Dia das professoras: somos profissionais!

Não quero pitacos e parabéns, quero luta e respeito!

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(Foto: Nando Motta)


Há mais de 35 anos atrás eu decidi ser professora, eu tinha 10 anos. Entre 11 e 12 anos resolvi que seria professora de matemática. Brincava com as bonecas arrumando-as como uma sala de aula, tinha um quadro, passava deveres. Meu programa predileto passavam na TVE e era uma professora ensinando uma adolescente a ser professora. Eu fiz a minha primeira capacitação pedagógica em um curso organizado pela minha mãe, educadora em saúde, para agente de endemias da Fundação SESP quando tinha 15 anos. Era um curso de base piagetiana, eu fui instruída a apenas assistir e não interferir, mas minha curiosidade era imensa e eu era uma estudante tipo Hermione Granger, eu não aguentava não responder às perguntas das professoras quando sabia a resposta – e mesmo quando só achava que sabia, não fazer novas perguntas, não participar ativamente, fazer tudo que me propunham. Eu estava nesse curso de penetra, colocando minha mãe em saias justas o tempo todo, mas ao final, na avaliação, muitas pessoas falaram impressionadas do meu comprometimento. Foi uma experiência incrível!

Minha mãe argumentava que a vida de professora era muito difícil no Brasil e que eu sendo ótima aluna poderia fazer vestibular e ter uma profissão em que fosse valorizada, respeitada, que ganhasse melhor, que teria uma carga menor de trabalho e que teria vida além do trabalho. Eu podia fazer engenharia, direito, medicina, qualquer coisa, mas eu fiz Licenciatura em Matemática. A relação candidato vaga no meu vestibular foi de 0,9 pra 1. Isso, tinha menos candidatos que vagas. Eu passei em um dos vestibulares em primeiro lugar entre os candidatos ao curso da UFSC. Mas não era nada, qualquer um entrava no curso de Matemática, difícil era formar.

Lembro do dia, aos 14 anos, que cheguei em casa com a solução: “Mãe, eu vou fazer o concurso do Banco do Brasil para pagar as contas e dou aulas no outro turno pra ser o que quero ser, vai dar certo!”. Uma vez de fato eu fiz o concurso, sem estudar, fiquei depois do 500o lugar. Eu trabalhava muito e só fiz esse concurso em um dos momentos que percebi que minha mãe tinha lá suas razões, quando já era professora há muitos anos.

Foi realmente difícil formar. Eu vivi uma relação tóxica com meu pai e sua segunda mulher, atuei no movimento estudantil, organizamos as passeatas do Fora FHC, fiz campanha pra reitora e reitor, fui estuprada, viajei, trabalhava muito, me mudei de estado e de universidade, militava no partido, atuei no movimento sindical, atuei na secretaria de educação, atuei no conselho de educação, fui candidata, casei, tive uma lanchonete, separei, casei de novo...

Levei 8 anos no total (entre passar no primeiro vestibular e iniciar o curso e ter o diploma), mas comecei a atuar como professora no segundo ano do curso com 19 anos e venho sendo professora há mais de 25 anos, tendo atuado em todos os níveis de ensino (da Educação Infantil à Pós graduação latu sensu, incluindo a formação continuada de professoras, em todas as redes (públicas municipal, estadual e federal e privada) e em todas as modalidades (regular presencial e à distância, Educação de Jovens e Adultos, supletivo e dando aulas particulares) e com todos os regimes de trabalho (sem registro, contratada temporária, concursada efetiva, CLT). Longe e perto de casa, passando horas no ônibus ou podendo ir de carro, conseguindo ou não planejar a aula, com ou sem condições de trabalho, usando materiais que comprava com meu salário ou trabalhando em uma escola com estrutura adequada...

Cansou?

Eu também...

Vivi momentos muito diferentes e estou cada vez mais crítica ao que é a educação no Brasil. Não do ponto de vista da dedicação, da sua importância, seu significado social, nem mesmo da minha escolha, mas do que o Brasil realmente pensa e faz em termos educacionais. Tenho escrito sobre isso como educadora, como pesquisadora, como sindicalista e como feminista.

Um dos mais emblemáticos textos que escrevi se chama “A Educação é a Geni" e que segue completamente atual, na linha da famosa frase de Darcy Ribeiro que afirma de maneira tão sábia que “a crise da educação no Brasil não é crise, é projeto”..

