Da perspectiva macroeconômica: motivos para não votar em Aécio

Os candidatos do PSDB à Presidência e ao Ministério da Fazenda querem mesmo nos convencer de que o culpado pelo não crescimento da economia e pela existência de – qualquer – inflação é do salário?

Os candidatos do PSDB à Presidência e ao Ministério da Fazenda querem mesmo nos convencer de que o culpado pelo não crescimento da economia e pela existência de – qualquer – inflação é do salário?
Os candidatos do PSDB à Presidência e ao Ministério da Fazenda querem mesmo nos convencer de que o culpado pelo não crescimento da economia e pela existência de – qualquer – inflação é do salário? (Foto: Lucas Anastácio Mourão)

Armínio Fraga (futuro Ministro da Fazenda de um eventual governo Aécio) tem dito que o salário-mínimo subiu demais.

Isto porque, segundo ele, o salário - tanto o mínimo quanto o salário em geral - tem crescido mais que a produtividade do país. De fato, desde 2002, o salário-mínimo teve crescimento real, ou seja, acima da inflação, de 72,3% (veja aqui).

Em síntese, ele defende que os salários (só) aumentem de acordo com o crescimento, ou não, da produtividade (além da intransigente defesa fortalecimento do tripé econômico e independência do Banco Central: não é à toa que o mercado financeiro vai ao delírio quando Aécio sobe nas pesquisas).

Os candidatos do PSDB à Presidência e ao Ministério da Fazenda querem mesmo nos convencer de que o culpado pelo não crescimento da economia e pela existência de – qualquer – inflação é do salário? Deixo uma pergunta: qual o impacto do preço do salário-mínimo sobre a produção?

Esse raciocínio, além de tecnicamente questionável, é um ataque aos trabalhadores, especialmente aos mais pobres. Vou explicar o porquê.

É claro que uma inflação alta prejudica muito mais o trabalhador assalariado - uma vez que se compromete uma imensa parte da sua renda com consumo de subsistência e pouco sobra para poupar ou investir - e que um método eficaz para segurar o avanço dos preços é aumentar a taxa de juros. Ao mesmo tempo, que mais sente na pele as implicações da elevação dos juros é, de novo, o trabalhador, que vê restrito seu horizonte de consumo e melhoria vida.

Por outro lado, quanto maior a renda de um indivíduo, menor é a parcela que precisa ser destinada ao consumo e maior a que sobra para investir. Dada a oferta de aplicações financeiras que remuneram de acordo com a inflação ou taxa de juros – algumas inclusive isentas de imposto de renda – quem tem mais dinheiro é também é quem mais consegue se proteger, seja na alta de preços ou na alta dos juros.

Há quem defenda que o prêmio pago pelas altas taxas de juros atraia investimento estrangeiro. Sim, é verdade. Atrai investimento estrangeiro especulativo, altamente volátil, que sai com a mesma facilidade que entra. Afinal, investir em pesquisa, produção, capital fixo e produtivo, requer mobilização, comprometimento de longo prazo e capacidade de assumir os riscos inerentes aos empreendimentos em geral.

Em suma, o mercado de capitais especulativo é inimigo da produção. A equação é simples: se você tiver um bom valor para fazer investimentos, ao invés de arriscar em produção e empreendimento, você colocará seu rico dinheiro no tesouro direto e vai viver de renda viajando pelo mundo (especialmente se a taxa Selic estiver em 11%), ao contrário, teria que correr todos os riscos do mundo empresarial.

As medidas a serem tomadas para resolução desses problemas são conhecidas, mas repudiadas por contrariarem muitos interesses: diminuição de juros, acabar com o atual modelo do tripé econômico, auditoria da dívida pública, regulamentação do Imposto sobre Grandes Fortunas, regulação e taxação do mercado de capitais, preferência pelo pequeno e médio capital produtivo, etc.

Um sistema financeiro equilibrado e bem estruturado pode ser saudável: financia as empresas com capital privado e permite que o governo concentre esforços em outros projetos, pode ajudar a evitar demissões e congelamentos de salários em tempos adversos, pode remunerar seus trabalhadores com ações da empresa de modo a viabilizar maior equidade da divisão de lucros. Um sistema financeiro aliado a especulação predatória, não é.

O Banco Central, por sua vez, deve trabalhar junto e de acordo com as políticas do governo federal, comprometido com medidas que auxiliem os avanços sociais. Um aliado, não um órgão paralelo. Nesse sentido, a independência do Banco Central, prometida por Aécio, mesmo sob uma perspectiva moderada, seria extremamente maléfica para a economia e, principalmente, para a classe trabalhadora.

