Democracia fraturada

Professor de jornalismo desvela o protagonismo da imprensa na mutilação da democracia

Sergio Moro e Lula
Sergio Moro e Lula (Foto: Sergio Moro e Lula)

 “Sob a proteção de Deus, representando o Vale do Paraíba, em apoio ao Juiz Sérgio Moro e aos garotos da Lava Jato,  em defesa dos valores da liberdade e do respeito  aos valores individuais, o meu voto só pode ser “sim”, a favor do impeachment.” Eduardo Cury (PSDB-SP) 

   Pedro Nunes finalizou seu ensaio documental, com acesso livre na Internet, Democracia Fraturada, em maio de 2019. Antes, portanto, do início das revelações do site The Intercept Brasil, um enorme arquivo vazado de mensagens, conhecido com Vaza Jato, trocadas entre procuradores e, por vezes, com a participação de Sérgio Moro. Não surpreende, no entanto, a inexistência de contradições entre os relatos de ambos: a forma de atuar do ex-juiz e dos procuradores da Lava Jato já era evidente para quem se dispusesse a olhar. 

 Como jornalista e professor de jornalismo, Nunes se deteve sobre a imprensa corporativa, que ocupou lugar de destaque no conjunto de sete “protagonistas representativos” do golpe que destituiu Dilma Rousseff. Diz ele:   “Esse conjunto de personagens é formado (de modo simbólico e coletivo) pelas Jornadas de Junho e pela grande imprensa corporativa, e, de modo individual, pelo ex-senador Aécio Neves (PSDB-MG), pelo ex-deputado federal Eduardo Cunha (PMDB-RJ), pelos ex-presidentes Dilma Rousseff (PT) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e pelo ex-juiz Sérgio Moro”. 

 Manipulação, prejulgamento e espetacularização constituem a essência da atuação da imprensa e do exercício do jornalismo, ressalta o autor:  “Também é interessante destacar que o protagonismo da imprensa transpassa e envolve os demais protagonismos mencionados como objeto de discussão deste ensaio, envolvendo o processo de impeachment, a Lava Jato e as diferentes manifestações ocorridas no Brasil entre 2013 e 2016. Desse modo, cabe esclarecer que a atuação da imprensa e o exercício do jornalismo foram criticados com base em coberturas específicas e editoriais, tomados como exemplos quanto à manipulação da notícia, prejulgamentos ou distorções ‘espetaculares’ dos acontecimentos.”

  As Jornadas de Junho e a imprensa  O protagonista representativo das manifestações, as Jornadas de Junho, teve decisiva influência da mídia para alcançar grande adesão, bem como para direcionar suas pautas:  “Parte significativa da imprensa, que inicialmente criminalizou o movimento argumentando ser constituído de ‘vândalos’, ‘baderneiros’ e pela existência de ‘atos de vandalismo’, se apropriou das manifestações e das pautas antigovernistas, cedendo, contudo, muito mais voz e espaço para representantes de coletivos conservadores.  

Enfatizo que os complexos midiáticos literalmente convocaram a população e militantes, destacando pautas mais genéricas e moralizadoras (a exemplo dos chamamentos da Rede Globo, revista Veja, RBS e outros meios), por enxergarem as manifestações enquanto um excelente espaço de disputa que fortalecesse o protagonismo de uma oposição mais fortemente à direita contra um governo considerado de esquerda. Nesse sentido, esse momento pode ser apontado como um fator que demarca, contextualmente, o início do processo de enfraquecimento da então presidenta Dilma Rousseff.”  O “Caranguejo” Eduardo Cunha e a imprensa  O setor de propinas da Odebrecht apelidou Eduardo Cunha de “Caranguejo”. Nunes explica as semelhanças entre o político e o animal dos mangues:  “O animal conhecido como caranguejo é um crustáceo, sendo considerado uma iguaria da cozinha brasileira. Com dez patas, uma dura carapaça e olhos no extremo da cabeça, ele prefere a lama, podendo até sobreviver em águas sujas ou poluídas, e alimenta-se de peixes e animais mortos. É também designado de ‘urubu do mar’, mas prefere a terra, tendo seu habitat natural no lamaçal. 

O caranguejo é resistente. Dispõe de um alto poder ofensivo para luta e defesa através do uso de suas afiadas pinças. Movimenta-se livremente em diferentes direções (seja para frente, para trás ou para os lados), conforme a pressão e a necessidade. Quando acuado, ‘emburaca’ na lama e aí há uma dificuldade para apanhá-lo, cabendo a um especialista, o catador de caranguejo, mergulhar parte do seu corpo na lama para poder trazê-lo à superfície.”  Enquanto o processo de impeachment andava com rapidez, o julgamento de Eduardo Cunha por quebra de decoro, fartamente abastecido de provas, dormitava pelo Congresso. 