Contei toda a minha experiência pessoal para pedir às pessoas: parem de naturalizar a precariedade da vida, da precarização do trabalho e das condições de trabalho das professoras, parem de mentir que valorizam essa função, parem de dizer que são ou foram professores só porque você deu uma aula particular como bico pra complementar renda ou porque deu um curso curto. Ser professora é dedicar a vida, é ter formação específica e técnica, é estar submetido a anos de trabalho sem condições e respeito, ser professora não é um bico, não é simplesmente dar aula, pare de achar que você entende de educação porque você foi estudante, pare de tentar ensinar professoras a serem professoras, nem nós sabemos disso como deveríamos em um dos países que tem algumas das piores formações pedagógicas do mundo (apesar de ter alguns dos melhores pensadores educacionais do mundo).

Não falo isso como nenhum tipo de tentativa de reserva de mercado, mas propondo uma reflexão como deve ser uma sociedade que realmente enxerga a profissão de professora e a educação como algo sério, importante, fundamental e que só poderá ser assim quando os principais profissionais desse ofício forem visto como tal, como profissionais.

Nos dias das professoras me sinto como no dia das mães, me sinto assistindo um espetáculo terrível de desvalorização travestida de elogios, de desrespeito travestido de comprometimento e de naturalização do sofrimento travestido de enaltecimento.

Sabe o estranhamento que todos que temos o mínimo de respeito pela ciência tivemos quando gente que não entende nada de medicina ou de pesquisa científica se arvorou o direito de dizer que o remédio deveria ser esse ou aquele, ou que a pesquisa que tem valor é essa ou aquela? Bem vindo ao meu mundo, como professoras vivemos nesse lugar por toda nossa vida.

Alguém que fez um curativo no filho pode dizer que já foi enfermeira? Alguém que fez uma massagem na esposa é um massagista? Alguém que uma vez recolheu o lixo da praia é um gari? Alguém que uma vez deu uma mão servindo salgadinhos na festa do primo é um garçom? Alguém que desenhou um quiosque no seu terreno é um arquiteto?

Os cuidados de saúde, a coleta de lixo, os restaurantes ou os projetos de urbanização funcionam com quais pessoas? E funcionam bem quando essas pessoas trabalham como? Em que condições?

Exaltar o improviso, a superação da formação precária por meio do esforço individual, a dedicação apesar da falta de valorização social concreta, a falta de remuneração adequada, as dificuldades em termos acesso ou a podermos disponibilizar livros e demais materiais para trabalhar, a falta de condições das edificações onde funcionam as escolas (que na pandemia descobriu-se que não tem sequer banheiro limpos ou salas minimamente adequadas, com ventilação e mobiliário), a falta de material (internet e computadores, bibliotecas, laboratórios de ciências, refeitórios, papel, fotocopiadora, giz, cartolina, tesoura, bola, quadras esportivas, escritórios de trabalho para professoras) e, talvez a principal de todas, a falta de tempo, que é resultado da falta de dinheiro e da falta de pessoal.

Iniciei um doutorado que fui impedida de concluir, nele buscava compreender o quanto a falta de condições de conforto térmico nas salas de aula influenciava a aprendizagem dos estudantes. Tinha a intenção de que meu trabalho fosse mais um elemento a dizer que não podemos fazer milagres, que não podemos dar aulas adequadas e promover aprendizados necessários embaixo da árvore ou dentro de um contêiner quente como o inferno.

Para que nós professoras possamos fazer nosso trabalho, não podemos fazer bem feito se não podemos parar pra pensar, planejar, respirar, descansar, estudar, debater, conversar, conhecer a situação das comunidades em que atuamos, sem um local adequado para fazer essa parte importantíssima do nosso TRABALHO e sem suporte e apoio. Sem o pessoal das atividades meio da educação: estudantes que tenham alimentação escolar adequada, suporte psicológico e pedagógico, profissionais como bibliotecárias e laboratoristas, pessoal administrativo, pessoal de assistência social, entre outras. Porque todas essas pessoas nos dão tempo pra fazer melhor o que nos compete nesse meio.

Edificações adequadas, condições de trabalho, ter poucas aulas a dar com um número adequado de estudantes por turma, remuneração adequada, respeito pela nossa formação técnica e pela nossa experiência, formações iniciais e continuadas melhores, com maiores níveis de exigência e melhores conteúdos e tempos maiores de prática supervisionada, tudo isso é essencial para garantir a educação pública, gratuita, de qualidade, laica e socialmente referenciada é imprescindível! É preciso Profissionalizar a profissão de Professora e professor!

Outro elemento fundamental é que a sociedade precisa dar claramente aos profissionais da educação o que essa sociedade quer da educação e isso significa construir diretrizes debatidas socialmente, mas mantê-las constantes e consistentes por longos períodos. Toda vez que leio, seja de que espectro ideológico e de que referência de classe for, que o político x ou o jornalista y disseram que a educação deveria ser assim ou assado, incluir yoga e excluir tabuada, incluir empreendedorismo e excluir gramática, ser menos teórica e mais contextualizada, abordar mais a constituição e menos a história do Egito Antigo, servir mais à vida e menos à filosofia, ou vice-versa de qualquer uma dessas afirmações penso em pessoas dizendo à um médico que ele deve dobrar a dose de um determinado remédio ou trocar o gesso por uma faixa, alguém dizendo a um microbiologista se ele deve fazer a cultura de bactéria com essa ou aquela substância, dizendo ao engenheiro de tráfego que a rodovia deve ou não ter um semáforo...

