Diagnóstico de uma burra má-fé

Com o corte dessa semana, o número de bolsas suspensas atinge quase 12 mil estudantes. Bolsas de mestrado, doutorado, professores e pesquisadores fodidos de norte a sul. Saber se há mais burrice ou má-fé nesse tipo de medida é um desafio científico para os psicólogos sociais

Bolsonaro e as manifestações contra os cortes
Bolsonaro e as manifestações contra os cortes (Foto: Reuters | CUT)

Quando notícia ruim sai no Fantástico é sempre um diagnóstico. Os jornais dividem as notícias em dois grupos: diagnósticos ou receitas de felicidade. Os diagnósticos nos fazem perder a fé na humanidade. As receitas de felicidade tentam apaziguar nossos infernos. 

A reportagem sobre os cortes da educação no último Fantástico mostrava uma menina pobre, do fundão do nordeste, que está na iminência de perder uma bolsa de R$ 100 que ganhou porque se destacou nas olimpíadas de matemática. 

Eu não sei se o que eles chamam de contingenciamento, na economia, pode ser comparado ao conceito filosófico de contingência. Na filosofia, contingência, segundo Rorty, é aquilo que poderia ser de outro jeito. Algo como: podemos aplicar esta verba não aqui mas ali. Se o contingenciamento econômico é parecido com esse da filosofia, chamar de contingenciamento o que estão fazendo com a verba da educação é apenas eufemismo. E se não for, aguardo explicação dos economistas, mas só dos sérios que usam gravata.

Com o corte dessa semana, o número de bolsas suspensas atinge quase 12 mil estudantes. Bolsas de mestrado, doutorado, professores e pesquisadores fodidos de norte a sul.  

Saber se há mais burrice ou má-fé nesse tipo de medida é um desafio científico para os psicólogos sociais. Há duas burrices patentes: o desperdício do presente e o atraso do futuro, aquele longo passado pela frente de que falava Millôr Fernandes. 

Cortar pesquisas em andamento é como desistir da faculdade no final do 8o semestre. Se a desatenção foi tanta e você chegou até ali, melhor pegar o canudo e tentar fazer com que ele seja um diferencial na selva da competição por trabalho e oportunidade. O desperdício do presente é fazer com que pesquisas que acontecem há anos escorram pelo ralo. 

E o futuro atrasa em acontecer porque, como até o google sabe, qualidade de vida e desenvolvimento estão diretamente relacionados com a educação. Preterir a educação é não apenas amputar as pernas intelectuais do país, como disse o neurocientista Miguel Nicolelis, mas impedir que esse cotoco intelectual disponha de uma cadeira de rodas decente pra andar.

Para quem nunca estudou seriamente, talvez seja difícil perceber o resultado transformador que a educação é capaz de produzir subjetivamente nas pessoas. Não se trata de negar o valor da experiência, já que todo ignorante justifica sua preguiça ou falta de oportunidade colocando o diploma da universidade da vida acima de todos os outros. Em suma, para quem nunca estudou de verdade, é normal, ainda que ingênuo, pensar que pesquisas não servem pra nada. 

Não importa se o pesquisador está querendo descobrir a cura da chicungunha, testar novos modos de reuso da água ou verificar indicadores sociais capazes de amenizar a violência urbana. Em todos os quase 12 mil casos, estudar e pesquisar só revela uma coisa: que trata-se de um vagabundo-comunista que, como tal, deve mesmo é ir para o inferno, afinal, esse governo, além de mitológico, é de Deus.

A lição n. 1 de todo governo burro e autoritário é foder a educação. Ainda que tenhamos precedentes históricos aos baldes, nosso passado continua. Estimo que:

· Apenas 1/3 da população brasileira perceba isso com clareza.

· Que o outro 1/3 fique numa zona de penumbra. Apesar de ovacionar a educação no plano teórico, são consumidos pela dúvida neurótica para saber se, na prática, não é melhor ferrar a educação em nome do fim da corrupção.

· Que o último 1/3 da população está morta mas ninguém ainda os avisou. Por isso ficam zumbizando ecos pela rede nas suas bolhas de ignorância. 

QUE FAZER DAQUILO QUE ESTÃO FAZENDO COM A EDUCAÇÃO?

No último Caos Filosófico, evento educacional independente que acontece em Bal. Camboriú/SC, arrecadamos livros para os detentos do presídio de Florianópolis. Um dos livros doados acabou esquecido numa mesa do bar e achei que, de algum jeito cósmico, ele deveria ir pra minha casa, já que a caravana para o presídio já tinha partido. 

Era um livro com as melhores frases de Rubem Alves. Logo depois de ver a reportagem do Fantástico, abri o tal livro e fui assaltado pela frase: “A maior pobreza da educação não se encontra na escassez dos recursos econômicos, mas na pobreza da imaginação.”

Na ditadura, que foi aquela merda que a gente sabe, se produziram as melhores músicas do cancioneiro popular brasileiro. Talvez o baixo grau de liberdade e o elevado grau de medo tenham sido capazes de tornar mais criativos os artistas da época. Imagino a criatividade nas ditaduras se rebelando, esperneando e criando aquilo tudo. Finas lindezas imortais que a gente escuta até hoje. Fazendo até as metáforas gaguejarem com coisas como “ela pega e me pisca, petisca, belisca, me arrisca e me enrosca.” A ditadura produziu artes imortais em meio a filhadaputice dos militares. Fico pensando que quando Chico, Caetano e Gil morrerem, vamos precisar de uma nova ditadura para voltar a ter música boa no Brasil. O neosertanejo ai está para comprovar minha tese, com suas poesias que rimam “boca” com “louca” e dancinhas que viram moda em um dia e desviram em três meses. 

Agora estamos em outra espécie de ditadura. Mais refinada, mais psicológica, mais econômica. Se antes o corpo torturado adoecia a alma, nas ditaduras de agora é a alma que adoece primeiro e leva, depois, o corpo. Ou para o divã ou para a vala, dependendo da conta corrente do vivente.

Na medida em que se apropria do discurso ou de parte dele por meio das bolhas sociais das redes, as novas ditaduras não precisam mais captar corpos, já que cooptam as mentes. É por meio da propaganda embutida no discurso que se fabricam os famosos pobres de direita. O pobre de direita é um protótipo desse tipo de zumbi que foi seduzido pelo canto da sereia contra a corrupção, ainda que para isso seja necessário fazer do país um reduto de cientistas analfabetos. 

Lilia Schwarcz chama de “democradura” esse estado em que governos democraticamente eleitos se tornam autoritários, sectários e produtores de sofrimento. 

O autoritarismo se materializa quando esses governos controlam o destino e as prioridades do Estado. A ditadura da falta de dinheiro para aquilo que é desimportante sob o ponto de vista privado de quem governa, faz com que 210 milhões de pessoas estejam à mercê do julgamento de uma só. O alento é que os percentuais de arrependidos aumentam. O Brasil nunca precisou tanto de arrependimento quanto hoje. Arrependimento e, claro, imaginação.

Concluo que essa frase do Rubem Alves é tremendamente infeliz. Será que ele chegou a imaginar o que uma imaginação rica é capaz de fazer com dinheiro no bolso?

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