Dia das mulheres: as que avançam e as que se arrastam

Num mar de conservadorismo de direita, num caldo cultural viscoso de golpe, é esperançoso ver mulheres jovens lutando por direitos femininos e do povo brasileiro.

As notícias sobre as celebrações do “Dia Internacional das Mulheres” mostram mulheres contraditórias.

 No dia mesmo, 08 de março mulheres marcharam e travaram o trânsito na pela famosa Av. Paulista em São Paulo. 

A pauta de reivindicações e de luta daquelas mulheres, que não sei que são nem qual corrente de pensamento defendem, é justa e interessa a todas. 

Pelas fotos do evento me impressionei com o fato de serem mulheres jovens.

Num mar de conservadorismo de direita, num caldo cultural viscoso de golpe, é esperançoso ver mulheres jovens lutando por direitos femininos e do povo brasileiro. 

Nalu Faria, coordenadora da Marcha Mundial de Mulheres (MMM), falou que alguns temas ainda são pertinentes na luta das mulheres. "Permanece o tema [da descriminalização] do aborto e a questão da violência, não só a doméstica, mas, também, a denúncia das práticas patriarcais que permeiam o cotidiano das mulheres". Nalu indicou os casos graves de violências contra as mulheres como os estupros na Universidade de São Paulo (informações do Site Brasil 247, dia 08 de março de 2015). 

Por outro lado, outra informação aponta para o fato de que as mulheres são 54% da população, portanto indiscutível maioria. Por isso,  não faz sentido de que essa maioria seja submissa aos interesses retrógrados da minoria machista. 

Entre a maioria feminina da população colocam-se as mulheres pobres, desde a colonização dominadas, escravas e serventes do homem branco e machista. As políticas capitalista e, notadamente, neoliberais, empurraram as mulheres para a vala comum da submissão econômica machista e marginalizada. 

O machismo é produto capitalista que homens e mulheres inoculam e adotam como verdade sagrada, achando que é normal as mulheres viverem da economia e das ideias machistas impostas por homens prepotentes. 

Porém, graças a muita luta, com imenso protagonismo das mulheres, programas sociais permitem que o sujeito feminino se afirme e se liberte da manipulação machista. Suas fisionomias e disposições, quando fotografadas e filmadas, mostram vitória da dignidade das mulheres. 

Esse é o testemunho vivo da cearense Angeline Freire de Souza, que  começou a mudar quando ela se tornou beneficiária do Bolsa Família, há dez anos. Ela atribui ao programa a chance de superar uma situação de violência doméstica, a oportunidade de criar os filhos, trabalhar, voltar aos estudos e pensar no futuro.

Para Angeline, ingressar no programa significou avançar da condição de vítima à de guerreira. “Eu não quero ser chamada de coitadinha, a pobrezinha ou me sujeitar a qualquer tipo de violência. Quero ser vista como uma pessoa que conseguiu superar tudo, que é guerreira, que vai atrás, que é determinada”.

“O resgate de Angeline não é fato isolado. Das 22 milhões de pessoas que superaram a pobreza extrema nos últimos quatro anos, 12 milhões são do sexo feminino.

Mães com crianças pequenas representavam a face mais dramática da pobreza no país. As mulheres puderam contar com a complementação de renda do Bolsa Família e, sobretudo, com melhores condições de saúde e educação para seus filhos, além de oportunidades de inclusão produtiva.

Aos 38 anos, Angeline entrou recentemente para a Universidade Federal do Ceará e acredita que, em breve, poderá deixar a condição de beneficiária do programa de transferência de renda, da qual se orgulha.” (Informações do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome). 

Os casos da marcha na Avenida Paulista e o dos programas de transferência de rendas são diferentes e partes da mesma realidade de luta das mulheres.

No primeiro, veem-se mulheres jovens e maduras inteligentes na luta pelos direitos a decidir por suas vidas, sem interferência do machismo produto do escravagismo, do feudalismo e do capitalismo, todos perversos e contrários à emancipação dos oprimidos.

Estas mulheres também denunciaram a injustiça salarial  da qual são vítimas pelo fato de serem mulheres. Embora exercendo as mesmas atividades que os homens recebem menos e se desgastam mais. 

Mulheres jovens procedentes de diferentes atividades profissionais e de níveis acadêmicos diversos não se alienam à espera da “boa vontade” masculina e dos patrões. Lutam e, certamente, se conscientizam lendo textos críticos e se organizando para a luta. 

No segundo caso, o representado pela Angeline, é a alegria das mulheres que se libertam do machismo via miséria, via ignorância, falta de qualificação profissional e intelectual para enfrentar e construir a vida. A luta aí vai da sobrevivência à mais elevada preparação para atuar na construção do País, na perspectiva coletiva e social.

Certamente é nos dois sentidos que vai a mensagem do Papa Francisco em homenagem às mulheres neste dia 08 de março de 2015 quando as saúda: "... a todas as mulheres que a cada dia buscam construir uma sociedade mais humana e acolhedora".

A Avenida Paulista e a vivência de Angeline cultivam o fio condutor que as liga à luta internacional das mulheres ao se mostrarem  maduras de consciência e oferecerem esperanças contra o infantilismo machista de tantas outras.  Muitos exemplos de luta aconteceram pelo mundo, muitos nem noticiados. 

