Democracia em Vertigem

O documentário de Petra Costa, Netflix, tem muitos méritos, entre eles de prender a atenção de quem o assiste. Ainda que estejamos todos nós tocados pelos acontecimentos políticos no Brasil, uma narrativa política de mais de duas horas poderia ter sido um grande fiasco. E não foi

O documentário de Petra Costa, Netflix, tem muitos méritos, entre eles de prender a atenção de quem o assiste. Ainda que estejamos todos nós tocados pelos acontecimentos políticos no Brasil, uma narrativa política de mais de duas horas poderia ter sido um grande fiasco. E não foi. Assisti e aprendi muito o tempo todo. Me emocionei, chorei, voltei a torcer, me frustrei. Fiz uma experiência emocional e recomendo-o muito!

Por que o documentário nos toca? Penso que Petra consegue este efeito por que entrelaça o seu olhar, a sua história pessoal com as últimas décadas da história do Brasil. Ao fazer isso ela evoca em nós que assistimos o documentário o mesmo entrelaçamento. Essa evocação é muito ousada e ela poderia ter dado com os burros n´água.

Petra parece ganhar nesse gênero autobiográfico cada vez mais maestria. Lembremo-nos de Elena, documentário também marcadamente biográfico sobre sua irmã mais velha, atriz, que se suicidou. É do suicídio que Petra Costa tira a força poética. Mas poderíamos dizer, Elena pedia uma narrativa autobiográfica, intimista, um documentário político não pede. É exatamente aí que reside, ao meu ver, a ousadia da cineasta. Entrelaçando a sua história, a história da sua família Andrade Gutierrez, com a história do Brasil, ela teceu uma possibilidade rara em um documentário político: produzir intimidade entre os acontecimentos e a sua audiência. Criar uma atmosfera emocional inclusiva, o que estou chamando intimidade, é um fenômeno difícil de explicar. Por que temos intimidade com algumas pessoas e não com outras? Não é questão de tempo pois as vezes – e como é triste isso – famílias vivem juntas por décadas sem conhecer o fenômeno da intimidade. São funcionais, mas não são íntimas.  Não é o tempo que define a intimidade. São, como diria Goethe, afinidades eletivas que não podem ser explicadas. Um campo indefinível, a intimidade, que faz com que toda e qualquer experiência, se torne uma experiência singular.

I) Preferência pelo institucional-representacional

Essa jovem da elite brasileira, confessadamente de elite, lança um olhar sobre os acontecimentos do Brasil, desde meados dos anos 70, um olhar que não esconde ser de esquerda e, todavia, esse olhar é marcadamente institucional, o que lhe interessa são as passagens institucionais da política brasileira. Isso pode ter sido uma estratégia da cineasta. Será que foi mesmo? Ou sua juventude e a proximidade com o mundo institucional guiou suas preferências narrativas? O fato é que o documentário é marcadamente ¨sem povo¨! Ainda que ele esteja presente através das manifestações políticas de esquerda e/ou de direita, a cineasta não faz dele um autor da história dando todo o espaço cênico para o plano institucional/representacional. E isso desde a primeira cena do filme me chamou a atenção. O documentário se inicia dizendo que Lula liderou as greves de maio de 1978. E não foi assim! O final dos anos 70 no Brasil, ainda em plena ditadura militar, desenhou um campo político interessante e muito tenso:  as grandes greves de maio de 78 - no ABCD e em São Paulo, entre os metalúrgicos, grandes montadoras e outras categorias operárias - foram greves marcadamente espontâneas, lideradas por comissões de fábricas autônomas e independentes irmanadas com movimentos populares nos bairros periféricos de São Paulo e do ABCD com forte presença das comunidades eclesiais de base. Claro que a espontaneidade contava com intenso trabalho de militantes operários- de bairro e de estudantes universitários. Em São Paulo foi a ¨ oposição sindical¨ que liderou as greves; no ABCD as greves foram lideradas por militantes operários independentes e com pouca presença dos sindicatos, inclusive o de São Bernardo de Luis Inácio da Silva. Não raro, as comissões de fábrica independentes se opunham ao sindicato de Lula.

