Democracia hackeada – a manipulação e o direcionamento de alvos na grande rede

A informação manipulada pode ser detectada pelos que entendem o conceito de informação. A conscientização sobre o uso que se faz dos dispositivos tecnológicos, a inclusão dos saberes sobre esses nos sistemas educacionais, acompanhada da feitura de Leis de Proteção aos Dados devem ter a ideia de que a liberdade não nos chega pré-definida

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Tanto no documentário Privacidade Hackeada como no livro Targeted, a denunciante Brittany vai além de simplesmente expor publicamente a manipulação ilegal de dados na grande rede e nas plataformas de mídia social, apontando como que essa manobra pôs a democracia estadunidense em xeque.

Desde o premiado documentário Citizenfour (2014), dirigido por Laura Poitras, até o doc/drama O Dilema das Redes (2020), por Jeff Orlowski, vem crescendo o número de pessoas que pensam em refazer as suas relações com dispositivos que se conectam à internet. E essa postura autorreflexiva é tão fundamental quanto a feitura de Leis de Proteção de Dados e Privacidade, que sejam verdadeiramente abrangentes e eficazes, assim como a reconstrução de um sistema educacional que seja realmente inclusivo, incorporando o conhecimento das novas tecnologias como Linguagem.

 Sem querer desestimular ou estragar prazer de quem não assistiu a nenhuma dessas duas produções citadas, aviso que há uma certa distância entre as informações impactantes compartilhadas pelo ex-analista da CIA e da NSA, Edward Snowden, em Citizenfour, e as denúncias feitas em tom de mea-culpa por parte dos atores de O Dilema das Redes, que foi protagonizado por algumas ex-cabeças pensantes de Big Techs e plataformas de mídia social. 

 Assim, se for possível e houver interesse, assista aos dois, pois vale a pena. Mas, não perca de vista o seguinte. 

 De um modo geral, Citizenfourexpõe alguns instrumentos das chamadas guerras híbridas, denunciando práticas globais de vigilância, espionagem e manipulação por parte de agências estadunidenses civis e militares, através de uma narrativa que exorta sutilmente a que os usuários aprendam a se defender e conhecer melhor os sistemas e dispositivos tecnológicos que utilizam. Em um quarto de hotel em Hong Kong, blindado no anonimato de um Linux Tailse escondido com jornalistas do The Guardian enquanto aguardava o seu transporte para a Rússia, Snowden mostra aos espectadores como que os dados e a intimidade das pessoas podem ser interceptados por acessos não autorizados a webcams, dispositivos de áudio, computadores, e-mails, smartphones, dentre outros. 

 Por sua vez, O Dilema das Redesmostra de que modo os cliques, gostos e dados de usuários foram e são capturados em uma lógica algorítmica que visa, entre outras coisas, o direcionamento de propagandas e publicidade, lançando mão do alcance e da força das linguagens falada, escrita e imagética, conjugadas entre si. Esse doc/drama acaba enfatizando a “moral da história” de que o cancelamento de perfis e contas nas redes sociais não só seria um dos bons remédios para o problema da desproteção de dados e informações pessoais como, também, daria solução para os efeitos narcotizantes dessa manipulação das psiques nas redes, de um modo geral.

Entretanto, para quem deseja ir um pouco mais fundo e também se interessou em acompanhar a recente eleição para a presidência dos EUA, a sugestão é que encare a leitura do livro Manipulados: como a Cambridge Analytica e o Facebook invadiram a privacidade de milhões e botaram a democracia em xeque(2019/2020), escrito pela analista de relações internacionais, Brittany Nicole Kaiser, protagonista do documentário Privacidade Hackeada (The Great Hack-2019). 

