Desnacionalização neocolonial da produção de lítio para produzir carro elétrico amplia dominação chinesa no Brasil
Produto primário é arrancado das terras do Jequitinhonha, onde está uma população das mais pobres do mundo
Se o governo Lula tivesse programa de nacionalização de exploração de matérias primas estratégicas que o Brasil possui em abundância no subsolo brasileiro para industrializar-se internamente estaria ampliando suas relações com a China em outro patamar, não, apenas, quantitativo, mas, sobretudo, qualitativo; não, somente, exportava produtos primários e semielaborados para os chineses, mas realizaria, com eles, parcerias na exploração de negócios objetivando a industrialização nacional.
Essa oportunidade se abre, especialmente, na exploração da principal matéria prima para fabricação de carros elétricos, o Lítio, fronteira tecnológica para fabricação de bens duráveis com alto conteúdo científico e tecnológico.
Como inexiste esse programa de industrialização estratégico, que daria dianteira brasileira, na cena internacional para produção de componente industrializado de tecnologia de ponta na fabricação de baterias, o país vê escorrer pelo ralo oportunidades de ouro que o tornaria grande player na exploração, fabricação, distribuição e comercialização de baterias de lítio, alvo da demanda internacional.
Caso dominasse essa vertente tecnológica, o governo Lula alavancaria mercado de trabalho com especialização de mão de obra atrativa ao mundo industrializado em escala exponencial.
No entanto, a inexistência, por parte do Ministério da Indústria, Comércio e Turismo(MICT) e do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação(MCTI), de estratégia para se posicionar na vanguarda tecnológica do carro elétrico, movido a baterias acionada pelo lítio, abundante no território nacional, coloca o Brasil na dependência de terceiros; estes, de fato, estão avançando na exploração dessa matéria prima, em território nacional, sem que a sociedade brasileira usufrua das suas especificidades decorrentes da especialização tecnológica adaptadas à produção do valioso mineral.
DOMÍNIO INTERNACIONAL DO LÍTIO NACIONAL
Essa vantagem comparativa, que deveria estar sendo explorada por interesses nacionais, está nas mãos de interesses internacionais, que abrem oportunidades bilionárias com o lítio brasileiro.
É o caso da multinacional canadense, Sigma Lithium, instalada no Vale do Jequitinhonha, Minas Gerais, nas cidades de Araçuaí e Itinga, onde ela desenvolve o Projeto Grota do Cirilo , sem que a sociedade brasileira tome conhecimento do assalto ao patrimônio nacional.
Grandes fundos de investimentos internacionais, como BlackBloc, Janus Henderson etc, financiam a Sigma Lithium, desde 2018, quando informaram às bolsas do Canadá e dos Estados Unidos, a quantificação das reservas do mineral “Espodumênio”, do qual é retirado o lítio.
Imediatamente, diante das informações dessas reservas catalogadas pelas bolsas, a empresa canadense começou a levantar dinheiro nos fundos para tocar o projeto, que prevê produção anual de 277 mil toneladas/ano, com faturamento previsto de 6,6 bilhões de dólares/ano.
O “Espodumênio”, descoberto, em 1800, no lado Uton, na Suécia, pelo patricarca da Independência, o nacionalista José Bonifácio, naturalista, químico, de fama mundial, que fornece a matéria prima para fabricação de baterias de veículos elétricos, começou a ser explorado, no Vale do Jequitinhonha, pela associação da empresa brasileira, Magnesita, com a canadense Calvyn Gardner, sócia da Sigma Lithium, em 2012.
Logo que quantificaram o tamanho das reservas, o fundo de investimento A10, associado à Black Rock, assumiu o negócio e, entre 2012 e 2016, financiou relatório número 43.101, que abriu as portas dos investidores externos; estes toparam participar do negócio desde que não houvesse nenhuma interferência estatal, para conferir o que chamam de segurança jurídica, de acordo com a CEO da Sigma Lithium, Ana Cabral.
O projeto ganhou atratividade internacional por três motivos que ela considera essenciais: 1) segurança jurídica, que garante ausência do Estado nacional no negócio; 2) grande quantidade de reservas do produto que passou a ser vanguarda no desenvolvimento tecnológico mundial para fabricação de baterias de carro elétrico e 3) concepção do projeto conforme inovação de política ambiental: secagem total dos rejeitos dos produto tratado sem utilização químicas e formação de barragens, que ameaçam destruição do meio ambiente.
Evita-se, portanto, a construção do Projeto no Vale do Jequitinhonha, o que aconteceu em Mariana, MG, com explosão de barragens de rejeito, destruindo cidades e populações desprotegidas de providências de segurança, diz Ana Cabral.
