Deram um golpe no amor. De novo

Na história brasileira não chega a ser novidade alguém, ou alguéns, dar um golpe. A Independência foi golpe. A Proclamação da República foi golpe. Esse impeachment também. Em comum, além da articulação entre as elites aristocratas, empresariais, militares e políticas, está a intenção de abafar a luta popular e evitar a chegada das reais transformações

Brasília - DF, 14/07/2016. Presidente em Exercício Michel Temer durante cerimônia de anúncio de nova norma do Programa Minha Casa Minha Vida. Foto: Beto Barata/PR
Brasília - DF, 14/07/2016. Presidente em Exercício Michel Temer durante cerimônia de anúncio de nova norma do Programa Minha Casa Minha Vida. Foto: Beto Barata/PR (Foto: Éden Valadares)

Peço licença para retomar um assunto antigo: a marca do governo interino de Michel Temer. Lembro ter lido na Folha uma dura crítica de Milton Cipis àquela peça. "Não é moderna, jovem, não tem esperança, não tem nada" disse o designer. Em vez de Ciências Políticas, devíamos estudar Arte, pensei eu. Ora, a análise da marca era a perfeita leitura do momento político, do governo ilegítimo e do vice-presidente em exercício.

Daí veio a polêmica sobre quem havia dado a palavra final, quem realmente tinha batido o martelo e definido a marca. Puseram a carapuça em Michelzinho. Mas o garoto tem sete anos de idade, é uma criança, como pode ter escolhido algo sem modernidade, sem esperança, sem nada? Convenhamos, Michelzinho conhece o pai que tem.

Mas e o lema Ordem e Progresso? De quem foi a ideia?

Peço licença para falar de assunto ainda mais antigo e voltar ao século XIX. Foi neste período que o francês Auguste Comte formulou e eternizou o lema da sua corrente filosófica, o Positivismo, com a expressão L'amour pour principe et l'ordre pour base; le progrès pour but. O Amor por princípio e a Ordem por base; o Progresso por fim. Amor, Ordem e Progresso. Não sei de quem foi a culpa – não acharam um Michelzinho à época para empurrar a carapuça – mas no final deste mesmo século resolveram tirar o Amor da Bandeira Nacional do Brasil. Não sei se Raimundo Teixeira Mendes, se Décio Villares ou Benjamin Constant. O fato é que alguém deu um golpe no Amor.

Na história brasileira não chega a ser novidade alguém, ou alguéns, dar um golpe. A Independência foi golpe. A Proclamação da República foi golpe. Esse impeachment também. Em comum, além da articulação entre as elites aristocratas, empresariais, militares e políticas, está a intenção de abafar a luta popular e evitar a chegada das reais transformações. Mudar para ficar tudo como está.

Mas voltemos ao lema e ao Amor.

Apesar da documentada inspiração positivista, tiraram do nosso pendão da esperança, do nosso símbolo augusto da paz, o Amor que para os seguidores de Comte deveria "coordenar o princípio de todas as ações individuais e coletivas".

Michel Temer, que não é nenhum Pedro nem um Deodoro, mas que de bobo não tem nada, deu novamente um golpe no Amor. E assim o fez ao extinguir a Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial e apontar retrocessos na elaboração e execução de ações de combate ao racismo no Brasil; fez ao tentar uma fracassada fusão do MinC com o MEC e desvalorizar o papel da Cultura na nossa sociedade; fez ao nomear uma Esplanada inteira de homens brancos, afrontando a necessária representação política e social que os negros e as mulheres conquistaram no nosso país.

Temer – o pai, e não o garotinho – deu um novo golpe no Amor ao aglutinar em seu ilegítimo governo o que de pior existe na agenda conservadora brasileira, ao ensaiar ataques aos Direitos Civis e organizar uma enorme ofensiva aos Direitos Humanos.

Lembrei de outro designer. Rico Lins. Para ele a marca do governo interino é "superconservadora e retrógrada". Também lembrei de um cientista político. Paulo Sérgio Pinheiro. Diplomata e ex-ministro de FHC, disse ele sobre as decisões do governo Temer na área dos Direitos Humanos: "A sociedade civil tem de ficar alerta. É o momento de pensar no significado e de que formas resistir a esse profundo retrocesso". Bem que podia existir uma matéria que juntasse as duas coisas, Arte Política ou Política Artística, pensei eu...

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