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Sergio Ferrari

Jornalista latino-americano radicado na Suíça. Autor e coautor de vários livros, entre eles: Semeando utopia; A aventura internacionalista; Nem loucos, nem mortos; esquecimentos e memórias dos ex-presos políticos de Coronda, Argentina; Leonardo Boff, advogado dos pobres etc.

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Da Palestina ao Irã e tantas outras regiões, a indústria bélica impõe um mundo de guerras

As regras da convivência internacional estão cedendo ao poder das empresas fabricantes de armas, que continua crescendo em benefício dos Estados mais belicosos

Bombardeio israelense contra a Palestina (Foto: Ashraf Amra/UNRWA)

A conjuntura mundial dança ao ritmo da grande indústria de armamentos, que define suas próprias leis, impõe suas vendas e coopta a política exterior de muitos Estados. Atualmente, o planeta está sediando cerca de 60 conflitos bélicos. Desses, mais de uma dezena de particular explosividade e que, por outro lado, não poderiam existir se não estivessem por trás deles as multinacionais que produzem e distribuem equipamentos, armas, munições e tecnologia especializada. Do Irã ao Líbano, passando pelo Sudão, pela Ucrânia ou pela fronteira afegã-paquistanesa...

Mais armas a cada dia

No período de 2021 a 2025, o fluxo global de armamentos aumentou quase 10% em comparação com o período de cinco anos anterior. Esse aumento corresponde, fundamentalmente, às maiores transferências para a Europa, em particular para a Ucrânia. Dentro desse cenário, o Velho Mundo se consolida como um paraíso para a grande indústria de guerra ao triplicar suas importações. Essa tendência crescente, segundo analistas, é explicada pela percepção de uma maior ameaça russa, agravada pela maior incerteza sobre o compromisso dos Estados Unidos com a defesa de seus aliados europeus, os membros da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN).

Nesse mesmo período de cinco anos, as exportações totais dos Estados Unidos, que continuam sendo o maior fornecedor mundial de armamentos, aumentaram 27% em nível global e 217% para fortalecer o arsenal europeu, conforme documentado em março pelo Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz (SIPRI), sediado em Estocolmo. A partir de 1950, o SIPRI tem sido a principal fonte de informações sobre o volume (não necessariamente o valor financeiro) das transferências internacionais de armas (incluindo vendas, "doações" e produção licenciada) entre Estados, organizações internacionais e grupos não estatais.

Como esse volume pode variar significativamente de ano para ano, o SIPRI publica números quinquenais, garantindo assim uma medida mais estável das tendências em jogo. Entre 2021 e 2025, os Estados Unidos foram responsáveis por 42% das transferências internacionais de armas (em 2016-2020 foram 36%). Exportou material de guerra para 99 estados: 35 na Europa, 18 na América Latina e Caribe, 17 na África, 17 na Ásia e Oceania e 12 no Oriente Médio. E, pela primeira vez em duas décadas, a maior parte das exportações dos EUA foi para a Europa (38%) e não para o Oriente Médio (33%). No entanto, seu principal destinatário foi a Arábia Saudita, com 12%. 

Segundo o SIPRI, os Estados Unidos consolidaram ainda mais seu domínio como fornecedor de armas em um mundo cada vez mais multipolar. Seu estudo, atualizado no final de 2025, alega que importadores de armas dos EUA preferem essas armas devido às suas avançadas capacidades tecnológicas e, além disso, porque contribuem comercialmente para fomentar boas relações com aquele país. Como o SIPRI enfatiza, para os Estados Unidos, as exportações de armas são "uma ferramenta de política externa e uma forma de fortalecer sua indústria armamentista, como, de novo, deixa claro a nova Estratégia de Transferência de Armamentos América em Primeiro Lugar da administração Trump". Uma realidade que se torna a principal chave para interpretar a pressão que, desde seu primeiro dia como presidente, Donald Trump exerceu sobre seus aliados da OTAN para que aumentem significativamente seus próprios orçamentos de defesa. Após essa disputa, e já no horizonte, novos e frutíferos negócios para as multinacionais estadunidenses da indústria de guerra. Atualmente, 39 das 100 maiores multinacionais são norte-americanas (https://www.sipri.org/sites/default/files/AT%20Press%20Release%202026%20ESP.pdf).

As outras potências armamentistas

O SIPRI classifica a França como o segundo maior fornecedor de armas, respondendo por 9,8% das exportações mundiais, representando um aumento de 21% nos últimos cinco anos. A França exportou armas para 63 Estados, e seus maiores mercados foram a Índia (24%), o Egito (11%) e a Grécia (10%). Por outro lado, seus embarques para países europeus aumentaram mais de cinco vezes. 

Por sua vez, a Alemanha superou a China, tornando-se o quarto maior exportador de armas: 5,7% do total mundial. Quase um quarto desse volume foi para a Ucrânia.

A Itália aumentou suas exportações de armas em 157%, subindo do décimo para o sexto lugar. Mais da metade de suas vendas foi para o Oriente Médio, 16% para a Ásia e 13% para a Oceania.

Israel, o sétimo maior fornecedor de armas, aumentou suas exportações de 3,1% durante o período 2016–20 para 4,4% nos últimos cinco anos e, pela primeira vez, superou o Reino Unido (3,4%). Esse aumento ocorreu em paralelo à guerra em Gaza e aos ataques ao Irã, Líbano, Catar, Síria e Iêmen. A indústria de exportação de armas de Israel foca principalmente em sistemas de defesa aérea, que são altamente demandados mundialmente, enquanto seu exército continua importando quantidades significativas de equipamentos e materiais.

A Rússia é o único exportador entre os 10 maiores com vendas menores do que em anos anteriores (-64%). Seus principais compradores são a Índia (48%), a China (13%) e a Bielorrússia (13%).

