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Paulo Moreira Leite

Colunista e comentarista na TV 247

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Decisão sobre Lula permite reencontro do país consigo mesmo em 2022

Dois anos e nove meses depois do tuíte de Villas Bôas, Fachin anula condenações de Lula e abre caminho para sua presença na sucessão presidencial, escreve Paulo Moreira Leite, do Jornalistas pela Democracia

Decisão sobre Lula permite reencontro do país consigo mesmo em 2022

Por Paulo Moreira Leite, para o Jornalistas pela Democracia

Ao assinar uma sentença onde a urgente liberdade política de Lula abre caminho para o perdão aos abusos de Sérgio Moro na Lava Jato, Edson Fachin levou ao STF uma tradição inaugurada pela dinastia dos Orleans e Bragança no 7 de setembro de 1822.

Explico. Até hoje os historiadores debatem se naquela data o futuro imperador Pedro I proclamou a independência de um novo país. Ou se o episódio às margens do Ipiranga não passou de um desmembramento do antigo Império Português entre os membros de uma mesma  família, decidida a proclamar a Independência antes que o povo o fizesse, como diz a frase lapidar atribuída a João VI.

A experiência de 199 anos e alguns meses mostra que ocorreu uma combinação das duas coisas, com vários momentos nebulosos.  Não é difícil perceber, contudo, que ali nascia uma cultura política que busca mudanças sem ruptura. 

Foi o que se viu em 1888 numa Abolição que levou seis décadas para se consumar e jamais assegurou qualquer compensação à população escravizada. Esse mesmo traço fez parte de uma  República que nasceu sob a espada de generais e assim permaneceu.

Em 1984, após 20 anos de ditadura, proclamou-se uma democracia incapaz de levar  torturadores a sentar-se no banco dos réus. Não chega a surpreender, assim, que em 2021 os brasileiros e brasileiras estejam submetidos a um governo empenhado em sabotar as liberdades e a saúde do povo.

Nem tudo foi ilusão ou maquiagem, porém. Entre 2002 e 2016, nos governos Lula e Dilma, nasceram programas mais efetivos de distribuição de renda e proteção às famílias pobres. Flagelos que pareciam eternos, como a seca nordestina, começaram a ser vencidos, enquanto se encontrava caminhos efetivos para o país explorar suas riquezas naturais, a começar pelo petróleo.  Foi possível abrir as universidades para alunos pobres e pretos e a diplomacia conquistou o direito de falar com voz própria  na cena internacional.

A decisão de Fachin ocorreu num momento peculiar da  conjuntura política. No fim de semana, divulgou-se uma pesquisa na qual 50% dos eleitores manifestaram apoio à candidatura  Lula numa pesquisa eleitoral, sem saber que seu  nome poderá estar escrito na cédula de 2022. (No mesmo levantamento, o supostamente imbatível Bolsonaro aparece com 38%).

Dois anos e onze meses depois que o general Villas Bôas usou o tuíte para convencer o Supremo a vetar a presença de Lula na  campanha de 2018, a sentença de Fachin abre caminho para o país reencontrar-se consigo mesmo em 2022.

Como até as pedras de Brasília já sabem, uma condição básica para a recuperação da democracia é o respeito pelos direitos de Lula.

Alguma dúvida?

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.