Derrota no Paraguai é lamentável mas as batalhas decisivas estão à frente

"Nada há para se comemorar diante da vitória de um candidato conservador no Paraguai mas as eleições decisivas para o futuro da América Latina em 2018 ainda não ocorreram", escreve Paulo Moreira Leite, articulista do 247. "É preciso aguardar pela eleição na Venezuela, no México e no Brasil para enxergar o destino político da região".  

Presidente eleito do Paraguai, Mario Abdo Benítez, discursa para simpatizantes em Assunção 22/04/2018 REUTERS/Mario Valdez
Presidente eleito do Paraguai, Mario Abdo Benítez, discursa para simpatizantes em Assunção 22/04/2018 REUTERS/Mario Valdez (Foto: Paulo Moreira Leite)

Além de uma votação bem inferior ao que era anunciado pelas pesquisas, não  há nada a comemorar na vitória de um candidato conservador, Mario Abdo Benitez, nas eleições presidenciais do Paraguai.

Num continente que desde 2009 enfrenta uma sequencia de três golpes de Estado destinados a enfraquecer a democracia e derrubar governos comprometidos com os interesses da maioria, a eleição de um herdeiro dos esquemas criados ainda na ditadura de Alfredo Stroessner, a mais longa ditadura do região, é um acontecimento lamentável ainda que previsível. O Paraguai é um país que há 70 anos encontra-se sob domínio de uma mesma oligarquia política, com um único intervalo -- o governo deposto de Fernando Lugo, que ocupou a presidência entre 2008 e 2012.  

A vitória conservadora no Paraguai ocorre cinco meses depois que, dezembro de 2017, em Honduras, o presidente Juan Orlando Hernandez consolidou-se no poder após uma fraude escancarada. Em clara desvantagem nas urnas,  conforme indicavam os números de uma apuração relativamente avançada, JOH conseguiu reverter o resultado depois que uma providencial pane no sistema de contagem de votos interrompeu os trabalhos por várias horas, garantindo a posse num ambiente de resistência popular e repressão violenta. Entidades de direitos humanos denunciam 33 assassinatos em manifestações de protesto, 22 presos políticos encarcerados e uma centena de lideranças de oposição ameaçadas de processo judicial.

 No Brasil, o terceiro golpe afastou Dilma Rousseff sem crime de responsabilidade, o país que é líder da região prepara-se para uma eleição presidencial na qual está em jogo a tutela do Poder Judiciário.

  Depois de condenar Lula, o candidato favorito em todas as pesquisas, a 12 anos e um mês de prisão em regime fechado, a Justiça já deixou claro que irá empregar todos os meios que estão a seu alcance para impedir sua candidatura presidencial.  

  Mesmo candidatos de outros partidos começam a ter suas campanhas inviabilizadas, num processo que pretende redesenhar o sistema político brasileiro a partir da vontade de quem tem a chave da prisão -- e não pela vontade do eleitor.  

  Em 2009, dias depois da deposição de Manoel Zelaya, presidente de Honduras arrancado da cama por generais que o conduziram para fora do país, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, reagiu com sábias palavras. Reconheceu que fora cometido um "golpe" e informo que reconhecia "Zelaya como presidente de Honduras". Obama também fez uma advertência de interesse geral. Disse que seria um "terrível precedente se começássemos a caminhar para trás, para uma era em que se viu golpes militares serem usados como meio de efetuar transições políticas, ao invés de eleições".

  Em poucos dias, no entanto, a diplomacia norte-americana acertou-se com os novos senhores da situação, não se falou mais no "terrível precedente" e a Suprema Corte de Honduras vetou qualquer iniciativa que pudesse permitir o retorno de Zelaya ao posto.

 A prioridade de Washington concentrou-se em procurar todos os meios de sabotar os governos Chavez-Maduro na Venezuela, com uma guerra econômica que lembra o boicote que deu combustível a deposição de Salvador Allende no Chile, em 1973.  Entre 2009, o primeiro golpe na região, e 2016, o terceiro, passaram-se 7 anos. Um golpe a cada dois anos e quatro meses, em média.

  Os resultados de Honduras e Paraguai tem uma importância inegável. Mostram que os golpes tiveram um impacto reconhecido para interromper um curso de mudanças positivas para o desenvolvimento e a distribuição de renda nesses países. Quando não serviram para reprimir diretamente as forças adversárias, ajudaram a deslocar e enfraquecer lideranças construídas com muito esforço.  

  Mas as grandes batalhas da América Latina estão a frente e envolvem o futuro das principais economias e as nações mais influentes.  

   Em maio, Nicolas Maduro tenta a reeleição na Venezuela, alvo prioritário das ações imperiais de Washington, reforçadas pela demagogia militarizada de Donald Trump. Em julho, ocorrem eleições no México, nas quais o favorito absoluto -- em todas as pesquisas -- é Andrés Manuel Lopez Obrador, candidato que tem apoio do movimento operário e é um adversário reconhecido do conservadorismo que domina a política mexicana há décadas. Em outubro, ocorrem eleições no Brasil. Será nesses três momentos, através dessas três disputas, que a guerra pelos destinos da América Latina irá enfrentar seus momentos decisivos.   

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