Desgraça pouca é bobagem: os filhos do rei (Episódio 3)

"Zero Dois, desde muito novo, foi conduzido aos meandros do poder. Em vez de estudar, Bobo, seu pai, o inseriu na Câmara dos Lordes para provar que o trabalho infantil nas minas de carvão do Reino era legítimo", escreve a colunista Maura Montella. O Zero Três, diz ela, "nunca fez nada de útil em toda a sua vida dentro e fora da Câmara dos Lordes"

Eduardo Bolsonaro, conhecido como o 03, e Carlos Bolsonaro, o 02
Eduardo Bolsonaro, conhecido como o 03, e Carlos Bolsonaro, o 02 (Foto: Cleia Viana/Câmara dos Deputados | Eduardo Barreto/CMRJ)
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Como desgraça pouca é bobagem, o Bobo da Cavalaria, agora no trono real, não se contentou em fazer suas trapalhadas sozinho; cismou de dar continuidade à sua linhagem agressiva e nefasta. Tal como se faz com gado, Bobo marcou seus filhos com as identificações: 01, 02, 03 e 04 e, à medida que suas criaturas iam crescendo, Bobo os inseria, um a um, na Câmara dos Lordes do Reino do Sul.

Mas isso vocês já sabiam porque eu contei no episódio anterior. Contei, inclusive, que Zero Um era muito apegado a um colono que cultivava laranjas e que, a pedido do filho, Bobo empregou o tal agricultor, que tinha um "Q" de Algoz, como carrasco do palácio real. Algoz, além da perversidade, não possuía nenhuma qualificação para o cargo, mas Bobo não queria nem saber. Quem não estivesse satisfeito com seu jeito "democrático" de governar, que fosse viver no Reino "Ditatorial" do Oeste, uma pequena ilha à esquerda do Reino do Sul com altos índices de saúde e educação, ou viver no populoso Reino "Comunista" do Leste, uma verdadeira potência na produção de arroz e de diversos outros produtos, mas que Bobo fazia questão absoluta de menosprezar. 

E assim foi até que certo dia, o recém-contratado carrasco real perguntou a Zero Um se não tinha como empregar toda a sua família dentro do castelo também. Zero Um, muito apegado ao eterno dono do laranjal com um Q de Algoz, nem pensou duas vezes e foi logo falar com seu pai. Bobo, por sua vez, não se furtou a acolher o pedido de Zero Um, mas impôs uma condição: Algoz, além de trabalhar como carrasco real, teria que criar uma tropa extrapalaciana e acabar com todos aqueles que pensassem diferente do rei. Algoz não titubeou. Acostumado a fazer maldades, aplicou os meios mais sórdidos e cruéis para eliminar todos os que ousavam confrontar as ideias de Bobo, seu chefe empregador.

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Dos casos de violência atribuídos à tropa de Algoz, o de maior repercussão foi o assassinato de uma jovem plebeia, conhecida por sua garra e persistência na luta em defesa dos plebeus e de outras minorias. Esse caso foi tão emblemático, que Bobo, o próprio rei, teve que se apresentar diante da Suma Corte Judicial do Reino do Sul. Todo mundo sabia que essa era uma atitude "pro forma", ou seja, só para manter as aparências, já que a Suma Corte também morria de medo de ser executada pelo palaciano Algoz e sua tropa. De todo modo, Bobo jurou de pés juntos e com a mão sobre a Bíblia que ele não tinha nada a ver com o caso da plebeia assassinada.

2.

Os juízes fizeram vista grossa; Algoz se escondeu numa casa no meio do mato; e os plebeus permaneceram indignados, chorando a falta de seu maior presente, a jovem aguerrida que deixou seu nome gravado para sempre na história do Reino do Sul: Mári L.

