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Francisco Calmon

Combatente da ditadura desde a adolescência, prisioneiro nos cárceres da ditadura do Doi-Codi ao HCE. Advogado, administrador e analista de TI. Organizador da RBMVJ e do Canal Pororoca.  Autor e organizador de vários livros, entre eles “60 anos do golpe: gerações em luta”.

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Democracia em risco sistêmico

Democracia em risco sistêmico avança nos EUA com o fortalecimento de setores extremistas que ameaçam direitos e instituições democráticas

O presidente dos EUA, Donald Trump, discursa no Rockland Community College em Suffern, Nova York, EUA, em 22 de maio de 2026 (Foto: REUTERS/Kylie Cooper)
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Por Francisco Celso Calmon e Letícia Mendonça

No ano de 510 a.C., nasceu a democracia na Grécia Antiga. Em menos de 500 dias de governo, Donald Trump vem contribuindo para o enfraquecimento das instituições democráticas nos Estados Unidos e para o desrespeito aos princípios democráticos em diversas partes do mundo onde eles ainda resistem.

Ou os democratas de todo o mundo se alinham contra o extremismo antidemocrático representado pelo trumpismo, ou caminharemos para um cenário de barbárie e aprofundamento das trevas políticas e sociais.

Quase 500 dias após o retorno de Donald Trump à Casa Branca, cresce, dentro da própria direita norte-americana, uma disputa marcada pelo extremismo, pelo autoritarismo e pela tentativa de aprofundar mecanismos de exclusão política. O movimento conhecido como “Groypers”, liderado pelo ativista ultrarradical Nick Fuentes, vem ganhando espaço entre jovens conservadores e setores do Partido Republicano.

Entre as propostas defendidas por esses grupos está o chamado “voto familiar”, no qual homens poderiam votar mais de uma vez, representando mulheres solteiras da família. A proposta, considerada inconstitucional por especialistas, evidencia o nível de regressão política que ganha força em setores da extrema direita estadunidense.

A situação desmonta o discurso dos Estados Unidos como suposto modelo universal de democracia. Enquanto Washington historicamente se apresenta ao mundo como defensor das liberdades e dos direitos civis, cresce internamente uma corrente política que questiona princípios básicos da participação democrática.

O avanço desse tipo de discurso também revela o grau de alienação política produzido por anos de manipulação ideológica, desinformação e fortalecimento de grupos ultraconservadores. Em meio à crise econômica, à inflação elevada e à frustração de parte da base trumpista, o governo republicano vê crescer forças ainda mais radicais, que acusam Trump de não ser “extremo o suficiente”.

Outro elemento que chama atenção é o desaparecimento quase completo do debate público sobre alternativas progressistas nos grandes meios de comunicação norte-americanos. A polarização nos Estados Unidos vem sendo conduzida cada vez mais dentro dos limites da própria direita, abrindo espaço para discursos nacionalistas, racistas, misóginos e autoritários ocuparem o centro da cena política.

A crise atual dos Estados Unidos não é apenas econômica ou eleitoral. Trata-se também de uma crise profunda da própria democracia liberal norte-americana, marcada pelo avanço de setores que defendem menos direitos, menos participação popular e maior concentração de poder político e econômico.

O trumpismo, que já representava uma ruptura agressiva na política dos EUA, agora enfrenta sua própria fragmentação interna. E o que emerge dessa disputa aponta para um cenário ainda mais preocupante para os direitos democráticos e para o futuro político do país.

Quanto mais a autocracia se sobrepõe à democracia formal nos Estados Unidos, mais o imperialismo se radicaliza sob a premissa de que: “Temos a força e faremos o que quisermos, salvo diante de forças iguais ou superiores à nossa”.

Este é o eixo sobre o qual Trump governa e influencia seguidores, aliados e adeptos extremistas.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.