Destruição da Amazônia: bancos investiram R$ 60 bilhões em frigoríficos desmatadores, entre 2016 e 2020

42% do investimento global em commodities brasileiras foram para produção de carne, uma atividade de alto impacto ambiental

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O discurso dos detentores do capital financeiro em prol do meio ambiente é o mesmo de sempre: é só para inglês ver! Por um lado, cobram do governo brasileiro medidas contra a destruição dos biomas; por outro lado, seguem investindo bilhões em atividades lucrativas associadas ao desmatamento.

A Forests and Finance (F&F), um consórcio de ONGs ambientais focadas em florestas tropicais, rastreou R$ 990 bilhões investidos entre 2016 e 2020 na produção de carne, óleo de palma, papel e celulose, borracha, madeira e soja em três regiões do mundo.

Mais da metade veio para o Brasil, sendo R$ 235 bilhões (42%) destinados à pecuária, uma atividade que aufere lucros exorbitantes e causa grandes impactos ambientais e climáticos. Na região Amazônica, a pecuária se impõe à custa de mata nativa, que é destruída para dar lugar a áreas de pasto.

Dois terços da área desmatada da Amazônia viram pasto. Os frigoríficos com maior capacidade de abate que atuam na região (JBS, Marfrig e Minerva) receberam nos quatro anos de rastreamento da F&F (2016-20) quase R$ 60 bilhões em investimentos.

Na contramão do Acordo de Paris, resultante da COP 21 e firmado em dezembro de 2015, o investimento em commodities associadas ao desmatamento aumentou 40% do início de 2016 a abril de 2020. O Acordo de Paris é um compromisso assumido por 195 países com ações para limitar o aquecimento climático em 2 oC até 2100. “Mas o objetivo lucrativo do setor financeiro está nos levando a um desastre climático e de saúde”, declara Merel van der Mark, coordenadora da Forests and Finance.

Segundo a F&F, R$ 560 bilhões foram investidos em atividades de alto risco de desmatamento no Brasil, assim distribuídas: 42% em carne, 36,3% em papel e celulose, 18,3% em soja e 2,3% em madeira.

Dos R$ 235 bilhões destinados à produção de carne, ¼ foram para os cofres da JBS, Marfrig e Minerva; o maior frigorífico brasileiro (JBS) ficou com 43% deste montante (R$ 25,5 bilhões), dos quais R$ 11 bilhões representam a participação acionária do segundo maior sócio da empresa, o BNDES. A Marfrig recebeu R$ 20 bilhões e a Minerva R$ 14 bilhões.

Além do investimento direto na compra de ações, o Banco Nacional de Desenvolvimento injetou nesses frigoríficos, via operações de crédito com dinheiro público executadas por outras duas instituições financeiras (Volkswagen Financial Services e Mercedes Finance), 12% do total investido nesta modalidade, que somam R$ 12,6 milhões. Os outros 88% (R$ 93,3 milhões) são empréstimos do Bank of America para a Marfrig, com origem em um único contrato firmado em 2017.

Uma outra modalidade de financiamento, identificada pelo site oeco.org.br com base nos dados da F&F, é a chamada “subscrição” -uma operação temporária, lucrativa e de baixo risco- pela qual os bancos injetaram R$ 35,9 bilhões na JBS, Marfrig e Minerva.

De acordo com o pesquisador da F&F Ward Warmerdam, a subscrição ocorre quando a empresa quer lançar novas ações na bolsa de valores ou obter empréstimo no mercado financeiro.

“A maioria das empresas não pode emitir títulos no mercado de capitais por conta própria. Então elas contratam serviços de subscrição dos bancos, que compram todos seus títulos emitidos, garantindo às empresas o financiamento que precisam, porque negociam previamente esses títulos com potenciais compradores”, explica.

Um ótimo negócio para os bancos, porque recebem por esses serviços e ainda lucram com a venda dos títulos. Além disso, por seu caráter “temporário”, a operação não é registrada no balanço financeiro dos bancos. Isto significa que “a subscrição de títulos não expõe a instituição financeira a riscos como na concessão de empréstimos”, complementa Warmerdam.

