Darcy Ribeiro e o Brasil de hoje

Jornalista Eric Nepomuceno relembra do antropólogo, escritor e político Darcy Ribeiro. "Não me sai da cabeça e da alma a frase que ouvi dele na minha juventude e que se transformou em guia de vida: ‘Na América Latina, nós só temos duas opções: ser resignados ou ser indignados. E eu não vou me resignar nunca’", escreve Nepomuceno

(Foto: Romulo Faro)

Por Eric Nepomuceno, para o Jornalistas pela Democracia 

Se não tivesse cometido a imperdoável indelicadeza de nos deixar para sempre no entardecer da segunda-feira 17 de fevereiro de 1997, Darcy Ribeiro estaria chegando no dia 26 de outubro a exatos 97 anos.  

Aliás, ele, meu pai, o físico Lauro Xavier Nepomuceno, e o engenheiro Leonel Brizola, todos nascidos em 1922, teriam hoje essa idade. O que me pergunto é se teriam lugar e espaço neste Brasil destroçado.

Sempre que lembro dessa coincidência me dou conta de que Darcy tinha a idade do meu pai, mas sempre foi tão ou mais jovem que meu filho Felipe, que quando meu amigo partiu tinha 21.

Eu soube dele menino, em minha casa. E até hoje Darcy faz parte do melhor legado que recebi de meu pai, que trabalhou com ele na criação da Universidade de Brasília.

O tempo passou e nós dois nos tornamos amigos fraternos. Costumo brincar dizendo que ele foi uma espécie de vice-pai para mim.  

Hoje, mais do que nunca, sinto imensa e dolorida falta de Darcy. Não deixo de me perguntar o que ele faria, o que sentiria, vendo o que acontece nesse país de inéditos desvarios perversos que foi, ao mesmo tempo, sua sede mais insaciável e sua fonte mais generosa de vida.  

Não me sai da cabeça e da alma a frase que ouvi dele na minha juventude e que se transformou em guia de vida: ‘Na América Latina, nós só temos duas opções: ser resignados ou ser indignados. E eu não vou me resignar nunca’.

Nem eu, Darcy. Nem eu. Mas saiba que neste Brasil náufrago, espoliado, violentado, é cada vez mais difícil. Não é pouca a tentação de virar as costas e zarpar sem olhar para trás.

Dia desses, para mitigar um pouco a agonia que é viver nestas comarcas destroçadas em velocidade alucinante, resolvi folhear alguns de seus livros. E tropecei com frases que poderiam perfeitamente terem sido escritas na manhã de hoje. Por exemplo:  

  • Os ricos do nosso país desfrutam muito mais de sua riqueza que os ricos dos países ricos. Para os ricos do nosso país, este projeto sempre foi muito bom, muito gratificante. Para o povo, não.  
     
  • Pensadores submissos à classe dominante afirmam que é preciso primeiro acumular para depois distribuir. É como dizer ao povo que ele comerá amanhã o que não comeu hoje. Não é verdade. Você não comerá jamais o que não comeu hoje ou ontem.
     
  • O Brasil jamais existiu para si mesmo, no sentido de produzir o que atenda aos requisitos de sobrevivência e prosperidade de seu povo. Existimos é para servir a reclamos alheios. Por isso mesmo o Brasil sempre foi e ainda é um moinho de gastar gente.
     
  • Aqui não existe um cabrito abandonado, um bezerro abandonado, mas existem milhões de crianças abandonadas, e o descaso, a indiferença diante desse fato é uma barbaridade.
     
  • Esses economistas vêm com a boca cheia de modernidades, mas com o discurso mais retrógrado do Brasil.  
     
  • O que se expande no Brasil é uma economia de prosperidade socialmente irresponsável, irracional aos requisitos essenciais da vida. O que está sendo criado, já se vê, é uma situação na qual os pobres amontoados na cidade morrerão de fome, enquanto os ricos acoitados em luxuosos condomínios fechados, quase campos de concentração, morrerão de medo dos pobres.
     
  • Em nome de uma suposta desideologização da política econômica, nos impingem a ideologia da recolonização, sem outro disfarce senão o verbal dos seus discursos em economês. A causa de tamanha insanidade reside nas pressões irresistíveis que se exercem sobre o mandatário da Nação brasileira. São elas que inspiram o fanatismo de economistas teleguiados, infiéis à sua pátria e ao seu povo.
     
  • Diferença que salta à vista é a que contrasta e opõe, de um lado, os que estão contentes com o Brasil tal qual é, e do lado oposto, os indignados, os inconformados. Os primeiros, vivendo à tripa forra, estão sempre prontos a dizer que o Brasil está em desenvolvimento. Afirmam peremptórios que, prosseguindo nos trilhos em que estamos assentados, qualquer dia, dentro de alguns anos, não se sabe quantos, mas certamente, o Brasil afinal dará certo. Pois nesses trilhos, não dará certo jamais.
     

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