De Reinaldo a Bandeira nenhum golpe merece perdão

Azevedo, por muitos conhecido como o "pitbull" da direita brasileira, esgrime truculência em cada frase, principalmente se o tema sobre o qual esteja escrevendo desperte seus mais baixos instintos ideológicos e político-partidários



Pior que imprensa míope somente jornalistas raivosos. E aqui se encaixa na medida o colunista Reinaldo Azevedo, que escreve tanto na revista Veja quanto na Folha de S.Paulo. O colunista é conhecido por suas posições altamente beligerantes, sem o menor respeito ao contraditório, como se poderia esperar de alguém que se julga jornalista. Azevedo, por muitos conhecido como o "pitbull" da direita brasileira, esgrime truculência em cada frase, principalmente se o tema sobre o qual esteja escrevendo desperte seus mais baixos instintos ideológicos e político-partidários.

E foi assim que agiu, de forma agressiva e com linguajar de porta de botequim, desandou a atacar o secretário-geral da Mesa do Senado, Luiz Fernando Bandeira de Mello. E isso porque o servidor do Senado concedeu entrevista a Leandro Colón, da FSP, tratando do fatiamento da votação do impeachment de Dilma Rousseff. Se Bandeira de Mello merece alguma coisa ao fim e ao cabo de todo esse conturbado e trágico processo – que ousou cassar mais de 54 milhões de votos concedidos a Roussef em outubro de 2014, e que a legitimou para o exercício de um segundo mandato como presidente do Brasil – esse algo é gratidão. Gratidão por seus esforços para ajudar a reparar parte da gritante injustiça que o Senado terminou por decidir contra uma presidente condenada sem a comprovação de que cometera qualquer crime de responsabilidade como estipula o texto constitucional para os processos de impeachment. Gratidão porque facilita o trabalho de futuros historiadores que estudam desde há muito a política brasileira.

No entendimento de Bandeira de Mello, a Constituição diz expressamente que a pena pelo crime de responsabilidade fica limitada a perda do cargo com inabilitação para cargos públicos por oito anos. Ele entende que essa inabilitação é a pena máxima e que, portanto, entre a absolvição e a pena máxima poderia existir uma dosimetria.

O secretário-geral da Mesa chega a esclarecer o óbvio: O regimento do Senado diz que qualquer proposição pode ser objeto de um destaque. E um destaque, sabem todos os que conhecem o processo legislativo, nada mais é que recortar um texto da proposição e votar separadamente.E, nessa direção, a bancada do PT apresentou um requerimento de destaque, que não apenas é um direito dela de qualquer bancada, como também é expressamente previsto no regimento.

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A entrevista é uma mão na roda para todos os que se debruçaram sobre o recém-encerrado processo de impeachment da presidente, uma vez que joga luz sobre seu epílogo. Um processo que tem início com a chantagem do deputado Eduardo Cunha, então presidente da Câmara dos Deputados, que esperava assegurar os votos do PT no Conselho de Ética da Casa que analisava – de forma tanto exaustiva quanto atabalhoada – cassar seu mandato por haver mentido em um CPI sobre a existência de contas correntes mantidas em seu nome no exterior. Ao longo das muitas sessões da Comissão do Impeachment – carinhosamente conhecida nos corredores do Senado como a Comissão do Golpe – foi se constatando a fragilidade da acusação e a completo desmonte da ocorrência de crimes de responsabilidade por parte de Dilma Rousseff. Mesmo órgãos técnicos com o Tribunal de Contas da União (TCU) e o Ministério Público da União (MPU) desmascararam por completo a leviandade de se imputar à presidente a autoria de crimes que nem mesmo chegaram a existir.

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No fundo, todo este traumático processo nada mais foi que apear do Poder o PT, partido que logrou quatro sucessivas vitórias contra seus raivosos concorrentes, tendo à frente o PSDB do candidato derrotado Aécio Neves. E com isso interromper um ciclo benéfico para o país: ciclo de inclusão social ampla e irrestrita, de ações afirmativas em favor de populações historicamente vulneráveis, de acentuada valorização do salário-mínimo, de políticas publicamente eminentemente cidadãs e, cereja do legado petista, de uma política externa soberana e altiva.

Tudo isso é suficiente para atiçar colunistas ensandecidos que, sabendo que a votação final do impeachment longe de ser o fim das utopias de esquerda, tão claramente vocalizadas pelo PT, nada mais é que o ressurgimento de uma esquerda consciente e aguerrida, engolfando o segmento jovem e transcendendo em muito as lutas político-partidárias.

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A assunção do PMDB com Michel Temer e Romero Jucá na Presidência da República, e do PSDB, com os candidatos derrotados Aécio Neves, José Serra e Geraldo Alckmin ao mesmo Palácio do Planalto, nada mais são que grotesco e perigoso ensaio de graves retrocessos constitucionais, institucionais. A memória dos brasileiros dos anos da ditadura militar ainda é muito fresca. E a forma desabrida, truculenta e raivosa com que defensores do golpe se portaram no último dia 31 de agosto de 2016, dificilmente será esquecida, nem que se passem os próximos 10 ou 20 anos. E não importa que jornais antes influentes – como a Folha de S.Paulo, o Globo e o Estadão – repitam neste agosto de 2016 as mesmas ações que mancharam sua história em março de 1964, aquele criminoso - e esfuziante - apoio à supressão das liberdades democráticas no Brasil. A História já começou a cobrar seu preço, com juros e correção monetária.

Um golpe é sempre um golpe. E jamais terá perdão. Que o digam os 100.000 brasileiros que, menos de uma semana após ser deposta a presidente da República, encheram as ruas de São Paulo com dois principais gritos de batalha:

"Fora, Temer!"

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"Diretas, Já!"

A luta pela democracia e contra o Golpe de 2016 apenas começou.

Este artigo não representa a opinião do Brasil 247 e é de responsabilidade do colunista.

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