Insisto: toda essa análise está sendo feita sob uma perspectiva moderada, não tem nada de revolucionário e, mesmo assim, o planejamento econômico de Aécio e Armínio se revela inconcebível e notadamente nefasto.

|DÉJA VÙ|

A propósito, há muito pouco tempo nós já assistimos a aplicação dessa receita neoliberal ortodoxa na Europa, com arrocho dos salários para vinculação à produção e subsídios cada vez mais altos para o mercado de capitais com a consequente fragilização dos empregos. O resultado é que, desde 2008, os trabalhadores vêm pagando a conta naquela continente: com a Espanha batendo a bizarra casa dos quase 23% de desempregados, a Grécia com 17,7% e toda a Zona do Euro com índice acima dos 10%. Em números absolutos, toda a União Europeia, aplicando a mágica receita neoliberal (venerada por Armínio Fraga e Aécio Neves) chegou à incrível marca dos 23 milhões de desempregados (veja aqui).

Na contramão dessa fracassada receita neoliberal ortodoxa, o Brasil, com todos os seus inúmeros e inegáveis problemas, não só fortaleceu o mercado de trabalho como está passando pela crise gerando empregos, para espanto dos engomados que insistem em aplicar a solução econômica que devastou a Europa, que curvou o Brasil três vezes ao FMI na década de 90, e Armínio era o guru da economia nessa época, além de levar nosso país a ser o 2º do mundo em número de desempregados, só perdendo pra Índia (leia mais).

Não bastasse, Armínio, ele mesmo, declara em entrevista que "não sabe se sobrará muita coisa" dos bancos públicos (CEF, Banco do Brasil e BNDES) caso Aécio seja eleito (veja aqui). Como de praxe, mesmo dizendo que "não sabe o que sobrará dos bancos públicos", não indica quem passará a financiar programas como o FIES, o Bolsa Família, o Minha Casa Minha Vida, o Ciência Sem Fronteiras, o ProUni, as obras de infraestrutura pelo país e todos os demais programas governamentais que contam com financiamento e subsídios dos bancos públicos.

Ou é ignorância, ou é entreguismo calculado. E eu não acredito que Aécio Neves e Armínio Fraga sejam burros.

|COMPLEMENTO SOBRE IGF|

Sempre que falo em IGF, surge a preocupação sobre a "tenebrosa" fuga de capitais. Então já deixo respondido:

Pressupõem-se pelos argumentos dos contrários ao IGF que não se pode mexer no bolso dos extremamente ricos por que eles podem sair do país.

Na verdade muitas multinacionais já fazem isto, se instalam em determinado lugar por receber isenção de impostos, empregam temporariamente as pessoas o que dá a ilusão de geração de emprego, embora, os empregos destruídos do pequeno empresário não sejam computados. Ou seja, o capital internacional vem, suga enquanto tem isenção, quebra o mercado local e de pequeno porte e vai embora, deixando uma economia fragilizada, sem domínio de tecnologia e ainda com desemprego. A taxação de grande fortunas pode até correr alguns "ricaços" mas também pode fortalecer o mercado interno e incentivar o pequeno proprietário, empresário ou agricultor (acho que é desnecessário entrar aqui na discussão do latifúndio e sua produção pra exportação enquanto a agricultura familiar mantém os alimentos no Brasil).

Quanto a financerização da economia, investir na bolsa não é investir em produção, porque investir em produção diz respeito em voltar o dinheiro do lucro para o aumento direto da empresa, mais funcionários, mais máquinas, mais espaço, mais produtividade e mais salário... Já investindo na bolsa de valores, o mercado manipula um dinheiro "invisivel" pois, embora contado nos bancos, não corresponde a soma total de dinheiro "real". Sem contar que essa financerização possibilita a hegemonia do capital americano (com perdão do clichê, mas é verdade), já que somente o EUA pode produzir dólar sem a real correspondência em riqueza.

A resposta prática e de médio/longo prazo a isso seria que o capital especulativo migraria, em boa medida, para o capital produtivo, gerando empregos, aumentando a produção e os salários, e diminuindo a inflação.

Por fim, uma reportagem publicada dia 30/09/2014, no jornal Valor Econômico é direta sobre o assunto e põe pra correr alguns espantalhos do neoliberalismo:

"A fuga não preocupa o especialista em contas públicas Amir Khair. Quem não somente é dono de um patrimônio farto como também tem altos rendimentos vai ser ainda mais tributado em outros países, considera. 'Nossa alíquota máxima [de imposto de renda] é de 27,5%, a mais baixa da América Latina e uma das mais baixas do mundo', afirma."

|NO BOLSO DOS TRABALHADORES NÃO!|

É por isso que sem discutir esses pontos eu não aceito, como parece querer Armínio Fraga e Aécio Neves, que toquem na política de aumento do salário mínimo, num verdadeiro ataque aos trabalhadores. Digo, o salário (ou o aumento dele) é um "problema" extremamente menor, quase irrelevante, no meio de toda essa engrenagem macroeconômica complexa.

Armínio Fraga, que em um passado não muito distante, aplicou toda essa tenebrosa receita no Brasil, não voltará a fazê-lo, se depender do meu voto.

Observação: Em 23 de fevereiro de 2011, o senador Aécio Neves votou contra a política de valorização do salário mínimo. Foi voto vencido, ainda bem.

Por tudo isto, contra o retrocesso, votamos Dilma.

Com Julia Büscher, economista 

Conheça a TV 247

Mais de Blog

Ao vivo na TV 247 Youtube 247