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Emir Sader

Colunista do 247, Emir Sader é um dos principais sociólogos e cientistas políticos brasileiros

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De Consumidor a Cidadão

Da inclusão pelo consumo à consciência cidadã: os desafios da democracia brasileira na formação de sujeitos de direitos e ação social

Festa dos eleitores de Lula (Foto: Fernando Frazão / Agência Brasil)
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A construção da democracia no Brasil de hoje passa pela transição dos indivíduos de simples consumidores para cidadãos.

O que isso significa? Significa que é um grande avanço na vida das pessoas chegar a ter acesso aos bens fundamentais de consumo. É superar a situação de pobreza, miséria e exclusão social para a condição de consumidores.

A inegável distribuição de renda que o Brasil vive está transformando milhões de brasileiros em consumidores, dando-lhes acesso aos bens fundamentais de consumo. Esse é o fenômeno positivo mais importante desta primeira fase dos governos do PT.

Mas esse movimento é apenas o primeiro passo de um processo que precisa ser muito mais profundo. O acesso ao consumo, por si só, não leva à consciência social e política indispensável para as mobilizações populares que a esquerda necessita promover.

As pessoas melhoram suas condições de vida, mas nem por isso chegam à consciência das razões que levaram a essa melhoria. Em outras palavras, chegam a ser consumidores; não são mais excluídas econômica e socialmente, mas não chegam a ser cidadãs, isto é, sujeitos de direitos.

Essa é uma debilidade do processo de construção democrática do país. O nível de consciência política ainda é muito baixo. A principal razão vem da análise clássica de Marx — tão esquecida hoje — ao falar dos processos de alienação. Um processo que, tomado pelo lado jurídico, significaria entregar a outro aquilo que é seu. No caso da consciência, significa não se dar conta do processo concreto de que se participa.

Na alienação do trabalho, de onde surgiu a análise de Marx, trata-se de produzir algo, entregá-lo a outro e não se reconhecer nesse produto. É como olhar uma loja onde está exposto um produto feito pelo próprio trabalhador e não se reconhecer nele. Isso ocorre porque o produto do seu trabalho é apropriado pelo proprietário dos meios de produção nos quais o trabalhador opera.

A falta de consciência, ou a falsa consciência — porque há sempre alguma consciência, mas, na grande maioria dos casos, trata-se de uma falsa consciência — é resultado da alienação do trabalho, em sua origem. Mas ela atinge a grande maioria das pessoas em sua vida cotidiana, tornando sem transparência o processo de produção da riqueza pelos trabalhadores e sua apropriação por parte dos empresários.

Assim também o consumidor pode ter acesso a bens fundamentais, deixando de ser privado das condições básicas de subsistência, mas continua sendo explorado como força de trabalho e permanecendo objeto da alienação, da falta de consciência das condições em que vive.

A passagem do simples consumidor para cidadão seria resultado do processo de tomada de consciência das condições concretas de vida das pessoas. Tomar consciência como cidadão é dar-se conta dos direitos que os indivíduos deveriam ter, embora não disponham deles.

No caso econômico, seria receber a remuneração devida pelas mercadorias que produz. No caso das condições de vida em geral, seria compreender como a riqueza é produzida pela grande maioria e apropriada por uma pequena minoria de pessoas.

Esse é o principal desafio para a esquerda: promover a consciência social das pessoas acerca dos mecanismos de funcionamento do capitalismo, dos quais decorre a possibilidade de cada indivíduo compreender seu lugar no funcionamento da sociedade. Trata-se da consciência social dos operários e de todos aqueles que trabalham, mas se veem privados dos resultados do que produzem.

Uma democracia significaria, assim, uma sociedade com consciência e organização social da grande massa da população. A luta contra a alienação é um objetivo fundamental da esquerda e de todos os que lutam por uma sociedade justa e democrática.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.