Entre os estudantes e os intelectuais também desenhava-se um cenário diferente: um certo cansaço da esquerda tradicional criava um campo propício para os independentes e autonomistas, inspirados no movimento italiano. Com isso quero dizer que no final dos anos 70 e começo dos anos 80 havia um forte - fortíssimo pois foi o começo do fim da ditadura – movimento popular e operário que buscava independência e autonomia em relação aos sindicatos e aos partidos. Conto tudo isso em um livro (A estratégia da recusa: análise das greves de maio de 78, ed. Brasiliense, 1982) que publiquei então, uma pesquisa em torno do movimento operário e das comissões de fábrica nesses anos – e também como terminou essa experiência.

Fiz esse parêntese para mostrar a preferência institucional de Petra Costa quando enuncia que as greves de maio de 78 foram lideradas pelo sindicato e por Lula. Teria sido esse um bom e verdadeiro momento para que ela, a cineasta, mostrasse a ¨presença do povo¨ fazendo história – independente das instituições e da representação!  Lula e os sindicatos se tornaram fortes a partir dos anos 80. O sindicato dos metalúrgicos cresceu e Lula apareceu como representação operária sindical e em seguida política através do Partido dos Trabalhadores.

A narrativa de Petra poderia ter sido outra: sem focar tanto no institucional-representacional. Essa é a minha crítica não só ao documentário Democracia em Vertigem, mas como veremos, ao PT e à esquerda em geral. Mas, sigamos...

II) A fissura do tecido social brasileiro

Esse é outro ponto alto do documentário e, de novo, a cineasta ousa, ousa muito pois oferece sua própria família, uma família rica, para mostrar o que aconteceu e está acontecendo em cada família brasileira a partir de 2013 e dos anos que antecederam o impeachment de Dilma Rousseff. Cada família brasileira, com poucas exceções, passou a viver a divisão em campos opostos, a hostilidade como regra, a impossibilidade de qualquer diálogo. Ao oferecer sua própria família em sacrifício, Petra cria com sua audiência uma proximidade ímpar. A divisão na família Andrade Gutierrez vem de longa data desde o momento em que Marília, sua mãe, além de apaixonada pelo seu pai, apaixona-se também pela revolução e distancia-se da família de empreiteiros, já poderosa e fundada pelo seu avô no final da década de 40. A história da família acompanha a história dos acontecimentos políticos desde então e acompanha predominantemente à direita, vale dizer, são a espinha dorsal de uma elite econômica com todos os nomes que a acompanha: escravocrata, de rapina, pouco afeita ao processo civilizatório. Jessé Souza a resumiu muito bem em um dos seus livros: a elite do atraso. Pois a jovem Petra não se intimida e também a denúncia no final do documentário, afirmando como narradora que, sim, é verdade a luta de classes existe e é a ¨minha classe, a classe dos ricos que está fazendo a guerra, e nós estamos ganhando¨!

Ela sabe então o que selecionar e com quem falar no plano institucional-representacional pois o congresso é, como ela deixa claro, a casa dos ricos, a casa grande e, por isso sempre foi inadmissível a presença dos trabalhadores! Lula tornou-se, nos anos 80 e 90, líder inconteste da classe trabalhadora e da classe média de esquerda, dos trabalhadores do campo mas nesses anos perdeu quatro eleições. Para finalmente ganhar fez a política do ¨pé dentro¨, de acordo com Gilberto Carvalho, ex secretário geral da presidência (PT), fez uma política de conciliação de classes, aliou-se ao PMDB, à velha aristocracia, reinaugurou uma política de aliança de classes. Cuidou da governabilidade, de manter-se no poder e com isso esqueceu da reforma política que garantiu que faria e como os demais partidos burgueses recorreu ao caixa dois, financiamentos empresariais de campanhas, ponta de lança da corrupção! O mensalão trouxe à tona um jeito velho de fazer política, através da compra de votos para aprovar projetos... Esqueceu-se de manter o ¨pé fora¨ - expressão do mesmo Gilberto Carvalho entrevistado no documentário  – quero dizer,  esqueceu-se de fortalecer suas próprias raízes: os movimentos sociais, sindicais. Petra não deixou de criticar o Partido dos Trabalhadores e, com certeza, a fala de Gilberto Carvalho é o ponto alto dessa crítica.