Os R$ 59,5 bilhões investidos nos três maiores frigoríficos que operam na Amazônia vieram de 365 instituições de 27 países, com 55% dos recursos provenientes de instituições brasileiras: BNDES, Santander, BTG Pactual, Bradesco, Banco do Brasil, Itaú e Grupo Safra. Brasil, EUA, Reino Unido e Espanha respondem por 91% do total investido.

Portanto, o desmatamento da Amazônia é fomentado com aporte financeiro majoritário de instituições brasileiras. E não é exagero dizer que a destruição deste e de outros biomas é parte de uma política de estado implementada no Brasil a partir de 2016. O INPE registrou em 2020 mais de 70 mil focos de incêndio na Amazônia. O Ministério do Meio Ambiente gastou até a presente data (9o mês do ano) apenas 35,6% do orçamento de 2020 previsto para prevenção, combate e fiscalização de queimadas.

Merel van der Mark, da F&F, afirma que é impossível dissociar o fogo que se alastra pelos biomas brasileiros destes vultosos valores investidos pelo capital financeiro. Desde o início do ano, os focos de incêndio no Pantanal cresceram 220%, segundo dados do INPE.

“Neste momento, incêndios intencionais estão queimando as últimas florestas tropicais remanescentes do mundo. Trata-se de uma ação ‘barata’ para limpar territórios já desmatados para a produção de commodities. Bancos globais e investidores estão conscientemente financiando os gigantes do agronegócio, que justamente estão alimentando os fogos”, acusa van der Mark.No artigo How Morgan Stanley is linked to deforestation in the Amazon, de André Campos e Piero Locatelli, publicado no último dia 16 no site da Forests and Finance, os autores mostram como o segundo e o terceiro maiores frigoríficos do Brasil contribuem para a destruição da Amazônia. Segue uma síntese.

Um dos principais fornecedores de gado da Marfrig, José Carlos Ramos Rodrigues, é um dos maiores desmatadores da Amazônia. Ele já foi multado 13 vezes entre 2007 e 2016, com sanções que somam quase R$ 20 milhões. Segundo o The Intercept Brasil, 15 mil hectares de suas terras agrícolas no Mato Grosso estão na lista negra do IBAMA.

Além de indiciado por crimes ambientais, Ramos Rodrigues responde judicialmente por manter em suas terras trabalhadores em condições análogas às da escravidão. É também acusado de intermediar a venda de gado para a Marfrig, a partir de propriedades com registro de atividades ambientais ilegais. “Ainda não dispomos de ferramentas eficazes para controlar a triangulação de animais entre fazendas”, se defende a Marfrig.

A prática conhecida na região como “triangulação de gado” é usada com frequência para burlar a fiscalização, e há registro de outros frigoríficos envolvidos, como o Minerva. Antes de vender o gado, fazendas com atividades em áreas desmatadas ilegalmente transferem os animais para outras propriedades sem histórico de violações ambientais. A Marfrig faz questão de informar que participa “desde o primeiro momento do novo protocolo de monitoramento de fornecedores de gado e entende sua importância e a transparência que ele confere aos procedimentos”.

Um dos maiores acionistas internacionais dos frigoríficos Marfrig e Minerva é o banco Morgan Stanley, com sede em Nova Iorque. “Investimos em empresas com base em seu potencial de manter ou melhorar seus rendimentos, e não em suas credenciais ambientais ou sociais”, declarou William Lock, diretor do Grupo de Ações Internacionais do banco, em um relatório sobre sustentabilidade publicado recentemente.

Fontes: https://forestsandfinance.org/blog/how-morgan-stanley-is-linked-to-deforestation-in-the-amazon/?fbclid=IwAR1F0GseLbuVFR5OQkfLpD4t3HWWRiEaZW7AnflDsML8-JnCjAggC7oHjZ4

https://www.oeco.org.br/reportagens/bancos-injetaram-r-235-bilhoes-em-frigorificos-desmatadores-desde-o-acordo-de-paris/?fbclid=IwAR11Py36DmE1nMK6e4SZzo2Uu8J_rBn_PukmUAYV52ugM-UXpbMiv_mCnxs

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