Maria Luiza Falcão Silva avatar

Maria Luiza Falcão Silva

PhD pela Heriot-Watt University, Escócia, Professora Aposentada da Universidade de Brasília e integra o Grupo Brasil-China de Economia das Mudanças do Clima (GBCMC) do Neasia/UnB. É autora de Modern Exchange Rate Regimes, Stabilisation Programmes and Co-ordination of Macroeconomic Policies, Ashgate, England.

175 artigos

HOME > blog

Democracia ou oligarquia global? O novo conflito do capitalismo

A batalha do século XXI não é apenas geopolítica — é sobre quem governa o capital

Um funcionário segura notas de dólar americano em uma casa de câmbio em Jacarta, Indonésia, em 9 de abril de 2025 (Foto: Willy Kurniawan/Reuters)

A pergunta que começa a atravessar o debate internacional não é apenas quem liderará a economia mundial, mas quem governará o capitalismo. Como argumentam Joseph Stiglitz e Jayati Ghosh no artigo “Will Democracy Govern Capitalism — or Be Consumed by It?”, publicado no Project Syndicate em 6 de fevereiro de 2026, os esforços para sabotar a cooperação fiscal multilateral configuram uma ameaça estrutural à governança democrática. Tributar a riqueza extrema deixou de ser apenas uma questão distributiva — tornou-se condição de sobrevivência institucional.

A formulação é forte. E necessária.

O capitalismo sempre conviveu com desigualdades. Mas o que se observa hoje não é apenas concentração de renda. É a consolidação de um poder transnacional capaz de influenciar legislações, bloquear regulações, financiar campanhas, moldar decisões judiciais e reconfigurar a própria arquitetura institucional de países inteiros.

A questão deixou de ser apenas econômica. Tornou-se estruturalmente política.

Estamos diante de um conflito que atravessa fronteiras e sistemas: democracia ou oligarquia global?

A sabotagem da cooperação fiscal

Nos últimos anos, a tentativa de estabelecer um imposto mínimo global sobre grandes corporações — articulada no âmbito da OCDE e envolvendo mais de 130 países — parecia sinalizar algum grau de coordenação internacional diante da evasão fiscal sistêmica.

A proposta buscava enfrentar a corrida para o fundo do poço na tributação corporativa e limitar o deslocamento artificial de lucros para paraísos fiscais.

Mas o que se viu foi resistência organizada. Pressões de lobbies empresariais, bloqueios legislativos, disputas estratégicas entre grandes potências e hesitações políticas enfraqueceram a implementação efetiva do acordo.

Os números revelam o tamanho da distorção.

A Tax Justice Network estima que o mundo perde cerca de US$ 492 bilhões por ano em abusos fiscais globais. Aproximadamente US$ 348 bilhões decorrem do deslocamento de lucros de grandes corporações para jurisdições de baixa tributação. Outros US$ 144 bilhões estão associados à evasão praticada por indivíduos de alta renda.

A própria OCDE reconhece que práticas de erosão da base tributária e transferência de lucros (BEPS) representam perdas entre 4% e 10% da arrecadação global do imposto corporativo, algo entre US$ 100 e 240 bilhões anuais.

O impacto é ainda mais devastador para economias de renda média e baixa, que perdem, em média, 1,3% do PIB devido à erosão tributária — percentual muito superior ao observado nas economias avançadas.

Não se trata de ineficiência técnica. Trata-se de poder.

A competição tributária tornou-se uma estratégia deliberada. Paraísos fiscais funcionam como válvulas estruturais de drenagem de receitas públicas. Conglomerados digitais deslocam lucros por meio de engenharia contábil sofisticada. A riqueza extrema circula com velocidade superior à capacidade regulatória dos Estados.

O resultado é previsível: erosão fiscal, compressão do espaço orçamentário, fragilização de políticas públicas e crescente dependência financeira.

