Desrespeito no ônibus
Pelo título, o leitor pensa logo em assédio nos ônibus, o que acontece com absurda frequência. Mas o caso que passo a relatar é outro
Nesta semana, um fato desagradável ocorreu comigo. Eu voltava do centro do Recife, de ônibus, no sábado. O veículo estava cheio e eu, em pé, em frente a duas jovens sentadas. Elas me viam e faziam que não viam, olhavam de lado e viravam o rosto para a paisagem. Até o momento em que eu, de propósito, toquei no ombro da mais próxima, repetidas vezes, com um pequeno pacote que eu carregava. Para quê? A sensível jovem me olhou nos olhos e reagiu contra aquela indignidade:
Olhe o que o senhor está fazendo!
Então eu lhe respondi:
É interessante que você não me viu antes. Só agora?
Por quê? — ela me perguntou.
Eu respondi:
Porque você não deu lugar a um idoso.
Então ela, no círculo fechado do seu egoísmo, voltou-se contra mim aos gritos:
Mas o senhor não teve respeito nem educação!
Eu respondi:
- Você é que não tem respeito nem educação em ceder o seu lugar a uma pessoa mais idosa. Tanto você quanto a amiga!
O ônibus inteiro parou para ouvir; quero dizer, as pessoas pararam e ficaram olhando a discussão. Não foi a primeira vez que isso aconteceu, em que jovens não cedem lugar aos mais idosos. Acontece neste exato momento nos ônibus do Brasil. Mas, no sábado, eu explodi, porque era e continua a ser de necessidade pública. Esse desprezo por um direito humano dos mais velhos nunca, ou quase nunca, é divulgado. Um dos problemas para casos semelhantes não serem conhecidos é que a maioria dos intelectuais não anda mais de ônibus e perde esse contato com a vida da maioria da população. Como, então, falar das condições reais em que vive o povo? É como se tudo estivesse bem, visto da janela do seu carro.
Saudade dos tribunos populares. Saudade de Lima Barreto e de Solano Trindade.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