Com 33 anos recém-completados, a autora Brittany pertence a uma talentosa geração de novos geeks/nerds/hackers.A partir de um momento de sua vida, ela optou usar conhecimentos em Tecnologia da Informação para trabalhar em agências privadas desenvolvendo projetos e programas de marketing baseados na manipulação de Bancos de Dados com informações detalhadas de milhões de pessoas, de demografias diversas. No livro, ela se define como uma democrata. Conta ter sido ativista em projetos em Hong Kong, na África do Sul e na Líbia pós-Kadafi (pg. 23), além de ter trabalhado nas campanhas de Barak Obama, antes de entrar para os quadros profissionais da Strategic Communication Laboratories (SCL) e da Cambridge Analytica, onde participou ativamente da campanha que elegeu Trump em 2016.

O título original de seu livro é “Targeted: The Cambridge Analytica Whistleblower's Inside Story of How Big Data, Trump, and Facebook Broke Democracy and How It Can Happen Again”, e ele sintetiza precisamente o conteúdo explosivo das 365 páginas nas quais a autora revela, em detalhes, os bastidores das operações desenvolvidas por essas agências. Brittany relata que sua ex-empresa Cambridge Analyticaempregava psicólogos em dedicação exclusiva que, em vez das velhas pesquisas de opinião, desenvolviam métodos de análise política e usavam os resultados para classificar pessoas”. Uma vez de posse de um grande volume de informações e dados obtidos ilegalmente/artificiosamente, esses profissionais “usavam a metodologia psicográfica para assimilar a complexidade da personalidade de cada indivíduo”, podendo assim, de maneira personalizada, “conceber formas de orientar o comportamento delas” (pg. 32-33). 

Essa revelação mostra que mais do que “manipulados”, como consta na tradução de Targeted da edição em português, os milhões de indivíduos na realidade foram e são “alvos”, visados nas redes sociais e na grande rede. Alvos que devem ser atingidos e capturados nas suas subjetividades para que se possa influenciar os seus pensamentos, assim como alterar e direcionar os seus comportamentos. 

Para além do Facebook, que publicamente assumiu ter se envolvido em problemas graves com o vazamento de dados de usuários, se entrevê aqui, também, o Whatsapp. Esse mensageiro instantâneo gratuito ficou bastante conhecido no Brasil não só por seu uso intenso na campanha eleitoral de 2018, como pelo potencial para se formar nele bolhas de pessoas identificadas entre si. Muitas dessas pessoas/bolhas foram classificadas como possuidoras de perfis ideais para serem alvos de desinformação, de fomento ao racismo, misoginia, homofobia, intolerância com as diferenças e disseminação estratégica de mentiras (fakenews). Curiosamente, no final do seu livro, Brittany Kaiser aconselha a que as pessoas migrem para o mensageiro instantâneo Signal, uma vez que, segundo ela, Mark Zuckerberg, dono do Whatsapp, “enfraqueceu a criptografia para extrair dados e usá-los como targeting” (pg. 364).

Referindo-se à fala do seu ex-chefe na Strategic Communication Laboratories (SCL) e na Cambridge Analytica (Alexander Nix), a autora oferece uma chave para quem deseja refletir sobre os objetivos e as estruturas desse tipo de instrumentalização das comunicações para uso indevido de dados em massa. Trata-se de uma concepção conhecida do mercado, capitalista, conjugada com uma outra que pertence à esfera militar, belicista. A conjugação dessas duas concepções se unifica na paisagem das guerras híbridas travadas em rede, uma vez que nelas os dados seriam “o novo petróleo da era digital”, ao passo que a coleta ou sequestro de informações seria como uma “corrida armamentista”, nessa atual era da World Wide Web (pg. 20).

Assim, tanto no documentário Privacidade Hackeada como no livro Targeted, a denunciante Brittany vai além de simplesmente expor publicamente a manipulação ilegal de dados na grande rede e nas plataformas de mídia social, apontando como que essa manobra pôs a democracia estadunidense em xeque. 

