De Bolsonaro para Trump: eu sou você amanhã

"O traço preocupante da coisa é a estratégia preparada desde já para questionar as eleições, apontar interferências, apoiar as tentativas de Trump de levar a apuração para o tapetão e — por que não? — fazer a mesma coisa por aqui daqui a dois anos", escreve Helena Chagas, do Jornalistas pela Democracia

O presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, e o presidente dos EUA, Donald Trump, durante uma entrevista coletiva no Rose Garden da Casa Branca, em Washington (EUA)
O presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, e o presidente dos EUA, Donald Trump, durante uma entrevista coletiva no Rose Garden da Casa Branca, em Washington (EUA) (Foto: Reuters/Kevin Lamarque)
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Por Helena Chagas, do Jornalistas pela Democracia

O mundo amanheceu de respiração suspensa, e é impossível não imaginar uma situação em que, daqui a dois anos, seremos nós que estaremos diante de um presidente que esperneia e ameaça não reconhecer os resultados de uma eleição democrática. Nosso sistema eleitoral é muito melhor e mais moderno do que o dos americanos, sobretudo porque temos votação eletrônica e não temos colégio eleitoral para distorcer os resultados da vontade popular. Mas nosso presidente é muito mais parecido com Donald Trump do que poderia supor o razoável — e já começa a pavimentar o caminho da confusão.

Não foi um lunático qualquer que escreveu aqueles posts que apareceram no twitter pessoal do presidente da República hoje cedo. Parece ter sido ele mesmo. E o que Bolsonaro fez? Talvez o que nem Trump tenha tido coragem ainda de fazer: levantou suspeitas de “ingerência externa” nas eleições dos Estados Unidos. “No campo de informações, há sempre uma forte suspeita de ingerência de outras potências no resultado final das urnas”, escreveu Jair Bolsonaro. E prosseguiu: “No Brasil, em especial pelo seu potencial agropecuário, poderemos sofrer uma decisiva influência externa, na busca, desde já, de uma política interna simpática a essas potências, visando às eleições de 2022”.

A quem o presidente se refere? China? Russia? Venezuela? Kazakistão? Pouco importa. O traço preocupante da coisa é a estratégia preparada desde já para questionar as eleições, apontar interferências, apoiar as tentativas de Trump de levar a apuração para o tapetão e — por que não? — fazer a mesma coisa por aqui daqui a dois anos. Mais adiante, num outro posto, Bolsonaro questiona por que as “esquerdas”estão avançando na América Latina.

Não parece lhe passar pela cabeça que as esquerdas ganharam eleições e plebiscitos livres e democráticos, como deve ser a eleição presidencial de 2022 por aqui e como parece estar sendo o pleito presidencial nos EUA — apesar de toda a complicação do sistema deles. Aliás, como foi a eleição que o levou ao Planalto em 2018 e teve o resultado respeitado por todos.

O que não pode deixar de passar por nossas cabeças é qu,e aqui, como lá, pode existir um sujeito que vai tentar fazer de tudo para passar por cima das regras se descobrir que essas não vão favorecê-lo nos resultados. Podemos até usar o eufemismo de adversário da democracia, mas qualquer um que se arrisque a fazer isso tem que ser chamado pelo nome certo: golpista.

Não sabemos o que ocorrerá nos EUA, mas a torcida é para que a diferença entre Biden e Trump resolva o assunto sem tapetão. Mas esta terça mostra que, no nosso quintal, temos que ficar atentos. Pass da hora de as instituições e a sociedade demarcarem sua posição diante de narrativas que querem tumultuar a disputa política, e eleição e a própria democracia. O recado vale sobretudo para as elites responsáveis pelo desfecho de 2018: o assunto é sério e chegou a hora de parar de bater palma pra doido dançar.    

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