III) O que pode uma mãe?

Democracia em Vertigem é também uma homenagem a Marília, mãe de Petra. Discuti com várias pessoas que pensam que tal homenagem é inadequada, não precisava, força a barra... Penso que não, que a homenagem quer dizer mais do que o documentário pode anunciar. A mãe era de esquerda, os pais eram de esquerda e Petra foi criada em um ambiente emocional, em um berço psíquico dos sonhos dos pais. Tanto assim que Petra se chama Petra em homenagem ao militante de esquerda morto pela ditadura chamado Pedro Pomar, o mentor intelectual do casal parental. Tudo isso é verdade e já seria uma boa razão para a homenagem. Penso porém que há algo mais profundo nessa história toda e não se resume ao fato do casal parental e, particularmente, da mãe ter propiciado que a filha, nascida em berço esplendido, fosse de esquerda! 

Marília, como toda sua geração - eu inclusive - é  fruto de 68. Somos frutos de uma nova atmosfera emocional em que a mulher, seja de classe alta seja operária-popular, começou a existir de forma independente da estrutura patriarcal, ganhou lugar de fala, de pensamento e de ação no mundo. Foi Marília quem rompeu com a família Andrade Gutierrez, foi ela que fez valer seu coração e sua ação no mundo e que veio a público para dizer que 68 não acabou. O momento cultural exigiu dela algo mais do que ser de esquerda! É justo então que sua filha Petra a homenageie, e nos faça pensar o que pode uma mãe capaz de romper com uma estrutura que encarna a elite do atraso. Uma mãe pode muito! É esse o recado...

IV) Momentos emocionantes

Revivi vários momentos políticos emocionantes através do filme da Petra. As grandes assembleias dos metalúrgicos de São Bernardo já com a presença marcante de Lula, despontando no cenário político nacional e internacional. A posse e o discurso de Lula em 2003, pela primeira vez,  presidente do Brasil. Parecia que o Brasil finalmente tinha quebrado sua maldição, como sugere o documentário. 2013 e o começo das tensões políticas nas ruas, as inesperadas manifestações de ódio, um ódio rançoso, invejoso, feio, burro...contra a alegria e a esperança de um país soberano. Mas também as manifestações de amor, de esperança, de fraternidade do conjunto da esquerda defendendo Dilma Rousseff, Luiz Inácio da Silva, os direitos, a previdência, a educação.

Entre outros motivos Democracia em Vertigem é inesquecível por que nos realimenta com a festa pública e na festa pública com a beleza da cidadania e a alegria de estar juntos coletivamente pensando e se manifestando. Insisto sempre nesse ponto: participar da festa pública é ser atravessado por uma corrente de energia de tal porte que, talvez, nos seja permitido falar em ¨xamanismo cidadão¨: quem se deixa e se deixou tocar pela festa pública sabe bem do que estou falando e não porque estamos identificados enquanto grupo pelo amor a um líder – o velho conceito psicanalítico que para mim está caducando – mas porque estamos coletivamente vivendo uma nova individuação, como nos sugere Gilbert Simondon, tão forte que somos outros quando a grande festa pública termina.

O enterro de dona Marisa Letícia foi para mim momento culminante de emoção. Ela também denunciada pela Lava jato do Sr. Moro, pela compra ¨que não houve¨ do triplex no Guarujá e tendo sua privacidade devassada pelo mesmo juiz, não resiste e morre. Grande perda para Lula e para todos nós.

