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Lelê Teles

Jornalista, publicitário e roteirista

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Dia do jornalista. Não do jornalismo

Os Marinho criaram as Mari(nh)onetes, simulando uma polissemia. Por ouvir várias vozes em variados meios, a população acredita estar a ouvir vozes diversas por ouvir diversas vozes, mas são sempre as mesmas caras, sempre os mesmos caras

Os Marinho criaram as Mari(nh)onetes, simulando uma polissemia. Por ouvir várias vozes em variados meios, a população acredita estar a ouvir vozes diversas por ouvir diversas vozes, mas são sempre as mesmas caras, sempre os mesmos caras (Foto: Lelê Teles)
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O jornalista e o jornalismo estão sempre a ser catalogados na mesma categoria, o que é um erro.

O jornalista, você bem o sabe, esse operário da comunicação, é uma espécie de testemunha ocular da história. É o cabra que transforma fatos em notícia.

Ponto.
Mas é fato também que ele está inserido dentro de uma categoria descrita como jornalismo. E aí é que começa a surgir a confusão.

Ponto e vírgula.

E esse sufixo, –ismo, é que dá o nó no rabo do porco.

Englobados, todos, nessa categoria Jornalismo, parece que todos os jornalistas pertencem a uma mesma religião ou seita; ou a uma modalidade esportiva; ou que estão todos acometidos pela mesma enfermidade ou, ainda, que fazem parte do mesmo sistema filosófico ou da mesma doutrina política ou ideológica.

E aqui é que a confusão começa a se dissipar.

Dois pontos.

Essa capa d'O Globo aí de cima evidencia a diferença que há entre o jornalismo e os jornalistas.

O cabra que colocou essa foto da presidenta na capa d'O Globo foi um jornalista. O que enxergou a palavra "força" e percebeu que ela tinha força simbólica, que foi além do fato e buscou ali arranjos semiológicos e gestálticos, é o representante legítimo do jornalismo; que pode até ser um jornalista, mas não necessariamente.

Esse senhor que mandou dar uma ré no avião para a palavra "força" desaparecer servia não ao público ou ao interesse público, ele obedecia caninamente às diretrizes ideológicas de seu patrão.
O jornalismo é, portanto, uma ideologia.

É a doutrina econômica, política, ideológica e cultural dos donos dos jornais.

É o jornalismo, e não o jornalista, quem se auto intitula o Quarto Poder. Porque o lance do jornalismo é esse, Poder.

A midiocracia é uma aspiração do jornalismo. Por isso que hoje, no Brasil, vemos essa tentativa descarada de subjugar e submeter os outros três poderes.

Walter Lippmann - e eu só fui conhecer esse senhor no mestrado em comunicação - lançou em 1922 o seminal Opinião Pública e ali ele já mostrava as artimanhas da manipulação cognitiva.

A opinião publicada, a opinião dos donos dos jornais portanto, se convertia num passe de mágica na mítica opinião pública.

McCombs, nos anos 60, lacra esse pensamento demonstrando o poder de agendamento político, cultural, social e econômico que estava nas mãos dos poderosos donos do Quarto Poder.

Com a chegada da blogosferta, no Brasil, estamos a assistir o início de uma ruptura, onde jornalistas passam a criticar seus ex-patrões e seus métodos manipuladores.

Jornalistas passaram a critica o jornalismo.

Nem, todos é claro.

Convertidos em bonecos de ventríloquo, alguns jornalistas se converteram em animais domésticos.

Gratos por receber casa e comida, eles aceitam resignadamente que lhe ponham uma coleira e que, de vez em quando, lhes deem umas pancadas.

Atiram-lhes um osso e eles correm, abanado o rabinho.

Os Marinho criaram as Mari(nh)onetes, simulando uma polissemia. Por ouvir várias vozes em variados meios, a população acredita estar a ouvir vozes diversas por ouvir diversas vozes, mas são sempre as mesmas caras, sempre os mesmos caras.

Assim, ubíquos, os donos do Quarto Poder manipulam corações e mentes.

Mas as coisas têm mudado.

Na Web, livres dos grilhões empregatícios, jornalistas aproveitam a linguagem dialógica da blogosfera e desmascaram os colegas ventriloquados; o jornalismo cada vez pode menos.

Portanto, só os jornalistas podem nos livrar do Jornalismo.

Palavra da salvação.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.