Igual falta de empenho da imprensa era claramente perceptível na dita grande imprensa.  Para evidenciar a parcialidade e seletividade da mídia, o autor apresenta editoriais dos maiores jornais do Brasil (Folha de S.Paulo, O Estado de S.Paulo, O Globo) além da TV Globo, via Jornal Nacional. Diz ele:  “Repito, por sua condição de presidente da Câmara Federal, o deputado Eduardo Cunha, a despeito da sua pecha de corrupto, foi um instrumento altamente eficaz na mediação para apear Dilma Rousseff do poder. E, nesse contexto, contou com o apoio da grande imprensa, antagonista dos governos petistas.

 Como exemplo, apresento um pequeno recorte de editoriais da Folha de S.Paulo, d’O Estado de S.Paulo, O Globo (jornal e TV) e Jornal Nacional, enfatizando, de antemão, que há pesquisas e artigos de cunho científico que detalham e comprovam essa abordagem tendenciosa dos fatos relativos ao processo de impeachment, evidenciando parcialidade e seletividade, com argumentos antiDilma, antiLula, antiPT, celebração da Lava Jato e legitimação do ex-juiz Moro.”  

A atuação de Sérgio Moro e as coberturas da imprensa  Políticos e pessoas da proximidade de Moro receberam sua proteção, mesmo delatados, “não foram sequer intimados”. Nem mesmo a Constituição refreou suas motivações políticas.   “Em sua onipotência, Moro propositalmente ignorou todas as delações que faziam alusão à existência de operações fraudulentas nos processos relativos ao PSDB, notadamente as compras das plataformas de petróleo pela Petrobras no governo Fernando Henrique Cardoso (1995 –2003). No entanto, outras delações foram arquitetadas para incriminar Lula.”  

Avalizada pela grande imprensa e liberada, pela incapacidade da Justiça brasileira de a colocar nos trilhos, a Lava Jato criou “pirotecnias” que marcaram a “nossa precária democracia”. Diz Nunes:  “Nesse  período  da  Lava  Jato  o exercício  do  jornalismo  esteve distante de mobilizar o conhecimento para relatar tais acontecimentos com profundidade e criticidade. Com raras exceções, a imprensa agiu exatamente ao revés, operando, manipulando ou reiterando fatos que mereciam  ser  questionados,  analisados  e  ressignificados.  

Ignorou, desse  modo,  a  complexa  realidade  dos  acontecimentos  jurídicos permeados  por  interesses  escusos  de  diferentes  ordens.  Aliás,  a imprensa  brasileira  fez  o  que  habitualmente  faz, com  seu  poder político-econômico, reiterando   o status   quo de   um   judiciário desorientado,  com  seu  galã  maquiavélico  posando  de  bom  moço para as audiências do senso comum.”  

A grande imprensa brasileira falhou irremediavelmente no papel de disseminar o conhecimento. Conclui Pedro Nunes:  “Em se tratando da performance da imprensa brasileira, foi possível perceber, nos casos que envolveram o processo de impeachment e a prisão do ex-presidente Lula no contexto de investigação da Operação Lava Jato, a existência de uma espécie de antijornalismo, invertendo a concepção do que realmente seja o papel do jornalismo.

 A imprensa se posicionou, via de regra, pelo pensamento da elite detentora dos complexos midiáticos, ou seja, representou seus próprios interesses políticos e econômicos.”  

Notas:  1 NUNES, Pedro.  DEMOCRACIA FRATURADA: a derrubada de Dilma Rousseff, a prisão de Lula e a Imprensa no Brasil [recurso eletrônico]. João Pessoa: Editora do CCTA; Aveiro; RIA Editorial, 2019. 162p. Aqui.

 2 Pedro  Nunes  é JORNALISTA.  Doutor  em  Comunicação  e  Semiótica  pela Pontifícia  Universidade  Católica  de  São  Paulo  (1996).  Pós-doutorado  em Comunicação  em  Sistemas   Hipermídia   pela   Universidad   Autónoma   de Barcelona   (2003).   Mestre   em   Comunicação   Social   pela   Universidade Metodista  de  São  Paulo  (1988).  Professor  do  Programa  de  Pós-Graduação em  Jornalismo  da  Universidade  Federal  da  Paraíba.

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