Tal como indicado no título original, ela na verdade conta como que a democracia dos EUA quebrou, elegendo Trump para presidente em 2016 com uma campanha que usou dados vazados do Facebook.E deixa o alerta para o perigo disso poder se repetir, uma vez que há quem domine técnicas de comunicação e manipulação psicológica em massa que são capazes de fazer de indivíduos e grupos, alvos passíveis de serem influenciados, persuadidos e direcionados, dentro desse mercado virtual onde usuários fornecem dados como matéria-prima, tornando-se simultaneamente produtores e consumidores dos seus próprios conteúdos e dos outros. 

No contexto dos efeitos provocados por essas comunicações em rede é importante destacar um estranho cansaço, que não se localiza exatamente nos corpos, assim como sensações de inércia e entorpecimento. Esse fenômeno acaba paralisando parcialmente os indivíduos e é apontado por Andrew Korybko, em seu livro sobre guerras híbridas, como um dos objetivos dos ataques semióticos cirurgicamente lançados sobre as demografias. Assim, uma das principais metas seria paralisar líderes e parte da população, gerando um fenômeno psicossocial de narcose. 

Uma medida básica para as pessoas começarem a se resguardar e defender, visando cortar o fluxo da disseminação de mentiras, desinformação e mensagens de caráter discriminatório ou ofensivo, é adotar o hábito de não repassar/compartilhar conteúdos irrefletidamente, sobretudo os de origem desconhecida ou duvidosa. Dentro dessa perspectiva de mensagens e imagens como artefatos semióticos capazes de agir como drogas nas psiques, os encaminhamentos/compartilhamentos movidos pelo ímpeto da viralização se tornaram um vício, entre os usuários de Whatsapp.

É importante entender que as psiqueshumanas não são exatamente como “máquinas de pensar”, lembrando aqui uma fala de Byung-Chul Han. Humanos não têm estrutura para ficar constantemente conectados ou expostos aos olhares dos outros, assim como para lidar incessantemente com milhares de likes e deslikes em curtos espaços de tempo, e muito menos ainda para suportar cargas de ódio tais com as investidas de “tempestades de merda” (shitstorm)1 nas redes sociais. Essas investidas são conhecidas também como “ataques de indignação” feitos por enxames de usuários e robôs que, via de regra, são orquestrados com a finalidade de difamar, caluniar ou destruir a reputação de alguém; pessoa, empresa ou instituição.

Em uma conversa recente com um amigo, pesquisador/professor de física e de programação, refiz uma perspectiva sobre a ilusão de liberdade na internet, tal como ela foi propagandeada no surgimento da Web2. Entendemos que na realidade a anunciada “nova liberdade” mostrou ser uma espécie de “novo Eldorado”, pronto para ser explorado, tal como foi. Valorando dados e informações na grande rede como se fossem ouro ou petróleo, os então mais bem treinados para transitar e atuar nesse território acabaram loteando e explorando a liberdade de comunicação, daí essa ter se mostrado sob certo aspecto ilusória, porquê controlada, manipulada e financeiramente explorada.

Porém, não se deve esquecer que a informação manipulada pode ser detectada pelos que entendem o conceito de informação, sendo fundamental retomar e ampliar constantemente o debate sobre esse tipo de problema. O debate e a conscientização sobre o uso que se faz dos dispositivos tecnológicos, a inclusão dos saberes sobre esses nos sistemas educacionais, acompanhada da necessária feitura de Leis de Proteção aos Dados, eficazes, devem ter no horizonte a ideia de que, seja aonde for, no real ou virtual, a liberdade não nos chega pré-definida. Ela precisa de ser conquistada. 

NOTAS

1 - A expressão shitstorm é usada por Han, no livro No Enxame, em alusão aos “ataques de indignação” em redes sociais e na internet, de um modo geral. Esses ataques são operados por “enxames” de usuários que têm por objetivo destruir a reputação não somente de pessoas, como também de empresas e instituições.

2 - Refiro-me ao slogan da Microsoft na nascente da Internet (1994): “Aonde você quer ir hoje?”: https://gizmodo.uol.com.br/a-curta-historia-dos-monocromaticos-logotipos-da-microsoft/

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