele mesmo. 

O militar censurava o jornal. O algoritmo faz o jornal se censurar a si próprio, por medo da falta de cliques. É uma evolução darwiniana às avessas: sobrevive o menos apto, desde que grite mais alto.

O regime de 64 prendia quem pensava diferente. O regime atual não precisa prender ninguém. O cidadão se tranca em casa sozinho, de boa vontade, desde que o streaming não caia.

O preso político lia Gramsci na cela. O cidadão do século XXI assiste a memes no banheiro e acha que está se informando. A cela, ao menos, tinha a vantagem de não ter notificações.

Antes, o golpe vinha do quartel. Hoje vem do grupo de família. Ninguém precisa mais de tanque na rua quando se tem o tio do zap. O tanque ocupava uma avenida. O tio ocupa todas as conversas. E com a mesma sutileza do blindado.

A ditadura militar precisou de aparato: censores, delegacias, porões. Mobilizou o Estado inteiro para manter um país no obscurantismo. O influenciador digital faz o mesmo serviço com um ring light e uma opinião discutível. É o único caso na História em que a precarização do trabalho piorou o resultado para a sociedade e melhorou o faturamento do influencer.

A ditadura militar acabou em 1985 no Brasil. A tirania da ignorância não tem prazo para terminar. Não porque seja mais forte, mas porque ninguém percebeu que ela começou. É o golpe perfeito: o oprimido aplaude, compartilha, e ainda marca três amigos.

O general Médici dizia que o Brasil ia bem. Mas o povo ia mal. Hoje, o povo posta que vai bem, o Brasil continua mal, e ninguém sabe quem é o general Médici.

Dito isso, me fale: você acha que não estamos numa ditadura? Claro que estamos. Só que o déspota da vez não usa farda. Usa a sua cara, a sua voz e o seu dedo indicador. E tem gente que acha que está no comando.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.