Desgaste de Wagner não alcançou Lula, sugere PoderData
Para se confirmar como tendência, a resiliente dianteira de Lula na PoderData precisará ser corroborada pelos levantamentos previstos para os próximos dias
Apesar da repercussão, a operação da Polícia Federal (PF) contra o senador Jaques Wagner não abalou a liderança do presidente Luiz Inácio Lula da Silva nas intenções de voto. É o que sugere a pesquisa PoderData, divulgada na quinta-feira, que apontou estabilidade, em relação a maio, nos índices de Lula e do senador Flávio Bolsonaro no primeiro (40% a 36%) e no segundo turno (46% a 43%).
No entanto, por ter sido realizada entre domingo e quarta-feira, a PoderData captou apenas parcialmente o efeito do afastamento de Wagner da liderança do governo. No mercado preditivo Polymarket, neste momento, 56% apostam na vitória do petista e 23% no sucesso do bolsonarista.
Uma candidatura em crise
O conflito entre a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e seu enteado Flávio, embora tenha sido contemporizado pelas partes, afeta a expectativa de poder da candidatura, projetando desconfiança, instabilidade e imprevisibilidade.
Além do desgaste entre as eleitoras, pode atingir o senador junto ao público em disputa, como independentes e indecisos, sobretudo do campo de centro e direita, que reprove a hostilidade dos homens da família Bolsonaro em relação à ex-primeira-dama enquanto mulher. Ou, então, avalie que se trata de mera disputa pelo poder no clã. Em contraste, ainda na quinta-feira, a atual primeira-dama, Janja Lula da Silva, lançou o Pacto Nacional Brasil contra o Feminicídio, em Fortaleza (CE), no Nordeste.
Trump na hora errada
Antes do episódio familiar, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, compartilhou um artigo que mencionava o Brasil como o “próximo grande teste” , antecipando o questionamento ao sistema eleitoral do País pela Casa Branca. As articulações do bolsonarismo com o movimento MAGA para promover interferência nas eleições, como fez Trump, devem beneficiar Lula, segundo as pesquisas realizadas desde o primeiro tarifaço estadunidense.
O gesto constrange as autoridades nacionais a não coibirem eventuais excessos da direita e alerta investidores e empresários de que a oposição pode provocar intencionalmente respostas de Washington, inclusive com reflexos econômicos, já durante o processo eleitoral. Para isso, basta que o mandatário americano decida que o senador Bolsonaro foi prejudicado por alguma decisão da Corte Eleitoral, por exemplo.
Vestir ou não a camisa do ajuste?
Em outro caso, Fabio Kanczuk, ex-diretor do Banco Central (BC) no governo Jair Bolsonaro, afirmou que um ajuste fiscal duro será imposto a Lula pelo mercado em caso de reeleição. “[O aumento dos gastos e da dívida pública] vai ter que parar, e tem duas formas de isso acontecer: uma é o governo cortar gasto, mas eles não estão falando isso. A outra é o mercado fazer parar na marra. E daí é igual à crise que a gente teve na Dilma II, em que o dólar dispara, os juros disparam e a economia afunda”, disse, em entrevista ao InfoMoney.
Dias antes, o próprio senador Bolsonaro rejeitou publicamente, provavelmente por pragmatismo eleitoral, um ajuste a ser realizado sobre os pisos da educação e da saúde, por meio do congelamento do salário mínimo e de uma nova reforma previdenciária. A fala do “Tio Isaque”, entretanto, ocorre em meio à operação da PF contra Paulo Lemann e Carlos Alberto Sicupira, na esteira das fraudes das Lojas Americanas, que busca esclarecer até que ponto grandes instituições financeiras privadas participaram da corrupção corporativa investigada. A operação reforça a narrativa contra os “magnatas do crime organizado”, direcionada à reputação da Faria Lima, principalmente após o caso do Banco Master. Esse posicionamento tende a ganhar tração eleitoral à medida que se intensifiquem pressões em favor da mudança de governo e de um ajuste que imposto ao arrepio da estabilidade.
Os desdobramentos
Para se confirmar como tendência, a resiliente dianteira de Lula na PoderData precisará ser corroborada pelos levantamentos previstos para os próximos dias. Estudos de AtlasIntel, Genial/Quaest e Datafolha apontaram anteriormente vantagens maiores do presidente sobre Flávio, variando de quatro a seis pontos no segundo turno, após a revelação do envolvimento do senador Bolsonaro com Daniel Vorcaro, ex-dono do Master.
Em tempo: a prisão de um vereador petista da cidade de São Paulo, acusado de envolvimento com o Primeiro Comando da Capital (PCC), agora classificado como organização terrorista pelos EUA, coloca sobre ao campo lulista uma escolha: evitar o efeito contágio ou deixar o flanco aberto para a oposição e até mesmo para a Casa Branca. No campo bolsonarista, por sua vez, um empresário vinculado à produtora do filme sobre Bolsonaro foi apontado como integrante do PCC. Para a democracia, mais desgastante do que o eleitorado chegar à conclusão de que todos os partidos estão ligados ao escândalo do Master é a população concluir que todos eles estão ligados ao PCC e a grupos afins.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