Sem capacidade tributária, a democracia perde densidade material.

E democracia sem base material torna-se ritual.

Do neoliberalismo ao cesarismo contemporâneo

Durante décadas, o neoliberalismo vendeu a redução do Estado como sinônimo de eficiência e modernização. Hoje, o que se observa é algo distinto: não apenas menos Estado, mas um Estado capturado.

A financeirização global ampliou a influência de grandes fundos de investimento, conglomerados digitais e bilionários com capacidade de pressionar governos e moldar regulações. Plataformas tecnológicas tornaram-se infraestruturas essenciais da vida econômica e social. O capital não apenas influencia o sistema político — ele passa a operar como seu centro gravitacional.

É nesse contexto que ganha sentido a ideia de um “cesarismo do século XXI”.

Historicamente, o cesarismo refere-se à concentração de poder em uma figura ou grupo que preserva formalmente instituições, mas esvazia seu conteúdo democrático. A aparência de legalidade permanece; a substância da decisão coletiva é reduzida.

No mundo contemporâneo, esse cesarismo não precisa de um único líder carismático. Ele pode assumir a forma de uma elite econômica que governa por dentro das instituições, financiando campanhas, influenciando legislações, ocupando espaços estratégicos e definindo os limites do possível.

A democracia formal permanece. A democracia substantiva encolhe.

A política torna-se refém da riqueza extrema.

A extrema direita como veículo

Não é coincidência que a ascensão de forças de extrema direita em diversas democracias tenha ocorrido paralelamente ao enfraquecimento da cooperação fiscal internacional e à redução de impostos sobre grandes fortunas e corporações.

O discurso nacionalista denuncia “elites globais” enquanto desmonta instrumentos de regulação do capital e concentra poder no Executivo.

Essa combinação é politicamente eficaz e economicamente regressiva.

Mobiliza ressentimentos sociais, canaliza frustrações econômicas contra inimigos externos ou minorias internas e, simultaneamente, reduz mecanismos institucionais de controle sobre o grande capital.

O discurso antiestablishment pode coexistir com a consolidação de elites ainda mais concentradas.

O cesarismo contemporâneo não depende necessariamente de ruptura institucional explícita. Ele pode emergir por meio de lideranças eleitas que enfraquecem freios e contrapesos, tensionam tribunais, pressionam parlamentos e operam em simbiose com grandes interesses econômicos.

A erosão democrática torna-se gradual. E legitimada pelo voto.

A bifurcação histórica

O conflito central do século XXI não será apenas entre potências. Será entre dois modelos de organização do capitalismo.

De um lado, a continuidade da fragmentação fiscal, da mobilidade irrestrita da riqueza e da captura regulatória — terreno fértil para a consolidação de oligarquias globais.

De outro, a reconstrução de mecanismos de cooperação internacional capazes de tributar a riqueza extrema, regular fluxos financeiros e restaurar a autonomia decisória dos Estados.

A tributação da riqueza não é apenas um instrumento redistributivo. É um instrumento democrático.

Sem capacidade de tributar os extremamente ricos, os Estados perdem soberania material. E, sem soberania material, a democracia converte-se em formalidade institucional sem capacidade efetiva de decisão.

O capitalismo do século XX foi estabilizado por sistemas tributários progressivos, regulação financeira e instituições democráticas capazes de conter a concentração excessiva de poder econômico.

A erosão desses mecanismos não ameaça apenas a equidade. Ameaça a própria legitimidade do sistema.

O mundo já ingressou em uma fase pós-hegemônica em termos geoeconômicos. A questão decisiva é se ingressará também em uma fase pós-democrática.

A disputa do nosso tempo não é apenas territorial.

Não é apenas tecnológica.

Não é apenas monetária.

É institucional.

É a disputa sobre quem governa o capital — e sob quais limites.

E essa resposta definirá não apenas o futuro do capitalismo, mas o futuro da própria democracia.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.