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Dedé Ladeira

Dedé Ladeira é cofundadora da Inaperê, uma consultoria focada em DE&I, e também professora

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Dia Internacional da Mulher: mas de qual mulher estamos falando?

Mulheres negras enfrentam sobrecarga, isolamento e, não raramente, racismo institucional

Dezenas de mulheres, coletivos e sindicatos de classe participam da marcha do Dia Internacional da Mulher - Rio de Janeiro (RJ) - 10/03/2025 (Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil)

Entra ano, sai ano, quando nos aproximamos de 8 de março, todas as atenções recaem sobre o Dia Internacional da Mulher. A data remete a uma manifestação histórica de trabalhadoras de Nova Iorque no século 19 - um episódio que, lamentavelmente, termina de forma trágica. Essas conversas permanecem atuais e imprescindíveis. Mas é preciso acrescentar uma camada essencial à reflexão: de qual mulher estamos falando especificamente?

No Brasil, não existe uma experiência feminina única. As desigualdades não atravessam todas da mesma forma. Quando falamos de mulheres negras, estamos falando de um grupo que carrega, simultaneamente, dois marcadores sociais historicamente minorizados: gênero e raça. E é justamente nessa intersecção que as vulnerabilidades se intensificam.

Em 2025, um levantamento do Ministério da Igualdade Racial (MIR), em parceria com a Vital Strategies e a Umane, revelou que 72% das mulheres pretas relatam múltiplas razões para episódios de discriminação no cotidiano. O percentual é superior ao observado entre homens pretos (62,1%). A pesquisa, que utilizou pela primeira vez no país a Escala de Discriminação Cotidiana para mapear a frequência dessas ocorrências, escancara algo que muitas mulheres negras já sabem na prática: a desigualdade não é episódica, ela é estrutural.

Os dados mostram ainda que a raça é o principal fator de discriminação no Brasil. Entre as pessoas que se identificam como pretas, 84% afirmam já ter sofrido discriminação racial. Quando cruzamos essa realidade com a dimensão de gênero, o cenário se agrava.

Outro estudo, do Instituto Locomotiva, aponta que mulheres negras com ensino superior recebem, em média, 55% menos do que homens brancos com o mesmo grau de escolaridade. Enquanto uma mulher negra tem rendimento médio de R$ 3.571, um homem branco recebe cerca de R$ 7,9 mil. O que isso nos diz? Que a formação acadêmica, isoladamente, não rompe barreiras estruturais. A meritocracia, tão frequentemente evocada, não opera em terreno plano.

Os dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) reforçam esse quadro de vulnerabilidade. Em 2022, 21,2% das mulheres negras ocupadas entre 16 e 59 anos não tinham condições de contribuir para a Previdência. Entre homens brancos, o índice era de 6,8%. Estamos falando de insegurança no presente e também no futuro.

Diante desses números, falar em Dia Internacional da Mulher de maneira homogênea é, no mínimo, insuficiente. O conceito de interseccionalidade nos ajuda a compreender como diferentes formas de opressão se articulam e produzem desigualdades específicas. Não se trata de hierarquizar dores, mas de reconhecer que elas não são distribuídas igualmente.

No campo educacional, essa discussão se torna ainda mais urgente. As mulheres são maioria na docência da educação básica brasileira. No entanto, presença numérica não significa poder decisório. Quem ocupa os cargos de liderança? Quem define as políticas pedagógicas? Quem tem voz nos conselhos e diretorias?

Pesquisas sobre o perfil das maiores empresas brasileiras mostram que a equidade de gênero e raça nos postos de comando ainda está distante da realidade nacional. O mesmo padrão se reproduz, muitas vezes, nas redes de ensino. A pergunta que precisamos fazer é simples e desconfortável: o poder está nas mãos de quem?

Como educadora e cofundadora da Inaperê, tenho defendido que a construção de uma cultura escolar antirracista não é um gesto simbólico, mas um compromisso estruturante. Isso passa por protocolos de acolhimento, revisão de práticas de recrutamento, formação continuada em letramento racial e criação de espaços seguros de escuta - especialmente para mulheres negras que enfrentam sobrecarga, isolamento e, não raramente, racismo institucional.

Também passa pela saúde mental. Não é possível falar de equidade ignorando o impacto psicológico de viver sob múltiplas pressões. A sobrecarga emocional é uma dimensão invisibilizada da desigualdade.

No 8 de março, flores e homenagens não são suficientes. É preciso reconhecer que algumas mulheres enfrentam múltiplas barreiras para existir, trabalhar, liderar e sonhar. Ignorar essa dimensão é perpetuar desigualdades sob o discurso confortável da universalização.

Quando perguntamos “de que mulher estamos falando?”, não estamos fragmentando a luta. Estamos tornando-a mais honesta, mais precisa e, portanto, mais transformadora.

Porque só haverá equidade real quando todas as mulheres forem consideradas, especialmente aquelas que historicamente ficaram à margem da narrativa principal.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.