Desse jeito, não salvaremos vidas, nem a economia

No fim, nem o dinheiro, nem as vidas, serão salvas. Haverá desemprego, fome, miséria e muitas pessoas chorando pelos entes queridos

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Olá, companheiros e companheiras. Chegamos a mais uma semana da quarentena e do avanço da pandemia do novo coronavírus no Brasil. Como era de se esperar, o governo federal não tem uma postura uníssona, com o presidente e o Ministro da Saúde divergindo em diversos aspectos, principalmente na questão do isolamento social.

Ao redor do país, vemos as surreais manifestações pedindo a abertura do comércio e flexibilização das medidas de segurança, para se instaurar o tal do “isolamento vertical”, completamente contestado pelos especialistas e órgãos de saúde mundiais. Apoiando-se nestes movimentos, comerciantes e federações de comércio aumentam a pressão, dizendo que se as portas não abrirem, haverá um crescimento exponencial do desemprego no país. Para completar nosso pandemônio, poucas políticas de distribuição de renda e ajuda aos empresários são criadas pelo governo federal, gerando apreensão nos estados e municípios, que estão “levando nas costas” os cuidados com a pandemia em território nacional. 

Diante de tal cenário, desalentador, teremos perdas inimagináveis nos dois pontos mais cruciais da pandemia: saúde e economia. Quem contesta a quarentena alega que o comércio fechado paralisará o sistema financeiro, levando o país a um colapso fiscal. Quem defende o isolamento, diz que primeiro deve-se salvar vidas, depois a economia. 

Entretanto, no meio desta “bateção de cabeça” protagonizada pelo Governo Federal, nem vidas, nem a economia serão salvas. Porque não há um planejamento unificado para poder enfrentar esta crise sanitária que atingiu todo o planeta e está mudando a relação dos Estados com as respectivas populações. 

Se a partir da semana que vem houver uma flexibilização por parte de estados e municípios nas regras de fechamento do comércio, as chances de um aumento exponencial dos casos de coronavírus são grandes. Basta olhar outros países que fizeram esta escolha, como Estados Unidos, Itália e Espanha. Com este acréscimo de doentes, o Sistema Único de Saúde não suportará a demanda e irá para o colapso. E aí, meus amigos e amigas, terá que parar tudo de novo. Fechar tudo que foi aberto, gerando mais prejuízos para os comerciantes e para o Estado, que terá que aumentar os gastos com saúde e precisará criar políticas de distribuição de renda. Sem contar nos familiares que irão chorar pelos seus mortos. 

E é para este caminho que temos caminhado. Ao longo do país, a pressão tem sido cada dia mais intensificada. As pessoas não estão respeitando o isolamento social e têm se aglomerado nas ruas, nas praças, nas portas dos bancos, nos supermercados. Enfim, para uma parte significativa da população, ainda há o entendimento de que nada de anormal está acontecendo no país. É tudo uma construção da mídia e da oposição para derrubar o presidente da República. 

Se esta escolha, de fato, for tomada, entraremos no mais profundo e verdadeiro caos. Não há condições do SUS aguentar um aumento grande dos casos, de uma hora para outra. Em algumas cidades, como São Paulo, Rio de Janeiro e Manaus, hospitais de campanha estão sendo necessários. Em tantos outros, há um crescimento diário na ocupação dos leitos de UTI por causa de novos pacientes diagnosticados com o vírus. 

Juntando este cenário com a dificuldade que os estados estão de comprar EPIs, testes e respiradores, temos a possibilidade, real, de começarmos a empilhar corpos dentro das próximas semanas, gerando um “rasgo” ainda maior no nosso já combalido tecido social. 

Simplesmente não dá para salvar primeiro a economia para depois salvar vidas. Não há estrutura de saúde mundial que aguente a alta demanda de infectados. Não há profissionais de saúde para atender a todos. O Brasil deveria participar do esforço planetário de utilizar o Estado para garantir o mínimo de dignidade para seus cidadãos ficarem em casa, se protegendo do vírus. 

Um estudo divulgado pela revista Science mostra que, sem isolamento, dependendo de como serão desenvolvidas vacinas e medicamentos para o controle da doença, a quarentena teria que durar até 2021. Ou seja, não estamos falando de uma “gripezinha” qualquer. Os estragos do novo coronavírus serão sentidos pela próxima década. Por isso, mais importante que acertar é não errar. 

Quero muito estar errado, mas o cenário que vislumbro é: abre-se o comércio, as vendas continuarão baixas, desemprego aumentará, a pandemia irá se espalhar, os hospitais irão lotar, o SUS entrará em colapso, hospitais de campanha não darão conta, comércios serão fechados de novo, quantidade de mortos irá aumentar, desemprego continuará subindo, assim como a miséria e a fome, ao mesmo tempo que os casos de Covid-19 continuarão crescendo exponencialmente, até que o novo isolamento social, mais brutal, faça efeito. 

O Brasil, hoje, paga por todos seus erros históricos: falta de educação; falta de infraestrutura; de investimentos na saúde; de investimentos em pesquisa e, principalmente, no desenvolvimento de uma consciência de classe pela população. 

A saída mais fácil era seguir o que está sendo feito em todos os países do mundo: políticas públicas para proteger trabalhadores, empreendedores e investimentos na área de saúde. Só que algumas pessoas preferiram pensar na economia. No fim, nem o dinheiro, nem as vidas, serão salvas. Haverá desemprego, fome, miséria e muitas pessoas chorando pelos entes queridos. Ainda dá tempo de mudar, o problema é convencer o chefe da Nação e seus asseclas. 

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