Dias da infâmia
Traição e corrupção da família Bolsonaro
O presidente Franklin Roosevelt chamou o 7 de dezembro de 1941, quando os japoneses atacaram de surpresa a ilha norte-americana de Pearl Harbor, no Pacífico, de "dia da infâmia". Dias de infâmia são também os dias em que dois filhos de Jair Bolsonaro, Flávio e Eduardo, têm passado nos Estados Unidos desfrutando de uma vida nababesca para de lá traírem o Brasil com maior liberdade, à sombra de Donald Trump. Eles estão brincando com fogo. Não sabem até onde pode levar sua traição.
O chamamento pelos dois Bolsonaros ao governo Trump para uma intervenção no Brasil, mediante a inclusão do Comando Vermelho e do PCC na lista de organizações terroristas internacionais, pode ter consequências muito mais graves do que imaginam esses dois moleques oriundos de uma família de criminosos. Eles, na prática, estão matando no nascedouro uma tentativa de reorganização, na base da multipolaridade, da ordem unipolar sob controle norte-americano, destruída pelo próprio Trump.
A multipolaridade, um princípio concebido originalmente no contexto do BRICS, e ancorado nas duas forças nucleares mais importantes do bloco, China e Rússia, é fortemente defendida por Xi, com apoio do líder russo Vladimir Putin, e destacada por ambos como eixo da nova ordem mundial a ser consolidada no planeta depois da desordem provocada por Trump. Isso foi dito ao americano com todas as letras, no seu encontro com Xi no início de junho, em Pequim, quando o líder chinês disse publicamente que passou a era da dominação de alguns países sobre os outros.
Portanto, se a classificação do Comando Vermelho e do PCC configurar, como querem os Bolsonaros, uma forma de intervenção política ou militar no Brasil, o princípio da multipolaridade estará sendo violado. Nossa reação tem que ser preventiva. Ou se promove uma reunião de emergência do BRICS para uma avaliação conjunta da situação geopolítica, a fim de uniformizar uma resposta comum à provocação norte-americana, ou os dirigentes dos países que integram o bloco BRICS devem buscar reuniões bilaterais em Pequim para esse mesmo fim.
Há múltiplos exemplos históricos de catástrofes políticas que não foram evitadas por falta de uma ação preventiva no terreno político ou social. O principal deles é o da Segunda Guerra Mundial. Hitler, por exemplo, poderia ter sido paralisado antes de se tornar chanceler. Portanto, é fundamental que não se caracterize em nível mundial a desmoralização do princípio da multipolaridade, que será a desmoralização também de Xi Jinping, Putin e de todo o BRICS — incluindo a Índia, também potência nuclear, porém em menor escala.
Até o momento em que estou escrevendo (dia 29, 9h), Donald Trump não se pronunciou sobre a decisão de declarar o Comando Vermelho e o PCC como organizações terroristas. Quem fez a declaração em nome do governo foi Marco Rubio, o secretário de Estado. Como não teme entrar em contradições ou simplesmente desmentir subordinados, que trata como capachos, talvez esteja esperando uma reação da China ou da Rússia para se manifestar. A partir daí, ou voltamos ao mundo unipolar dos americanos, ou avançamos para o mundo multipolar protegido por China e Rússia.
Trump é louco, mas mesmo os loucos não rasgam dinheiro. Acredito que num dos raros momentos de reflexão que tiver avaliará se vale a pena entrar em conflito com seus dois adversários estratégicos para agradar uma família de bandidos, ou o próprio Rubio decida voltar atrás nas declarações que fez dando alguma desculpa esfarrapada. Não é difícil para o secretário de Estado rever sua decisão, já que a Casa Branca virou uma colcha de retalhos com várias áreas em conflito entre si e um coordenador desequilibrado, o próprio Trump, alheio ao conselho de seus auxiliares imediatos, como aconteceu na decisão sobre a guerra no Irã, a que se opôs preventivamente o chefe do Alto Comando das Forças Armadas.
Desmoralizar Rubio — e, caso este não se desculpe, desmoralizar Xi e Putin, eis a questão. O compromisso com a multipolaridade não é uma mera formalidade entre chefes de Estado, principalmente depois de ter sido sacramentado em maio na carta conjunta de 43 páginas de Xi e Putin a Donald Trump. O Brasil está mergulhado até o pescoço nesse processo, especialmente como um dos fundadores do BRICS, onde a questão da multipolaridade tornou-se basilar e compromisso da diplomacia brasileira para a reconstrução de uma ordem internacional que Trump estraçalhou.
É claro que, em seu nível de imbecilidade, Eduardo e Flávio Bolsonaro não têm condições intelectuais de entender essas questões geopolíticas. Caso tivessem, isso seria indiferente porque sua preocupação principal é transferir dinheiro público para seus bolsos, mediante expedientes variados desde rachadinhas no Congresso até as grandes tacadas com o auxílio do bilionário Daniel Bocário, em sociedade com outros criminosos da mesma quadrilha, o ex-governador do Rio, Cláudio Castro, e o ex-presidente da Assembleia Legislativa, Rodrigo Bacelar.
Uma crise entre grandes países desencadeada pelos irmãos irresponsáveis colocaria o mundo numa convulsão sem precedentes que poderia desembocar inclusive numa guerra nuclear. Na Europa, a OTAN já está batendo os tambores de guerra com ameaças cada vez mais incisivas da Alemanha para forçar os países membros da entidade a aumentar seus orçamentos militares a fim de enfrentar uma suposta ameaça russa, que pode materializar-se numa reação antecipada às próprias provocações do Ocidente contra Moscou.
Analistas internacionais falam que a OTAN já se prepara para cruzar de novo a linha vermelha traçada por Putin para sinalizar até onde Moscou suportaria decisões ocidentais que indicassem uma probabilidade de conflito armado. Como aconteceu na Ucrânia, a reação russa deu a Kiev uma demonstração clara de sua disposição para a guerra se isso acontecesse. E caso a aliança militar ocidental insista no avanço para o leste, atravessando de novo a linha vermelha e buscando instalar posições de combate real ou de guerra híbrida em suas fronteiras, Moscou reagiria mais uma vez militarmente à ameaça de violação de sua soberania e de sua segurança territorial, podendo, inclusive, na hipótese de uma derrota, recorrer a seu arsenal nuclear.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.




