Desemprego na mínima histórica: mercado de trabalho resiste à desaceleração da economia
"Os dados da PNAD mostram um mercado de trabalho ainda muito robusto, apesar da desaceleração recente da economia"
Saíram os dados de desemprego de Janeiro para Brasil. Segundo a PNAD Contínua do IBGE — a principal pesquisa de mercado de trabalho do país, baseada em uma amostra muito ampla, com quase 700 mil entrevistas por ano — a taxa de desemprego ficou em 5,4%, permanecendo na mínima histórica da série.
Esse resultado confirma análises realizadas por diferentes instituições, incluindo estudos da FGV, indicando que o mercado de trabalho brasileiro está no nível mais forte desde o início dos anos 1980. É importante notar que isso ocorre mesmo em um contexto de desaceleração da atividade econômica. O PIB apresentou crescimento muito fraco no quarto trimestre e chegou a ficar praticamente estagnado, mas ainda não houve impacto significativo sobre o emprego. O dado do Caged para janeiro, com criação de cerca de 112 mil vagas formais, também aponta para um mercado de trabalho que segue relativamente resiliente.
Esse comportamento é bastante típico do que os economistas chamam de defasagem do mercado de trabalho em relação ao ciclo econômico. Quando a economia desacelera ou entra em recessão, o emprego demora alguns meses para reagir. O mesmo vale para o movimento inverso: quando a economia acelera, o mercado de trabalho também melhora com atraso. Isso ocorre porque decisões de contratação e demissão são estruturais e cautelosas, envolvendo custos e planejamento das empresas. Por isso, o emprego costuma reagir com mais lentidão às mudanças no ritmo da atividade econômica.
Hoje o Brasil conta com aproximadamente 102,7 milhões de pessoas ocupadas. Para termos uma referência, no auge da pandemia esse número chegou a cair para cerca de 81 milhões, uma queda brutal de mais de 20 milhões de postos de trabalho, refletindo o choque econômico daquele período.
Outro indicador importante é a massa salarial, que também está em nível recorde. Quando multiplicamos o número de ocupados pelo rendimento médio, atualmente em torno de R$ 3.652 por mês, chegamos a uma massa total de rendimentos historicamente elevada. Durante a pandemia houve um pico temporário do rendimento médio, mas isso ocorreu por um efeito estatístico: muitos trabalhadores de menor renda perderam o emprego, enquanto os trabalhadores formais — frequentemente em regime de home office — permaneceram ocupados, elevando artificialmente a média salarial.
Há também uma melhora gradual na taxa de informalidade, que hoje está em 37,5% da força de trabalho, próxima da mínima da série desde 2016. Ainda assim, trata-se de um patamar elevado. Entre os mais de 20 milhões de trabalhadores por conta própria no Brasil — como motoristas de aplicativo ou entregadores — apenas cerca de 15% a 20% possuem CNPJ. A grande maioria opera na informalidade. Além disso, o número de trabalhadores formais com carteira assinada permanece abaixo de 40 milhões, enquanto cerca de 13 a 15 milhões trabalham sem carteira.
Apesar da melhora recente, o nível médio de renda no Brasil continua baixo. O rendimento médio mensal de R$ 3.652 está muito distante do observado em economias avançadas, onde rendas médias podem equivaler a R$ 30 mil ou R$ 35 mil mensais. Além disso, a distribuição é bastante concentrada nas faixas inferiores: aproximadamente 90% da população ganha até R$ 5 mil por mês, com grande parte situada entre R$ 1.600 e R$ 4 mil mensais.
Em resumo, os dados da PNAD mostram um mercado de trabalho ainda muito robusto, apesar da desaceleração recente da economia. No curto prazo, esse quadro tende a reduzir a probabilidade de cortes de juros, especialmente em um contexto de maior incerteza internacional, como o aumento das tensões no Oriente Médio.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
