Deus e o Diabo na Terra Seca

O Diabo não é vermelho, como nos desenhos. Ele é branco, homem, e, dizem, heterossexual. Empreendedor, se modernizou: aceita cartão de crédito e débito, geladeira, objetos roubados e a roupa do corpo como dízimo. Ironicamente, é sua casa que oferece como ameaça post-mortem, a quem, tendo ouvido sua palavra, ousar não pagar o que lhe é devido

Deus e o Diabo na Terra Seca
Deus e o Diabo na Terra Seca

Em Terra Seca 11% de umidade. 1% de honestidade. 0% de solidariedade 
 
O Diabo de Terra Seca faz chapinha e usa Rolex. Ele veste terno e gravata e dá entrevista da sua mansão. O Coisa-Ruim daqui, assim como o da Bíblia, é o pai da mentira. Vive nas igrejas, é pastor e rouba a narrativa de seu opositor. Ele usa o nome de Deus em vão para extorquir gente inocente e pedir voto.
 
O Diabo não é vermelho, como nos desenhos. Ele é branco, homem, e, dizem, heterossexual. Empreendedor, se modernizou: aceita cartão de crédito e débito, geladeira, objetos roubados e a roupa do corpo como dízimo. Ironicamente, é sua casa que oferece como ameaça post-mortem, a quem, tendo ouvido sua palavra, ousar não pagar o que lhe é devido.
 
O Coisa Ruim é deputado, da bancada da bala, e apoia a tortura. Ele quer liberar arma de fogo para seu exército que, engenhoso, já nomeou: Exército dos Cidadãos de Bem. O Diabo é amigo do vampiro, do pessoal da toga e do pessoal da farda. Ele frequenta as altas rodas da sociedade terrasequense. O Diabo é muito popular e bem quisto por aqui.
 
Deus, ao contrário, mandou seu filho para a periferia. Mas, o Jesus de Terra Seca não teve a sorte de ter um pai carpinteiro. Traficante, José, pai de Jesus, desapareceu no mundo, antes que seu pequeno completasse 3 anos. Maria, a mãe, o criou como pode. Também não foi muito presente, pois, pelas circunstâncias, foi obrigada a ser babá, 7 dias por semana, dormindo no trabalho, sem carteira assinada, dos filhos de um político rico de um bairro nobre – o Diabo.
 
Jesus estudou em uma escola púbica, passou na universidade, com apoio de programas sociais, sobreviveu a tentação no deserto do Planalto Central e nunca se envolveu com tráfico ou com o crime. Ele se formou em direito e voltou para a periferia para advogar de graça em sua comunidade, local onde pessoas como ele, negros, pobres e periféricos, eram subjugados por um Estado injusto, que lhes cerceava a defesa.
 
Jesus nunca ficou popular em Terra Seca. Só tinha 12 amigos que o admiravam e o seguiam. Normalmente, era incompreendido e tratado como vagabundo e defensor de bandido. Jesus preferia não entrar em brigas ou argumentações. Apenas seguia seu caminho.
 
Um dia, quando voltava para casa, à noite, após um dia de trabalho, Jesus foi pego pela polícia. O caso nunca foi totalmente explicado, mas seu corpo foi encontrado com sinais de tortura e execução, algumas horas depois. As investigações não avançaram, pois o povo da periferia já aprendeu que a única lei que não pode ser violada em Terra Seca é a lei do silêncio. Sem informações, a imprensa não foi atrás de saber da morte de mais um preto desconhecido. “Virou estatística”.
 
Alguém fotografou Maria quando ela, já sabendo do ocorrido, foi correndo para a cena do crime, para  ter seu filho pela última vez nos braços, naquela Pietà cabocla, que já virou rotina em Lisarb, país onde Terra Seca é a capital. Nunca se soube a identidade dos soldados responsáveis pela via crucis pós-moderna de Jesus. No entanto não se sabe se eles seriam punidos ou condecorados.
 
O caso, no entanto, chegou ao Congresso, por meio de um deputado periférico, que há pouco havia sido empossado. E o Diabo, que completava 26 anos de mandato, se manifestou sobre o crime: “parabéns aos policiais, na rua àquela hora, bom sujeito não era. Bandido bom é bandido morto e vamos recuperar nossa sociedade em nome de deus”.

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