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Paulo Gala

Paulo Gala é economista e professor da FGV

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Desemprego na mínima histórica: mercado de trabalho resiste à desaceleração da economia

"Os dados da PNAD mostram um mercado de trabalho ainda muito robusto, apesar da desaceleração recente da economia"

Carteira de Trabalho e Previdência Social (Foto: Agência Brasil)

Saíram os dados de desemprego de Janeiro para Brasil. Segundo a PNAD Contínua do IBGE — a principal pesquisa de mercado de trabalho do país, baseada em uma amostra muito ampla, com quase 700 mil entrevistas por ano — a taxa de desemprego ficou em 5,4%, permanecendo na mínima histórica da série.  

Esse resultado confirma análises realizadas por diferentes instituições, incluindo estudos da FGV, indicando que o mercado de trabalho brasileiro está no nível mais forte desde o início dos anos 1980. É importante notar que isso ocorre mesmo em um contexto de desaceleração da atividade econômica. O PIB apresentou crescimento muito fraco no quarto trimestre e chegou a ficar praticamente estagnado, mas ainda não houve impacto significativo sobre o emprego. O dado do Caged para janeiro, com criação de cerca de 112 mil vagas formais, também aponta para um mercado de trabalho que segue relativamente resiliente.

Esse comportamento é bastante típico do que os economistas chamam de defasagem do mercado de trabalho em relação ao ciclo econômico. Quando a economia desacelera ou entra em recessão, o emprego demora alguns meses para reagir. O mesmo vale para o movimento inverso: quando a economia acelera, o mercado de trabalho também melhora com atraso. Isso ocorre porque decisões de contratação e demissão são estruturais e cautelosas, envolvendo custos e planejamento das empresas. Por isso, o emprego costuma reagir com mais lentidão às mudanças no ritmo da atividade econômica.

Hoje o Brasil conta com aproximadamente 102,7 milhões de pessoas ocupadas. Para termos uma referência, no auge da pandemia esse número chegou a cair para cerca de 81 milhões, uma queda brutal de mais de 20 milhões de postos de trabalho, refletindo o choque econômico daquele período.

Outro indicador importante é a massa salarial, que também está em nível recorde. Quando multiplicamos o número de ocupados pelo rendimento médio, atualmente em torno de R$ 3.652 por mês, chegamos a uma massa total de rendimentos historicamente elevada. Durante a pandemia houve um pico temporário do rendimento médio, mas isso ocorreu por um efeito estatístico: muitos trabalhadores de menor renda perderam o emprego, enquanto os trabalhadores formais — frequentemente em regime de home office — permaneceram ocupados, elevando artificialmente a média salarial.

Há também uma melhora gradual na taxa de informalidade, que hoje está em 37,5% da força de trabalho, próxima da mínima da série desde 2016. Ainda assim, trata-se de um patamar elevado. Entre os mais de 20 milhões de trabalhadores por conta própria no Brasil — como motoristas de aplicativo ou entregadores — apenas cerca de 15% a 20% possuem CNPJ. A grande maioria opera na informalidade. Além disso, o número de trabalhadores formais com carteira assinada permanece abaixo de 40 milhões, enquanto cerca de 13 a 15 milhões trabalham sem carteira.

Apesar da melhora recente, o nível médio de renda no Brasil continua baixo. O rendimento médio mensal de R$ 3.652 está muito distante do observado em economias avançadas, onde rendas médias podem equivaler a R$ 30 mil ou R$ 35 mil mensais. Além disso, a distribuição é bastante concentrada nas faixas inferiores: aproximadamente 90% da população ganha até R$ 5 mil por mês, com grande parte situada entre R$ 1.600 e R$ 4 mil mensais.

Em resumo, os dados da PNAD mostram um mercado de trabalho ainda muito robusto, apesar da desaceleração recente da economia. No curto prazo, esse quadro tende a reduzir a probabilidade de cortes de juros, especialmente em um contexto de maior incerteza internacional, como o aumento das tensões no Oriente Médio.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.