NEGÓCIO DA CHINA
A grande tacada que, neste momento, está sendo realizada, sem que o governo brasileiro, seja participante ativo no negócio, em favor do interesse nacional, é a transferência, por meio dos fundos financeiros, da empresa canadense Sigma Lithium, exploradora do lítio, na cidade de Araçuaí, no Vale do Jequitinhonha, para a multinacional chinesa BYD, fabricante de carros elétricos.
A produtora de automóveis da China negocia com a Sigma Lithium, do Canadá, por R$ 14 bilhões, empreendimento industrial que começou em 2012, estimado, conforme reservas não devidamente transparentes, em 200 milhões de dólares, hoje cotado em 3,6 bilhões de dólares/14 bilhões de reais.
O Vale do Jequitinhonha, que já está sendo chamado de Vale do Lítio, onde se produz o denominado Lítio Verde, dados processos tecnológicos desenvolvidos pela Sigma Lithium, virou atração internacional.
A população brasileira não está sabendo que estão levando suas riquezas, transacionadas por meio de bolsas internacionais.
O produto primário é arrancado das terras do Jequitinhonha, onde está uma população das mais pobres do mundo, que não verá nem o cheiro da transação financeira bilionária, calculada em quase R$ 15 bilhões.
Como os investidores só tocam o projeto com a segurança jurídica calcada na certeza de que o Estado não interferirá no negócio, não se cogita de a população receber impostos pela matéria prima exportada, nem royalties pela exploração do produto.
A empresa canadense, diante das benesses espetaculares favorecidas pela ausência do Estado, recolhe “voluntariamente” contribuição financeira de exploração mineral(CFEM) sobre base de cálculo por ela mesma estipulada da ordem de 7 mil dólares por tonelada, quando teria que recolher, apenas, por 100 dólares sobre o produto mineral ou seja, estaria pagando 70 vezes mais do que deveria pagar de CFEM.
A CEO da empresa ressalta que os capitalistas canadenses praticam, no Vale do Jequitinhonha, o que chama de capitalismo social, proporcionando condições de absorção e atração de população de baixa renda na oferta, que negocia com bancos públicos, como o BNDES, de microcrédito, para operar pequenos negócios para a população socialmente excluída etc.
O ciclo de exploração e dominação canadense do lítio, no entanto, está em fase de transição, pois passará a ser explorado por empresa chinesa de fabricação de carros elétricos, no mesmo ambiente de negócio que atraiu os fundos de investimentos internacionais, ou seja, na condição de inexistir interferência estatal, abrindo-se para cobrança de royalties que fortaleceriam industrialização regional etc.
HERANÇA COLONIAL DESINDUSTRIALIZANTE
No final da exploração mineral do lítio, ficará o buraco para população, empobrecida, cair dentro, morta de fome, como aconteceu com a exploração da mineração no Vale do Rio Doce, cujas barragens de contenção, ao derramarem pelo excesso de peso, mataram milhares de pessoas e provocaram bilhões de prejuízos à comunidade e ao meio ambiente.
O Brasil continua sendo o paraíso dos lucros escandalosos das mineradoras que privatizaram as fontes primárias de produção de minério de ferro, como aconteceu com a Vale do Rio Doce, na Era FHC.
As exportações de produtos primários e semielaborados não pagam impostos de exportação, o ICMS, graças à Lei Kandir, aprovada, no Congresso, em 1996, por força de pressões internacionais, encabeçadas pelo ex-presidente FHC, o mais entreguista dos presidentes brasileiros em toda a história, na verdade, o primeiro anti-presidente do anti-estado nacional.
Essa lei, essencialmente imperialista, é a principal causa da desindustrialização nacional, que eterniza o federalismo colonizado, inviável à formação de renda média, impedindo a ascensão à classe média, sonho do presidente Lula.
A história se repete com a exportação do Lítio do Vale do Jequitinhonha, que pode promover devastação econômica e ambiental, embora a empresa canadense, agora, adquirida por empresa chinesa, diz estar tomando precauções com a exploração do meio ambiente, na tarefa de secar os resíduos contaminados pelos produtos químicos, que matam populações e destroem rios e animais.
De novo, depois da cana de açúcar, do ouro, do café, do minério de ferro, cuja exploração permanece, chegou a vez do lítio.
A China come a América do Sul pelas beiradas....
https://www.brasil247.com/economia/byd-negocia-compra-da-principal-mineradora-de-litio-do-brasil?tbref=hp
https://www.brasilmineral.com.br/noticias/sigma-lithium-esta-transformando-o-jequitinhonha-no-vale-do-litio
https://www.brasilmineral.com.br/revista/428/?p=6
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

