Democracia antiga e moderna
A apatia política é um sinal de compreensão e tolerância da diversidade humana
Talvez as descobertas mais conhecidas e certamente as mais divulgadas da moderna pesquisa de opinião pública sejam a indiferença e a ignorância da maioria do eleitorado nos sistemas políticos ocidentais.
O livro clássico de Moses Finley, Democracia antiga e moderna, publicado no Brasil pela editora Graal, aborda esse tema. Ele reitera que, em alguns países, uma grande parte do eleitorado sequer se dá ao trabalho de votar.
Os movimentos de extrema direita “atraem as pessoas descontentes, desenraizadas, aquelas com fracassos pessoais, as socialmente isoladas, as economicamente inseguras, aquelas sem instrução, as intelectualmente simples e as autoritárias de todos os níveis sociais”, afirma ele.
Aristóteles havia afirmado que a melhor democracia estaria em um Estado com grande zona rural, no interior, e uma população relativamente numerosa composta de agricultores e pastores que estivessem de tal forma espalhados pelo país que não se encontrassem com muita frequência ou sentissem a necessidade de se reunirem.
Morris Jones escreveu que “muitas das ideias ligadas ao tema geral de obrigações de votar pertencem exatamente ao campo totalitário e estão deslocadas no vocabulário da democracia liberal”. E que a apatia política é um “sinal de compreensão e tolerância da diversidade humana”.
Tanto Platão como Aristóteles, afirmou Finley, rejeitavam a democracia. Todos os teóricos políticos da Antiguidade estudavam as diferentes formas de governo normativamente, isto é, pela capacidade de ajudar o homem a alcançar uma meta moral na sociedade, a justiça e uma vida digna.
Enquanto os escritores modernos evitam metas ideais, conceitos como o de vida digna, e enfatizam os meios, a eficiência do sistema político, sua capacidade de promover a paz e a abertura.
Joseph Schumpeter falava da “democracia como um método”, cujo objetivo é produzir um governo forte, autoritário. “Nenhum ideal está ligado à definição de uma democracia em si mesma. Ela não implica, em si, qualquer noção de responsabilidade cívica, nem de ampla participação política.” A liberdade e a igualdade não são partes essenciais dessa definição.
Há uma outra forma de avaliar as diferenças entre as concepções. Tanto Platão como Lipset entregariam a política a especialistas. O primeiro, a filósofos de rigorosa formação, que, tendo apreendido a Verdade, seriam dali por diante guiados exclusivamente por Ela.
O segundo, a políticos profissionais, que seriam guiados por sua experiência na arte do possível e seriam controlados periodicamente por meio de eleições. Estas seriam o dispositivo democrático que permitiria que o povo fizesse uma escolha entre grupos de especialistas, que é uma forma de controle.
Embora ambos concordem que a iniciativa popular nas decisões políticas seria desastrosa – que “governo do povo, pelo povo e para o povo” seria uma ingênua ideologia –, a divergência refletida na distinção entre os dois tipos diferentes de especialistas expressa duas visões fundamentalmente diversas do objetivo da política, visões diferentes dos fins que o Estado deveria atender.
Platão era completamente contra o governo popular. Lipset o aprova, contanto que não haja participação popular no sentido clássico. Por essas razões, a apatia transforma-se em um bem político.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