O site Prensa Latina divulgou encontro de oito mil venezuelanas em Caracas, no Congresso de Mulheres Venezuelanas,  que se encerrou no dia 08 para tratar de mais avanços políticos, sociais e econômicos para seu povo sob a revolução bolivariana. 

A praça Diego Ibarra, em Caracas, acolheu “uma sessão pública do segundo encontro do Conselho Presidencial da Mulher, um mecanismo criado por Maduro em 2014 com o objetivo aprofundar o empoderamento do povo venezuelano.”

A Ministra da Mulher e Igualdade de Gênero, Andreína Tarazón,  disse que os debates do Congresso ajudaram a derrubar o modelo patriarcal, exclusão e opressão promovido pelo sistema capitalista. Acentuou que o caminho é a construção do socialismo como único caminho para promover a igualdade e a justiça social.

A ministra afirmou mais, que "é preciso consolidar a unidade das mulheres, pois temos diante um dos grandes desafios da Revolução: construir um novo modelo econômico que transcenda o rentismo petroleiro e a monoprodução".

Os movimentos organizados de lutas promovidos pelas mulheres e pelo povo partem do princípio de que o mal maior, gerador de machismo e crises excludentes das mulheres, é o capitalismo. A solução mais justa e eficaz é sua superação pelo socialismo. 

Porém, é preciso reconhecer sem pruridos, que Infelizmente há muitas mulheres de consciência zero, facilmente presas da traição social, alcaguetes do atraso. Essas são tão imbecilmente infantis e vergonhosamente promotoras de fofocas, desonram a história de vida de seus antepassados, que buscam destruir as vidas e convicções dos outros, sem a devida capacidade e coragem do debate honesto, franco, aberto e respeitoso. Esse seguimento “damificado”, de postura semelhante ao modelo “dona Quitéria”, líder das damas católicas do romance de Jorge Amado, todas bestialmente sugadas pelo conservadorismo, pelo atraso e pela alienação, atravessa-se no caminho da luta das guerreiras atuando como páreas e sugadoras de energia. Quando abrem a boca nada mostram além do vazio de suas consciências.  

Essas em sala de aula, onde se amontoam para fazer de conta que estudam,  são mulheres do tipo que põe uma das mãos na boca em forma de espanto quando se tenta puxar uma reflexão e um debate mais aprofundado e liberto dos clichês conservadores. São machistas quando não têm a capacidade de enfrentar divergências e de divergir com qualidade e se entregam ao “dedodurismo”  próprio dos covardes e pagos para estragar a vida alheia. 

Antes e durante a ditadura militar esse tipo de mulher inconsciente, alienado e lixo da história, é que serviu ao objetivo golpista do imperialismo para fazer a malandra “marcha da família com Deus pela liberdade” e a da “família que reza unida permanece unida”, que superlotou templos evangélicos e católicos orando contra a “invasão” comunista, paranoia própria de quem não desenvolve a inteligência e se nega a pensar. 

Hoje muitas dessas mulheres se ornamentam superficialmente, preocupadas apenas com a aparência e com ganhar dinheiro com profissões vazias de sentido humano e social. São tecnicistas que prestam serviços cegos e emburrecidos à máquina de moer consciências.  Prestam-se a ser mercadoria de consumo de produtos supérfluos. Nas faculdades amontoam-se desonestamente nas salas de aula para apenas consumir migalhas do conhecimento que lhes sirva para manter funcionando a engrenagem fria deste capitalismo brutal. As “instituições” que vendem ensino acrítico e de baixa qualidade se servem de sua afluência alienada e apática para aumentar suas vendas. Como em toda parte, são lá também fofoqueiras fúteis e ajudantes da caça às bruxas. 

A essas pobres mulheres, miseráveis de consciência, restarão duas alternativas: uma é de se converterem graças às pressões de outras lutadoras e guerreiras de suas relações, que as atropelarão no debate e na exigência da responsabilidade ética da reflexão; e outra é a de se acomodarem, envelhecerem sem nada proporem na construção da dignidade. Quando morrerem ganharão esmolas de algumas lágrimas, para serem esquecidas na solidão do vazio de seus túmulos em decomposição. 

Prefiro a marcha das mulheres na Avenida Paulista, a luta das guerreiras do Congresso Venezuelano de Mulheres, todas estudiosas séria da realidade, buscando profundidade, sem tempo para fofocas de comadres  e prefiro a luta das heroínas modelo Ageline. Essas não são rasteiras nem débeis consciencialmente. 

Claro que as mulheres da Avenida Paulista e do Congresso Venezuelano de Mulheres não são assassinas de fetos nem promotoras absolutas do aborto. Nenhuma mulher que se saiba grávida deseja matar seu filho. Sua luta é contra o abandono por parte do Estado servidor do capitalismo contra as mulheres, que são violentadas e duplamente estupradas ao fazerem abortos em “clínicas” fétidas de propriedades de açougueiros imorais. Sua luta também é pela superação da desumanização marginalizante imposta pelo mercado e pelo capitalismo. 

*Dom Orvandil: editor do blog +Cartas e Reflexões Proféticas, idealizador e presidente da Ibrapaz, ativista da Anistia Internacional e professor universitário. 

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