Finalmente o dia 7 de abril, na grande manifestação política, no mesmo sindicato de São Bernardo que, solidária a Lula, quer impedir que ele se entregue. O discurso de Lula é para lá de vivo, nos fez e nos faz chorar, no momento em que ele ¨transfere a responsabilidade¨ dele para cada um de nós ao  transformar-se  em uma Ideia e as Ideias não podem ser aprisionadas. Um presente de Petra Costa para o Brasil.

Essa manifestação deu origem a um belo livro de depoimentos dos que lá estavam, eu inclusive. Foi puxado por um texto emocionado de Aldo Zaiden, ¨A presença do mistério em São Bernardo¨ e sua atordoante pergunta: o que aconteceu ali, o que foi aquilo que nos aconteceu nesse dia?! O livro com muitos depoimentos chama-se Luiz Inácio Luta da Silva - Nós vimos a prisão de Lula, teve edição caseira e um grande lançamento político.

V) Preparando a cama para Sérgio Moro e Deltan Dallagnol

Não era intenção da cineasta Petra Costa, pois ela não poderia imaginar o que sucederia com as revelações do Intercept e de Glenn Greenwald, mas o filme foi encaminhado de tal maneira que apela, para quem o assiste, apela por justiça. As incursões da canalha da elite do atraso para derrubar o partido dos trabalhadores e os governos eleitos de Dilma Roussef e Luis Inácio Lula da Silva ficam evidentes e nos são lembradas e narradas a cada passo. Petra não poupa nem a sua família, nem a classe social a que pertence. Apela por justiça contra o juizeco do Paraná e contra a Lava Jato. Em momentos muito especiais e alguns deles hilariantes aparecem procuradores, Dallagnol e seu power point refestelando-se na mídia golpista e o próprio Moro. Num desses momentos um procurador insiste: ¨exatamente por que Lula não é proprietário do triplex, ele demonstra ser culpado, pois demonstra que ocultou o fato!¨. Em um dos momentos em que Lula confronta-se com Moro ele diz ¨cadê a escritura do triplex do Guarujá, Sr. Moro¨? Não tem escritura, não pode ser provado que ele é proprietário. Ora, mas numa inversão estonteante é essa a prova do crime! Em conluio com a mídia corporativa, em particular a Globo, a LAVA JATO, chamada agora de VAZA JATO...derruba a presidente Dilma, tenta desesperadamente afastar PT e Lula que, quando preso, liderava as pesquisas para voltar à presidência...Lula se arrepende de algo, pergunta Petra: sim, responde ele:  me arrependo de não ter mandado ao Congresso uma proposta sobre os meios de comunicação que reserva para nove famílias o monopólio...

Enfim, o documentário constrói uma atmosfera política que antecipa o momento atual e as acusações contra  Moro e Dallagnol. Sem saber o que viria a acontecer Petra cria, no documentário, a atmosfera emocional para a queda de Moro e Dallagnol, para o esvaziamento da Vaza Jato que, certamente, virá...

VI) O mal da esquerda

Petra não hesitou em criticar o PT e, todavia, é a crítica não dita a que mais conta. Essa crítica não dita é também aquela que poderíamos fazer – e já fizemos - à cineasta: a redução, estratégica ou não, do seu olhar e da sua câmara ao institucional e à representação. Poderíamos estender essa crítica ao PT e aos presidentes eleitos: Lula e Dilma. Preocuparam-se com a governabilidade, só fortaleceram o ¨Pé dentro¨ da institucionalidade e da representação e esqueceram-se do ¨Pé fora¨, as raízes – movimentos sociais, operários, camponeses, identitários - de onde o próprio PT surgiu e fizeram isso em um momento em que a noção mesmo de representação está colapsando não só no Brasil, mas no mundo. Confiaram na elite do atraso e na mídia corporativa. Um capítulo da nossa história se fechou com a prisão de Lula. O ¨Pé dentro¨ fracassou e venceu, mesmo no silêncio, na ausência e no abandono a força do ¨Pé fora¨: é para o ¨Pé fora¨ que precisamos nos voltar e urgentemente.

Petra e Democracia em Vertigem suscitam em cada um de nós um milhão de pensamentos ainda não pensados.

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