Datafolha detecta esquizofrenia (ou ignorância) ideológica: 30% dos simpatizantes do PT se declaram “de direita”
A pesquisa Datafolha mostra, em verdade, que o brasileiro sem preferência partidária é politicamente moderado: 23% se consideram de esquerda ou centro-esquerda e 28% se consideram de direita ou centro-direita. Essa superioridade da direita, no entanto, deve ser sopesada pelo fato de que, notoriamente, muitos brasileiros de pouca escolaridade marcam a opção direita sem saber muito bem do que se trata, em virtude (como já dissemos acima) da semântica aparentemente mais positiva dessa palavra
No post anterior, eu mencionei uma pesquisa do Datafolha do final do ano passado, que não recebeu muita mídia. Desde que o golpe se consolidou, a imprensa brasileira perdeu subitamente o interesse em monitorar o pulso da população. Ela até encomenda, ou divulga, algumas pesquisas, de vez em quando, mas sem fazer muito alarde e, sobretudo, escondendo nervosamente alguns de seus resultados.
Voltemos à pesquisa mencionada, que traz tabelas com uma “escala ideológica” dos brasileiros. A sondagem perguntou ao entrevistado o seguinte: numa escala de 1 a 7, sendo 1 mais esquerda e 7 mais direita, onde você se posiciona?
O resultado é interessante. Eis a tabela com a divisão das respostas por segmentos.

Observe a coluna de escolaridade. Entre os brasileiros com apenas ensino fundamental, é onde a direita é mais forte. O discurso, portanto, de que Dilma e Lula ganhavam votos porque tinham apoio dos ignorantes, não é verdadeiro. Dilma ganhou eleições apesar do conservadorismo do brasileiro pobre e com baixa escolaridade. Essa contradição, aliás, ajuda a explicar a passividade desse mesmo eleitor diante do golpe, visto como um imbróglio político com cuja polarização ele não se identifica.
Entre os brasileiros com curso superior, 15% se dizem de direita e 16% se dizem de esquerda. Somando esquerda com centro-esquerda, e direita com centro-direita, teríamos 31% de esquerda e 30% de direita entre brasileiros com ensino superior.
É fato que a direita está muito forte no Brasil, alimentada por um sistema de comunicação herdado da ditadura, que faz lavagem cerebral dia e noite. E atingiu essencialmente o mais pobre.
Outra tabela do Datafolha, com a segmentação da orientação ideológica por partido, retrata uma situação incrivelmente esquizofrênica. Entre os entrevistados que se declararam simpatizantes do PT, um percentual absurdamente alto de 22% se caracterizam como “direita”, o que revela o miserável fracasso do PT em orientar o seu próprio eleitorado sobre qual a sua posição no espectro político nacional. Outros 8% de simpatizantes petistas se declararam de “centro-direita”.
Observe que estamos falando do eleitor que declarou simpatia pelo PT, em detrimento de qualquer outro partido, ou seja, falamos de uma minoria: apenas 9% dos 2.828 entrevistados pelo Datafolha, em dezembro do ano passado, declararam simpatia ao PT. Desses 9%, temos 30% que se declararam de direita ou centro-direita.
A essa confusão deve ser atribuída uma boa parte da responsabilidade pela derrota eleitoral do PT em 2016.
A orientação ideológica dos entrevistados que declararam algum tipo de preferência partidária é, previsivelmente, muito mais polarizada e definida do que daqueles (maioria) que não simpatizam com nenhum partido.
A pesquisa Datafolha mostra, em verdade, que o brasileiro sem preferência partidária é politicamente moderado: 23% se consideram de esquerda ou centro-esquerda e 28% se consideram de direita ou centro-direita. Essa superioridade da direita, no entanto, deve ser sopesada pelo fato de que, notoriamente, muitos brasileiros de pouca escolaridade marcam a opção direita sem saber muito bem do que se trata, em virtude (como já dissemos acima) da semântica aparentemente mais positiva dessa palavra.
O PSDB, por sua vez, consolidou-se de uma vez por todas como o partido da direita, na contramão do que pensam fanáticos bolsominions e demais radicais de ultra-direita, que insistem em associar o partido a um misterioso tipo light de esquerda. Segundo o Datafolha, entre os simpatizantes do PSDB, 60% se consideram de direita ou centro-direita, contra apenas 13% que se consideram de esquerda ou centro-esquerda. O simpatizante do PMDB, por sua vez, se já teve pendores progressistas no passado, hoje em dia migrou fortemente para a direita, embora ainda não seja tão radicalizado como um tucano.
A direitização do simpatizante tucano, por sua vez, explica a queda de seus candidatos nas pesquisas: seu eleitor está migrando para Jair Bolsonaro, em busca de uma afirmação ideológica mais consistente .

Um outro fator interessante, presente na primeira tabela do post, é que o público feminino está à esquerda do masculino. 23% dos homens se declararam de direita, contra 18% das mulheres. Somando direita com centro-direita, a diferença é ainda mais gritante: 36% dos homens se declararam de direita, contra 27% de mulheres. A associação da ideologia de direita ao machismo certamente explica isso. Jair Bolsonaro, candidato preferido da direita, tem um desempenho extremamente negativo entre o eleitorado feminino.
A esquerda tem potencial para crescer muito junto às mulheres, pois é neste segmento que encontramos o maior percentual de indefinição: 24% das mulheres disseram não saber que orientação ideológica preferem, contra 15% de homens que optaram pela mesma resposta.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

