Decreto das armas é licença para matar

O decreto que permite a posse de pelo menos quatro armas por maiores de 25 anos prenuncia "mais violência e mais mortes. Esse decreto, aliás, é a cara do novo governo que, segundo o teólogo Leonardo Boff, é 'o triunfo da ignorância e da estupidez'", escreve o colunista Ribamar Fonseca; "Além do incremento da violência, com a liberação das armas, as perspectivas para o futuro são muito sombrias. Por mais boa vontade que se tenha, não se consegue vislumbrar, na linha do horizonte, nenhuma luz de esperança de que alguma coisa boa irá acontecer"

Decreto das armas é licença para matar
Decreto das armas é licença para matar (Foto: Esq.: Alan Santos - PR / Dir.: Reuters)

Cerca de 70% dos brasileiros não aprovam as medidas do presidente Jair Bolsonaro, em especial a liberação de armas. Diante desse dado, detectado em pesquisa do Datafolha, surge automaticamente a pergunta: e como é que ele foi eleito? A pesquisa não responde a essa pergunta, mas a sua resposta não é muito difícil: ele foi eleito graças a dois fatores principais – a combinação da campanha da mídia de criminalização de Lula e do PT com a indústria de fakenews do ex-capitão, que deixou grande parte dos eleitores imbecilizados e vulneráveis às promessas de salvação da Pátria; e à prisão de Lula, que o afastou das eleições deixando o campo livre para Bolsonaro. E agora, passada a euforia inicial dos eleitores que acreditaram em mudanças com o novo presidente, a realidade do equívoco cai com todo o seu peso sobre a população, menos de um mês após a posse do novo governo. Até hoje não houve uma só medida, executada ou anunciada, que beneficie o povo. Muito pelo contrário, todos os atos só trazem prejuízos, inclusive o decreto que permite a posse de pelo menos quatro armas por maiores de 25 anos, prenunciando mais violência e mais mortes. Esse decreto, aliás, é a cara do novo governo que, segundo o teólogo Leonardo Boff, é "o triunfo da ignorância e da estupidez".

Para justificar o decreto o ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, não titubeou em falar duas grandes asneiras, na verdade, escandalosas mentiras: nos países onde as armas são liberadas a violência é menor e, surpreendentemente, comparou o risco de ter uma arma em casa ao perigo representado pelo liquidificador. Piada com coisa séria. Alguém por acaso tem notícia de que alguma vez um liquidificador matou uma criança? Será esse o nível de inteligência do novo governo? Ninguém tem dúvidas de que o número de homicídios por arma de fogo vai crescer de maneira vertiginosa, especialmente no campo, onde os assassinatos por questão de terras se tornaram rotina. E, também, nas cidades, onde a criminalidade faz vítimas todos os dias, tornando o Brasil um dos países mais violentos do mundo. E quem serão os responsáveis pelas mortes? Os responsáveis serão não apenas os que acionarem os gatilhos mas, sobretudo, aqueles que facilitaram a posse de armas: o presidente Bolsonaro e o ministro Sergio Moro. Muitos dos seus eleitores vão chorar amargamente, arrependidos, quando tiverem um parente entre as vítimas. E pensarão: "Meu Deus, não foi para isso que eu votei nesse homem!" Tarde demais.

Isso, porém, é apenas o começo pois vem mais coisa por aí. O novo secretário de Assuntos Fundiários, o ex-presidente da Associação de Ruralistas Nabhan Garcia, já está anunciando o fechamento das centenas de escolas do MST, com mais de quatro mil professores e frequentadas por 200 mil crianças, e a criminalização desse movimento, considerando-o terrorista, o que pretende justificar as possíveis chacinas dos trabalhadores sem terra, pois os ruralistas, agora fortalecidos pelo governo Bolsonaro e bem armados, entendem que estão autorizados para matar. Como acreditar num governo que tem como slogan "Deus acima de tudo" e autoriza todos a matar, facilitando a posse de armas? Como acreditar num governo que invoca Deus e viola a sua lei que, entre outras coisas, determina "não matarás"? O decreto, nem bem foi assinado, e já excitou até a desembargadora Marilia Castro Neves, do Rio de Janeiro, que, através das redes sociais, comemorou a iniciativa e incitou ao assassinato do presidenciável e líder do MTST, Guilherme Boulos. "Agora, depois do decreto, você será recebido a bala", ela disse. Boulos decidiu processá-la, o que, no entanto, não deve preocupa-la, porque o Conselho Nacional de Justiça se comporta como um órgão corporativista.

A desembargadora carioca, na verdade, cujas declarações deveriam envergonhar a magistratura, já responde a outros processos. Ela é a mesma que tentou manchar a memória de Marielle Franco, a vereadora assassinada, afirmando que ela era engajada com bandidos e fora eleita pelo Comando Vermelho. E também teria dito que o deputado Jean Wyllys, do Psol, deveria ser executado no paredão. É inconcebível semelhantes declarações na boca de um magistrado. A julgar, porém, pelo comportamento do Conselho Nacional de Justiça, que só funcionou de fato quando a ministra Eliana Calmon era corregedora, ela poderá continuar falando à vontade o que bem entender, pois ao que tudo indica não deverá ser importunada pelo órgão corporativista, que nunca sequer advertiu o então juiz Sergio Moro, acusado de vários abusos. Ela poderá até estar se credenciando para ministra do Supremo Tribunal Federal, onde respeitar direitos e fazer justiça é um privilégio de poucos. De repente – quem sabe? – ela pode furar a fila e ultrapassar Moro na nomeação para a Suprema Corte, pois já se declarou tiete de Bolsonaro, a quem apoiou nas eleições que o conduziram ao Palácio do Planalto.

O fato é que, além do incremento da violência, com a liberação das armas, as perspectivas para o futuro são muito sombrias. Por mais boa vontade que se tenha, não se consegue vislumbrar, na linha do horizonte, nenhuma luz de esperança de que alguma coisa boa irá acontecer. E o pessimismo já começa a crescer inclusive entre aqueles que contribuíram para a eleição do ex-capitão. Até a esperança de que o novo Congresso pudesse atuar verdadeiramente em favor do povo, contendo os excessos do novo governo, começou a murchar com a notícia de que as esquerdas se dividiram e estão apoiando a reeleição de Rodrigo Maia para a presidência da Câmara. Ou seja, nada muda, até porque a renovação foi de caras, já que em essência os novos parlamentares, com raras exceções, não diferem dos que não foram reeleitos: sua preocupação envolve interesses pessoais ou de grupos, não os do povo que os elegeu. A mediocridade continua, especialmente na Câmara. Só nos resta rezar.

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