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Reimont Otoni

Deputado federal (PT-RJ), vice-líder do PT na Câmara dos Deputados e membro da Comissão de Direitos Humanos, Minorias e Igualdade Racial da Casa

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Dia da mulher, um dia para reflexão masculina

Reimont defende políticas públicas, endurecimento das leis e medidas pedagógicas para combate à violência contra a mulher.

Dia da mulher, um dia para reflexão masculina (Foto: Joédson Alves/Agência Brasil)

Neste 8 de março, Dia Internacional da Mulher, convido os homens a uma reflexão.

Um dos momentos mais dolorosos que já vivi, foi o da conversa com a jovem de 17 anos, vítima do mais recente episódio de violência e estupro coletivos. Ela foi atraída para uma emboscada por um colega, um ex-namorado, uma pessoa em quem confiava. Foi em busca de afeto e só encontrou barbárie. 

Estive com ela e sua mãe para tentar ajudá-las e confortá-las. A jovem carrega sentimentos tristes, de vergonha e humilhação, que talvez a acompanhem pelo resto da existência, em um dano irreparável. Quanto mal fizeram a essa menina!

Custa a crer que em pleno século XXI, terceiro milênio, a misoginia permaneça tão barbaramente enraizada em nossa sociedade. Mas essa é a verdade que explode nas redes sociais e contamina milhares de homens de todas as idades, raças e classes sociais, movidos por um ódio aterrorizante. 

O abuso sexual de mulheres não faz distinção. Atinge tanto uma jovem de 17 anos quanto uma freira de 82 anos, como a irmã Nadia Gavanski, morta e estuprada em um convento no Paraná. Atinge mulheres sadias e também as portadoras de síndromes que as tornam ainda mais vulneráveis. Atinge meninas na primeira idade e também idosas, mulheres de burca ou de biquíni.

Não adianta buscar nas vítimas as causas, os gatilhos que levam ao crime, com a eterna e ultrajante pergunta “o que ela fez pra isso?”. É preciso olhar para os algozes.

Historicamente, o estupro e a violência física contra as mulheres têm sido usados como arma de guerra de dominação, de subjugação, seja nos campos batalha ou no recesso do lar. Olha-se a mulher como um apêndice do homem, a quem deve servir docilmente e obedecer. Essa cultura, aliada ao fascismo e ao inconformismo com o empoderamento feminino, tem servido como combustível para insuflar a violência e o abuso, particularmente, no Brasil, onde mais de 83 mil pessoas, a maioria do sexo feminino, foram estupradas em 2025, uma a cada 6 minutos. Na maior parte, a vítima era menor de 14 anos, somando pouco menos de 59 mil crianças e adolescentes. Muitos dos algozes são próximos, entes queridos.

 

Chegamos a um ponto em que 82% das mulheres brasileiras têm medo ou muito medo de sofrer um estupro, segundo pesquisa do Instituto Patrícia Galvão e do Instituto Locomotiva, divulgada pela Agência Brasil. Em dois grupos, a proporção das que sentem "muito medo" é maior, chegando a 87% no caso das jovens, entre 16 e 24 anos, e 88% entre as mulheres negras. Viver sob o medo não é vida!


Crescem o feminicídio, com o assassinato de quatro mulheres, por dia, e cresce a violência doméstica – segundo o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, o estado registrou 71.762 novos casos, de janeiro a novembro de 2025. Mais de 10% das mulheres relatam ter sofrido algum tipo de agressão on-line ou por meios eletrônicos, como mensagens ofensivas recorrentes, criação de perfis falsos ou invasão de contas.

Vergonhosamente, essa masculinidade tóxica faz parte da rotina do atual Congresso Nacional. Dos ataques infantilóides aos gritos e intimidações grosseiras, nada falta no empenho de alguns deputados e senadores da bancada misógina em humilhar e desqualificar as vozes femininas.

Repetem uma prática instalada pelo então deputado Jair Bolsonaro, que, por três vezes, agrediu e atacou a deputada federal Maria do Rosário, chegando a dizer "não estupro você, porque não merece". A frase criminosa, dita pela primeira vez em 2003, propagou uma cultura de violência contra as mulheres que hoje invade as redes sociais e as escolas e contamina e corrompe parte da nossa juventude.

Porque nada foi feito em 2003, chegamos a esse ponto. É preciso interromper essa escalada. 

A proteção efetiva às mulheres em situação de violência se faz com a robustez de políticas públicas. É preciso avançar nelas. Também é urgente ampliar o rigor na punição dos criminosos. Mas é preciso, fundamentalmente, atuar para erradicar a cultura misógina, violenta, levar esse debate para as salas de aula, em todos os níveis, desde a primeira infância, em todas as disciplinas. Mas como fazer isso na Matemática?! Por exemplo, reconhecendo o papel fundamental das mulheres na matéria, desde a grega Hipatia de Alexandria, primeira mulher celebrada como Matemática, chefe da escola platônica e que também lecionou filosofia e astronomia. Nascida entre 351 e 370, Hipatia foi assassinada em uma emboscada em 415, acusada de blasfêmia.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.