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Ainda tem muita coisa para contar do Zero Um, mas como são quatro criaturas, vamos logo passar para o Zero Dois. Eu poderia dizer que este era o mais complicado e agressivo de todos, mas o páreo é duro e deixo para vocês decidirem. Bom, Zero Dois, desde muito novo, foi conduzido aos meandros do poder. Em vez de estudar, Bobo, seu pai, o inseriu na Câmara dos Lordes para provar que o trabalho infantil nas minas de carvão do Reino era legítimo e que qualquer reclamação não passava de mi-mi-mi de preguiçosos insubordinados. É claro que tudo deu errado: primeiro pela comparação absurda entre o trabalho de um jovem nobre mimado dentro de um palácio e o de uma criança plebeia mal-alimentada dentro de uma carvoaria. Segundo porque, mesmo sem o domínio da escrita, sabe qual foi o cargo destinado por Bobo ao seu filho Zero Dois? O de escriba, responsável por escrever e enviar todas as mensagens reais!! Mas sem dominar minimamente o léxico e sem ter ideia do que fosse interpretação de texto?! Pois é, vai vendo...

O desempenho de Zero Dois foi um desastre desde o início. 

Para começar, ele implicou com o sistema, implantado havia séculos, de usar pombo-correio para enviar mensagens. Fez pirraça, bateu pé, deu chilique e tudo mais, porque queria porque queria que suas mensagens fossem entregues não por pombos, mas por pavões reais. Os assessores do rei, na tentativa de aplacar tamanho faniquito, deram uma ideia para o espetaculoso rapaz: Zero Dois, mesmo tendo faltado às aulas de redação, mandaria as correspondências oficiais pelo pombo-correio, e as extraoficiais ficariam a cargo de seu Pavão Misterioso. E aqui, sou obrigada a fazer um adendo: Zero Dois e seu primo eram muito ligados um ao outro. Os súditos estavam cansados de vê-los correndo pelo palácio, brincando de carrinho de mão e pega-pega, se escondendo pelas inúmeras habitações do castelo e se abraçando efusivamente quando se encontravam. Contei isso porque até hoje não sabem se o tal Pavão Misterioso que fazia a entrega das mensagens falsas, ops! quer dizer, das mensagens extraoficiais, era realmente uma ave ou se era o primo ou mesmo o Zero Dois fantasiado com as plumas de seu animal favorito.

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Enfim, história é o que não falta envolvendo o Zero Dois, seu primo e o gabinete que eles montaram para escrever as mensagens reais e irreais que saíam do palácio, mas vamos seguir porque ainda restam duas desgraças portadoras da odiosa genética do pai, que eu preciso apresentar a vocês. Então, vamos lá: Zero Três. Mais conhecido como Bananinha, nunca fez nada de útil em toda a sua vida dentro e fora da Câmara dos Lordes. Talvez por esse comportamento de banana mole, tenha recebido o tal apelido.

3.

As moçoilas do Reino, entretanto, diziam que o motivo era outro, mas como não posso comprovar, vou continuar dizendo que a alcunha vinha apenas do fato de ele ser um paspalho mesmo. Bananinha adorava armas, e a mais letal da época era a espada. Quanto maior fosse a espada que Bananinha empunhava, mais feliz ele ficava. Novamente entravam as más línguas dizendo que a preferência por espadas grandes era uma forma de compensação, e mais uma vez, eu, não tendo como comprovar, deixo o dito pelo não dito.

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Além do apelido e das armas, Bananinha ganhou notoriedade quando foi passar uma temporada no Reino do Norte. No Reino do Sul, ele era filho do rei, mas no reino das pessoas de nariz empinado e fala enrolada, Bananinha não era ninguém. Para comer, ele mesmo assava sua carne nos braseiros de rua dos plebeus, mas quando voltou para o Reino do Sul, ele contou uma história completamente diferente da realidade. Disse que tinha feito todas as refeições no palácio real e que, por ser fluente no dialeto nórdico (falava duas ou três palavras), tinha virado amigo do rei Trunc, conhecido como "o truculento". Mais uma mentira deslavada, típica da família do Bobo. Aos olhos de Trunc, Bananinha era só mais um pária social, como tantos outros nobres do Reino do Sul, que "ousavam" visitar o Reino do Norte. 

E isso não é nada perto das coisas que eu tenho para contar sobre o Zero Três, mais ainda preciso apresentar o Zero Quatro, que, por ser filho de outra mãe, mudou completamente o rumo da história do Reino do Sul. Então, não percam o próximo episódio para saber o que aconteceu.

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