Desmistificando Paulo Freire ou parem de falar do que não leram

Hoje resolvi escrever sobre algumas frases que comumente ouvimos por aí – na maioria das vezes de pessoas que não leram sequer uma obra de Freire – e que se disseminam como pragas, sem fundamentação e com uma boa carga de má fé e, podemos até mesmo dizer, mau caratismo

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(Foto: Aroeira)


Hoje resolvi escrever sobre algumas frases que comumente ouvimos por aí – na maioria das vezes de pessoas que não leram sequer uma obra de Freire – e que se disseminam como pragas, sem fundamentação e com uma boa carga de má fé e, podemos até mesmo dizer, mau caratismo. 

A primeira e mais comum frase que ouvimos por aí sobre Freire e que não tem fundamentação nenhuma para ser proferida: “Por causa de Paulo Freire que a educação no Brasil está como está!”. Bueno, Paulo apesar de ser o Patrono da Educação Brasileira, teve sua pedagogia implementada apenas pontualmente e em casos muito específicos, alguns programas e projetos ou em ações individuais; nunca – friso o nunca – foi implementado como política pública aplicada ao Sistema Educacional Brasileiro. Acho importante lembrar que muita gente, me parece, confunde a Educação Libertadora de Freire com o construtivismo (que é de Piaget). 

A educação brasileira está como está por inúmeros motivos, dentre eles a falta de investimentos, mas não por causa de Freire que sequer se encontra nas nossas políticas educacionais.  A segunda frase é um equívoco mais do que um erro: “Paulo Freire criou um método de alfabetização!”. Também, mas não só. Paulo criou um projeto de sociedade. Vai para além de um método. Ele criou um projeto de uma nova sociedade, justa e igualitária, sem oprimidos e opressores; o objetivo da pedagogia freireana sempre foi a transformação social, muito além da simples codificação e decodificação de letras e números. Aliás, criou o método de alfabetização de jovens e adultos, justamente por perceber que estes, quando não alfabetizados, eram o exemplo vivo da exclusão na sociedade fechada brasileira. Ele criou o método para que além, de aprender a ler as palavras, eles pudessem “ler o mundo” e o transformar.  

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Terceira frase, que também se trata de um equívoco: “Mas eu já conheço a teoria de Freire, já sei tudo sobre ela!”. Primeiro que nunca se sabe tudo sobre algo, se lessem Freire saberiam disso. Há sempre coisas novas para aprender. Me parece também, e talvez aqui o equívoco seja meu, que algumas pessoas acham que conhecem a pedagogia freireana por lerem algumas frases aleatórias e descontextualizadas dele que normalmente a gente vê nas redes sociais, nos cartões de parabéns pelo dia do professor e da professora, nas aberturas de formações docentes, etc. Acredito que, depois de ler as mais de 20 obras do autor e assistir a todas as suas entrevistas, bem como ler os autores que escrevem sobre Freire, aí sim, se conhecerá um pouco da obra dele – um pouco. Deixei para o fim desta escrita, a mentira sobre Freire que eu mais gosto: “O método Paulo Freire não funciona!”. Sim, meu caro, por isso que em 1960, Paulo alfabetizou 300 cortadores de cana em 45 dias no Rio Grande do Norte. Porque não funciona. Por isso que, quando exilado, ele foi convidado por vários países para implementar seu método. 

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Por isso que hoje a Alemanha usa o seu método para ensinar o idioma alemão aos refugiados. Por isso que a Suécia o homenageou com uma estátua. Por isso que ele é estudado nas Universidades estadunidenses (que agora inclusive estão financiando estudantes que desejem pesquisar a obra do autor). Por isso que ele virou Centro de Estudos na Áustria, na Alemanha, na Holanda, em Portugal, no Canadá, na Inglaterra, nos EUA, na África do Sul, na Finlândia (sim, na Finlândia também). Por isso que Pedagogia do Oprimido é o terceiro livro mais citado em trabalhos acadêmicos da área de humanidades no mundo todo, porque não funciona! 

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Sugiro que aqueles que adoram espalhar essas frases por aí, leiam a obra de Freire antes de sair a falar coisas sem sentido e sem nexo. Sugiro também àqueles que tem amigos e amigas que proferem essas frases que indiquem algumas leituras (apesar de saber, antecipadamente, que leitura não é o forte dessas pessoas).  Sigamos sendo resistência! Saudações freireanas!

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