David Miranda: “não vou mandar os meus filhos para o exterior”

Em entrevista a Denise Assis, do Jornalistas pela Democracia, o deputado David Miranda (PSOL-RJ) fala sobre o escândalo da Lava Jato divulgado pelo seu esposo, Glenn Greenwald, e diz que as ameaças que ambos estão sofrendo não os farão deixar o País; " falar que o material foi obtido de uma forma ilegal, isto é leviano. É só uma cortina de fumaça para poder desacreditar um ganhador de Pulitzer. Ele é um jornalista super sério que estão querendo desacreditar"

David Miranda: “não vou mandar os meus filhos para o exterior”
David Miranda: “não vou mandar os meus filhos para o exterior”

Por Denise Assis, para o Jornalistas pela Democracia

O Deputado federal, David Miranda (PSOL/RJ) está no olho do furacão. Desde que o seu marido/companheiro, o jornalista Glenn Greenwald, publicou no domingo (09/06) no site The Intercept, denúncias que evidenciaram a interferência do ex-juiz e agora ministro da Justiça, Sérgio Moro, e do procurador Deltan Dallagnoll, no processo da Operação Lava-Jato, que sua vida está um rebuliço. Glenn, a partir de documentos, áudios e vídeos que diz ter em seu poder, acusa Moro de ter trabalhado sem nenhuma imparcialidade para levar o ex-presidente Lula para a prisão, como forma de impedir a sua candidatura à presidência da República, quando este liderava as pesquisas de intenção de voto. A tese, embora sempre repetida pela defesa do ex-presidente, do próprio Lula e de todo o segmento progressista, agora ganha respaldo em farta documentação.

A partir da publicação de (1%, conforme definiu Glenn) do material, a família de David passou a ser ameaçada. Um dos autores das ameaças, chegou a dizer que mataria a sua mãe. Mesmo sob ataques a ele e à família, David afirma que não mudará a sua vida por conta disto e não vai mandar para o exterior os dois filhos adotivos que tem com Glenn Greenwald. Como deputado, ele tem dedicado o mandato à causa LGBT e acaba de mandar para apreciação, um projeto que, à exemplo da Lei Maria da Penha, protege esta população da homofobia, de violências sofridas publicamente ou nos seus lares, e estabelece regras para companheiros que ameacem ou tenham usado de violência contra seus pares.

O projeto de lei 2653/19, visa coibir a violência por LGBTIfobia. O projeto protocolado pelo deputado federal, que assumiu o cargo de Jean Wyllys, dispõe de medidas protetivas ao público LGBTI (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transexuais e Intersexuais). Entre as determinações, está a de que ao se constatar a prática de violência, a autoridade policial deverá imediatamente garantir proteção à pessoa ofendida e fornecer transporte a abrigo quando houver risco de vida. O agressor poderá ser punido com afastamento do local de convivência com o ofendido, de aproximar-se da pessoa e de seus familiares de acordo com uma distância estabelecida e de frequentar determinados lugares.

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- 247 - Eu gostaria que você falasse um pouco sobre essa ironia que foi feita com relação à opção sexual de vocês, quando isto é público.

- David Miranda – Isto é uma coisa que a gente tem lidado há muito tempo. Nós estamos há 14 anos juntos, temos dois filhos adotivos, temos 25 cachorros, estamos numa vida pública, nosso relacionamento é de casados em dois países diferentes. Mas o real problema na base disto é uma "cortina de fumaça". Falar sobre a homossexualidade é demonstrar essa homofobia é simplesmente uma cortina de fumaça, para não falar sobre o caso real, que foram as publicações. Mas além disso, é uma coisa que vai mais no cerne, do núcleo da sociedade. O Brasil é o país que mais mata LGBTs no mundo. Um casal LGBT, e um casal homoafetivo como nós somos, em lugares e estruturas de poder, eu aqui como deputado federal, o Glenn como jornalista... Eu fui listado no mês passado entre 10 lideranças mundiais da Time. Eles não aguentam ver pessoas como nós, como pessoas normais, constituindo família porque esse país é homofóbico. Nós temos um presidente LGBTfóbico. É muito as diretrizes do que acontece nesse país. Por isto que também eu coloquei um projeto aqui na casa, para poder cuidar, não só para ser punitivista, do jeito que está passando lá no Senado, como também para cuidar da população LGBTI. É um projeto "Maria da Penha" LGBT.