Custos da nova guerra

Um artigo recente no jornal espanhol El País calcula, com base em fontes do Pentágono, que o custo dos primeiros seis dias da guerra contra o Irã foi de 11,3 bilhões de dólares. E comenta que, no início dessa guerra, os Estados Unidos, o país com o maior orçamento militar do mundo (901 bilhões de dólares, em 2026), já tinham um déficit de fundos para aquisição de munição. O serviço internacional de radiodifusão alemão Deutsche Welle corrobora esse número, que cita do New York Times, e esclarece que "ainda está incompleto e promete ser ainda maior". O jornal britânico The Guardian também concorda com esse valor, embora o considere subvalorizado porque não inclui os custos de implantação ou substituição de equipamentos militares danificados ou destruídos.

O Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS, sigla em inglês), uma organização independente sediada em Washington, D.C., baseada nas estimativas financeiras mencionadas, publicou em março uma análise com números tão grandes quanto alarmantes: durante as primeiras 100 horas de sua guerra contra o Irã, ou seja, em apenas quatro dias, os Estados Unidos gastaram pelo menos 3,7 bilhões de dólares. (https://www.csis.org/analysis/iran-war-cost-estimate-update-113-billion-day-6-165-billion-day-12).

No entanto, a estimativa do Departamento de Guerra dos EUA aponta para um nível de gastos muito maior: quase 1,9 bilhão de dólares por dia durante os primeiros seis dias do conflito. Outras fontes recentemente citadas pelo New York Times e Washington Post acreditam que, somente nos dois primeiros dias da guerra, incluindo os ataques às altas cúpulas iranianas, foram alocados 5,6 bilhões de dólares em gastos militares.

Por outro lado, a Casa Branca anunciou em 19 de março que solicitará mais 200 bilhões de dólares para financiar a guerra no Irã. Argumenta que precisa reabastecer munições e outros suprimentos que foram esgotados pela ajuda anterior a outros países. Naquele dia, Donald Trump disse que "este é um mundo muito volátil". E que querem ter grandes quantidades de munição, já que seus estoques diminuíram por "dar tanto à Ucrânia". Segundo a BBC, o secretário de Defesa, Pete Hegseth, não confirmou diretamente o número, mas disse: "É preciso dinheiro para matar os vilões".

Também para Israel, a guerra representa um custo considerável em meio a um conflito de alta intensidade contra o Irã, enquanto mantém a máxima pressão militar contra o Hezbollah, no Líbano. Segundo o CSIS, suas operações contra o Irã podem custar a Israel entre 200 milhões e 700 milhões de dólares por dia. Para a agência suíça Heidi.News, grande parte desses custos corresponde ao uso massivo de munições de precisão em operações aéreas com aeronaves F-35, F-15 ou F-16, mas, acima de tudo, com o sistema de defesa antimísseis. Israel possui um sistema de defesa multicamadas (Cúpula de Ferro, Funda de Davi e Flecha) tão sofisticado quanto caro, projetado especificamente para interceptar foguetes, mísseis balísticos e drones. Um míssil interceptador pode custar várias centenas de milhares de dólares, e até mais, como no caso dos mísseis balísticos. Cada vez que o Irã lança drones e mísseis, o custo da defesa aérea para somente para Israel pode, rapidamente, chegar a dezenas de milhões de dólares por dia.

Armas e pobreza

Segundo o SIPRI, as receitas da venda de armas e serviços militares das 100 maiores empresas produtoras de armas aumentaram 5,9%, em 2024, atingindo um recorde de US$ 679 bilhões. Transações estimuladas, principalmente, pelas guerras na Ucrânia e em Gaza, pelas tensões geopolíticas globais e regionais e pelo aumento constante dos gastos militares globais.

Enquanto isso, a maioria das empresas estadunidenses dessa lista viu seus lucros crescerem 3,8%, cerca de US$ 334 bilhões. Cinco das seis empresas mais importantes do mundo são estadunidenses: Lockheed Martin, RTX, Northrop Grumman, General Dynamics e Boeing. (O quarto lugar desse grupo é ocupado pela britânica BAE System). (https://www.sipri.org/visualizations/2025/sipri-top-100-arms-producing-and-military-services-companies-world-2024). Um relatório das Nações Unidas publicado em setembro de 2025 indica que os gastos militares globais em 2024 aumentaram quase 10% em comparação com 2023, atingindo um recorde de 2,7 bilhões de dólares, equivalente a 334 dólares para cada uma das mais de 8 bilhões de pessoas do planeta. Se a tendência continuar, esse valor atingirá 6,6 bilhões de dólares, em 2035 (https://news.un.org/es/story/2025/09/1540413).

Segundo o mesmo relatório, com 93 bilhões de dólares, ou menos de 4% dos 2,7 bilhões destinados aos gastos militares, a fome pode ser erradicada até 2030. Com pouco mais de 10% desse valor, todas as crianças do mundo poderiam ser vacinadas, e com 5 bilhões poderíamos financiar doze anos de educação de qualidade para crianças em países de baixa e média-média baixa.

Por outro lado, das receitas superlativas das multinacionais de armamentos, surge o rosto crescente da marginalidade planetária. Uma realidade que revela a ilógica da civilização humana hoje, com uma indústria armamentista que se torna a principal beneficiária da multiplicação da guerra e da expansão dos conflitos ao redor do mundo. Arsenais crescem junto com os pavios dos detonadores em um caminho onde a autodestruição da humanidade, resultante de uma Terceira Guerra Mundial generalizada, deixa de ser uma imagem futurista da ficção científica para se tornar uma possibilidade assustadoramente próxima.

Tradução: Rose Lima

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.