Não tenho problemas que debatamos o projeto educacional geral, mas reafirmo que o currículo não é uma colcha de retalhos de onde se tira ou se coloca elementos de qualquer lugar. Podemos ter uma saúde mais pública ou mais privada, mas voltada para curar doenças ou pra promover a saúde integral e isso é tema de debate social, podemos ter uma mobilidade que priorize os veículos individuais motorizados ou que priorize mais uma mobilidade coletiva e não poluidora e isso também é tema de debate social. Mas a implantação disso é feita com conhecimento técnico e pessoas que se dedicam a isso de maneira específica e aprofundada, não na base do pitaco ou do achismo. E também não pode mudar todo dia, porque ao final nenhum projeto terá sido levado a cabo e a crise vira o projeto. Lei de Diretrizes e Bases e Projetos decenais são os momentos em que toda a sociedade pode e deve se envolver no debate educacional, construção do Projeto Político Pedagógico por meio do Conselho de Escola de cada unidade também. Mas seu pitaco e sua opinião sem fundamento, conhecimento científico e debate você pode guardar pra você.

Profissionais da educação não conseguem trabalhar se todo dia alguém vem lhe dizer o que e como fazer, sem, como diz a expressão popular, saber da missa a metade. Você foi estudante, isso está longe de significar que você entende o que é ser professora, seria como achar que porque você foi paciente você sabe como é ser médica ou enfermeira. Que por morar em um apartamento você sabe o que é ser engenheira, ou porque come em restaurante ou cozinha pros seus filhos sabe o que é ser cozinheira profissional. Desculpa, você não sabe e pouco tem elementos pra imaginar.

Uma vez sendo entrevistada por uma estudante de Pedagogia para seu TCC eu disse que a gente devia vender ao invés de dar aula, porque em uma sociedade capitalista o que tem valor é o que tem preço e como a gente “dá aula”, ela não vale nada, pode ser feita por qualquer um, em qualquer condição, com qualquer formação, é mais um trabalho não pago ou mal pago.

Você quer dar parabéns às professoras? Você realmente valoriza nosso trabalho? Então pare de dar pitacos, pare de nos tratar como heroínas ou sacerdotisas, como capazes e obrigadas a ter criatividade na superação da falta de condições ou de nos parabenizar por fazer isso, para de exaltar nossa superação (que é somente sobrecarga), pare de dizer que boa professora é aquela que trabalha por amor e passe a nos ver como profissionais.

Apoie as lutas por melhoria da formação e condições de trabalho, por concurso público de efetivação e por respeito à estabilidade, à liberdade de cátedra e à autonomia pedagógica, por piso nacional e carreiras decentes, por ambientes de trabalho adequados, por salas de aula e prédios de escolas com equipamentos e condições adequadas, por número adequado de estudantes por sala e por cargas horárias que nos permitam ter tempo, por projetos educacionais perenes e que nada seja feito sobre educação sem a ativa participação das e dos profissionais da educação. Apoie nossas greves!

Valorize nosso trabalho explicando pros seus filhos que nem sempre você sabe o porque aquele conhecimento é necessário, mas a professora e os formuladores o colocaram ali e ela ou ele deve tentar ao máximo aprender pra saber e não pra passar, que escola não é depósito nem lugar de fazer amigos, ainda que fazer amigos seja ótimo e inclusive ajuda ao aprendizado, que é importante ir à escola e que não se deve faltar às aulas sem motivo, porque a escola é lugar de desenvolver e ser, que o compromisso com o saber é um compromisso com o presente e com um futuro com menos ou nenhuma exploração, dominação e opressão. Participe dos Conselhos de Escola dos seus filhos! Matricule seus filhos em escolas públicas e cobre orçamento, investimento, respeito na escola para todes!

Eu sou professora! Sou uma profissional da atividade fim da educação que é o aprendizado, a humanização e a capacidade de agir e intervir criticamente na sociedade.

Antes de dar parabéns, o Brasil precisa nos dar reconhecimento e condições de trabalho! Lute comigo! Lute por você com todas as professoras!

Obs: em geral o texto se refere a "professoras" no feminino porque em uma categoria composta por mais de 80% de mulheres o justo é incluir os professores homens no feminino e não o contrário. Além disso, é interessante que os homens possam sentir como é estar supostamente incluído no gênero alheio e refletir sobre como é viver nesta situação em toda a vida.

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