Das catedrais do povo às arenas do capital
Dos estádios operários às arenas de negócios, a transformação dos palcos do futebol acompanha a história das massas, do Estado e do mercado
A história do futebol e das Copas do Mundo também pode ser contada pela história dos estádios. Não como simples evolução arquitetônica, mas como parte do processo que transformou um jogo britânico em cultura de massas e, mais recentemente, em grande negócio global. Essa trajetória pode ser lida em três grandes fases.
A primeira nasce com a própria regulamentação do futebol, na Inglaterra e nos demais países britânicos, em meio à Revolução Industrial. Surgem ali os primeiros grounds, como Sandygate e Bramall Lane, ligados às cidades operárias, às ferrovias e ao tempo livre das classes trabalhadoras. Antes de serem negócios, os estádios foram territórios populares.
Nessa fase, o futebol consolidou-se como forma de lazer das massas urbanas e os estádios tornaram-se espaços de encontro, pertencimento e identidade coletiva. Não eram monumentos, mas extensões da vida popular. Como sugere Eric Hobsbawm em A invenção das tradições, o esporte moderno ajudou a produzir novos rituais públicos, e os estádios tornaram-se uma de suas arquiteturas fundamentais.
A segunda grande transformação veio entre os anos 1930 e o pós-guerra, quando a ascensão do Estado nacional e dos grandes projetos públicos na Europa e na América deu origem aos estádios monumentais. Não eram apenas arenas esportivas, mas símbolos de poder, modernidade e imaginação nacional.
Wembley, em Londres, expressou cedo essa lógica, convertendo o futebol em ritual cívico. O Estádio Centenário, em Montevidéu, para a Copa de 1930, já surgia como monumento. Mas foi o Maracanã, no Rio de Janeiro, em 1950, que levou essa ideia a outra dimensão. Mais que um estádio, o Maracanã foi uma ideia de país, como sugere Gisella de Araújo Moura, no livro O Rio corre para o Maracanã. Gisella analisa a IV Copa do Mundo de 1950 como um elemento central na construção da identidade nacional brasileira, com foco na difusão do futebol e no impacto do evento na cultura do Rio de Janeiro e do Brasil por conseguinte.
Símbolo do desenvolvimentismo e da cultura popular brasileira, ele marcou o momento em que o futebol deixou apenas de reunir multidões para produzi-las como experiência coletiva. O povo não era apenas público, era parte do espetáculo. O Maracanã e sua geral deram origem aos Geraldinos, símbolo máximo da presença popular no gigante de concreto.
Esses grandes estádios do século XX foram, em muitos sentidos, catedrais seculares. Lugares onde se ritualizavam identidade, pertencimento e memória. O futebol crescia junto com a própria invenção moderna das massas.
A terceira fase começa quando o futebol se converte plenamente em negócio global. Um marco simbólico está na Copa de 1986, no México, como indica. Marcelo Weishaupt Proni, professor de economia da Unicamp e autor do livro “A metamorfose do futebol”, publicado em 2000 pela editora da Unicamp. Segundo ele, foi na Copa do México, que os direitos de transmissão televisiva atingem outro patamar e a lógica do espetáculo midiático passa a reorganizar o esporte. Era a culminação de um movimento que já se insinuava, por exemplo, com a comercialização das transmissões do futebol inglês na mesma década.
Se antes os estádios eram feitos para abrigar multidões, agora passam progressivamente a ser pensados para gerar receitas.
Agora, as antigas catedrais populares começam a ser substituídas por arenas multiuso. Equipamentos esportivos tradicionais transformam-se em hubs de negócios e entretenimento, maximizando receitas por meio de shows, eventos corporativos e experiências durante os 365 dias do ano. O modelo privilegia conforto, segurança, infraestrutura modernizada, assentos numerados e maior proximidade com o gramado e, ao mesmo tempo, amplia a versatilidade comercial desses espaços.
Há ganhos evidentes para os gestores deste modelo de negócio. Mas há também uma mudança de sentido na cultura nascida com a expansão do futebol como símbolo das massas trabalhadoras urbanas. Agora, o torcedor muitas vezes deixa de ser visto como sujeito da festa para ser tratado como consumidor. A arena substitui o estádio como paradigma. E essa mutação diz muito não apenas sobre o futebol, mas sobre o mundo.
Dos grounds operários às arenas globais, a história dos estádios acompanha as metamorfoses do próprio capitalismo. Mudaram as arquibancadas, mudaram os negócios, mudou o futebol. Mas algo permanece.
Em matéria recente publicada no Brasil 247, os números mostram a escala dessa transformação. Estudo preliminar da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), divulgado em abril de 2026, estima que o futebol movimente cerca de R$ 91,4 bilhões por ano no Brasil, algo próximo de 0,7% do PIB nacional. Em escala global, projeções apontam para algo em torno de 40 bilhões de dólares movimentados pelo setor em 2026 com a realização da Copa do Mundo. Não há dúvidas do tamanho do negócio que envolve o futebol no Planeta.
Talvez por isso seus grandes palcos sigam sendo chamados de catedrais: porque, mesmo atravessado pelo mercado e pelos negócios, o futebol ainda carrega a memória de quando o povo ocupou esses espaços para inventar rituais, reconhecer-se como multidão e, muitas vezes, fazer história.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