- 247 - Nessa relação, com a sua família constituída, com dois filhos junto com o Glenn, como é que fica a questão das crianças, o plano de segurança para a sua família, incluindo a sua mãe, que foi ameaçada?

- A gente já está cuidando disso, já tomamos todas as medidas de segurança e está tudo muito bem. Minha família vem em primeiro lugar, sempre e as medidas necessárias já foram tomadas.

- 247 - Vocês têm plano de mandar as crianças para o exterior?

- Claro que não. Por que eu vou mandar os meus filhos para fora do país? São meus filhos, quem tem que criar os meus filhos sou eu, né?

- 247 - Devido à situação e às ameaças...

- São situações e ameaças, mas procuramos uma forma diferente de segurança, uma rotina diferente para os meus filhos e a nossa rotina também. Isso não tem nada a ver com mandar os meus filhos para fora do país. Isso nunca nem sequer passou pela minha cabeça.

- 247 - Hoje você teve um entrevero com o filho do Bolsonaro. Com o Flávio?

- Não. Com o Eduardo.

- 247 - Em torno do que foi esta questão?

- A gente estava na Comissão de Relações Exteriores. A gente debateu vários assuntos, lá. Eu critiquei a forma como ele criticou a Venezuela, utilizando vários artigos da Internet, e fiz uma comparação ao final de semana, dele ter criticado as publicações do final de semana, dizendo que não era plausível as publicações do Intercept. Eu estava apontando a hipocrisia dele. (Eduardo desqualificou sites alternativos).

- 247 - Ele atacou as publicações?

- Atacou a credibilidade delas.

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- 247 - Sim. Mas hoje, durante a discussão?

- Não. Ele utilizou de artigos (de sites), para reforçar uma posição dele, da Internet. Eu apontei a hipocrisia dele, por utilizar os artigos e no final de semana criticar que um portal tinha feito as denúncias. Eu apontei a hipocrisia dele.

- 247 - A imprensa tradicional – quer dizer, parte dela -, está tentando desqualificar as publicações, alegando que houve crime na forma como essas informações foram capturadas, pelo The Intercept. De que maneira vocês vão conseguir provar que não houve esse ataque?

Claro, isto é óbvio. A gente é um portal muito sério, que faz publicações nos Estados Unidos e no Brasil. Não tem qualquer ligação com qualquer hacker. Isto é uma cortina de fumaça, como eu falei. Eles estão tentando colocar isto. O que precisa ser feito, já que estão falando isto, é que a PGR – a Procuradoria Geral da República – precisa abrir uma investigação e apurar se as denúncias que foram feitas pelo portal foram colhidas diretamente com o ministro Sérgio Moro e o procurador Dalagnoll (Deltan Dalagnoll) e se isto foi obtido de uma forma irregular, que eles abram uma investigação que comprove tudo. E aí a gente vai saber.

- 247 - Ok.

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- Aí sim. Agora, falar que o material foi obtido de uma forma ilegal, isto é leviano. É só uma cortina de fumaça para poder desacreditar um ganhador de Pulitzer (Prêmio máximo do jornalismo mundial, que Glenn Greenwald recebeu por publicar denúncias sobre o Wikileaks). Ele é um jornalista super sério que estão querendo desacreditar.

- 247 - Um deputado do Podemos acusou vocês de comprarem o mandato do Jean Wyllys. Deram, inclusive, entrada num pedido de investigação sobre isto, hoje, na PGR. O que você tem a dizer a respeito?

- Ele vai tomar um processo, obviamente, porque isto é crime de calúnia e difamação, né? Estão inventando uma ideia de que compramos um mandato. Primeiro porque isto é racismo, né? É LGBTfobia. Por que o meu marido vai comprar um mandato para mim, se eu trabalho desde que eu me entendo por gente? Desde os 9 anos de idade eu trabalho. E isto porque ele é americano, nós somos casados, e isto quer dizer que ele tem mais dinheiro do que eu? E aí ele fala que o meu marido foi quem comprou? Que viagem é esta, gente? A minha resposta para isto é o processo que ele vai tomar.

- 247 - Quando sai o próximo lote de denúncias?

- Eu não faço ideia. Eu não tenho qualquer vínculo com a Intercept Brasil, ou com a Intercept dos Estados Unidos, agora. Eu sou um deputado brasileiro. Eu não trabalho mais como jornalista.

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