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Washington Araújo

Mestre em Cinema, psicanalista, jornalista e conferencista, é autor de 19 livros publicados em diversos países. Professor de Comunicação, Sociologia, Geopolítica e Ética, tem mais de duas décadas de experiência na Secretaria-Geral da Mesa do Senado Federal. Especialista em IA, redes sociais e cultura global, atua na reflexão crítica sobre políticas públicas e direitos humanos. Produz o Podcast 1844 no Spotify e edita o site palavrafilmada.com.

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Diógenes e o alto custo das convenções

Exilado por adulterar moedas, o filósofo transformou o escândalo em método e, em 2026, continua a revelar quanto a obediência não pensada cobra da liberdade

Diógenes e o alto custo das convenções (Foto: Reprodução)

No 2º dia de 2026, quando o segundo quarto do século XXI se impõe com sua aceleração permanente, métricas de desempenho e promessas de sucesso embaladas como necessidade, Diógenes de Sínope retorna como um incômodo útil. Não como personagem pitoresco da Antiguidade, mas como um teste ético. Diógenes nos obriga a perguntar, logo na largada do ano: quanto daquilo que chamamos de valor é escolha consciente — e quanto é apenas obediência bem-vestida?

Trazer Diógenes para o presente não é exercício arqueológico. É leitura do agora. Em 2026, cercados por discursos de eficiência, consumo e visibilidade, sua vida funciona como uma lâmina: corta excessos, separa necessidade de hábito e expõe a fragilidade de muitas certezas que tratamos como naturais. Ele não oferece conforto; oferece fricção. E talvez seja disso que mais precisamos neste início de ano.

Diógenes nasceu por volta de 412 a.C., em Sínope, colônia grega na Ásia Menor. Era filho de Isésio, um banqueiro responsável por operações monetárias e pela verificação da autenticidade das moedas em circulação. As fontes antigas relatam que pai e filho se envolveram num caso de adulteração monetária. Isésio foi preso. Diógenes, banido da cidade.

Esse exílio marca a ruptura decisiva. Privado de posição social e de proteção cívica, Diógenes inicia uma trajetória que não tenta recuperar prestígio, mas questionar a própria lógica que o define. Ele segue para Atenas e, depois, para Delfos, onde consulta o Oráculo. Sua pergunta é direta e pragmática: como recuperar a reputação diante da cidade?

A resposta vem em forma de sentença curta e ambígua, como convém a um oráculo: “desfigura a moeda”. A expressão grega — paracharattein to nomisma — carrega um duplo sentido. Nomisma é moeda, mas também é aquilo que vale por convenção: normas, costumes, valores aceitos sem discussão. A frase pode ser lida como confirmação do crime, mas também como deslocamento radical do problema.

Se o episódio ocorreu exatamente assim, é tema de debate entre historiadores. O que importa, do ponto de vista filosófico e jornalístico, é o uso que Diógenes faz dessa ambiguidade. Ele não passa a falsificar metais. Passa a pôr à prova aquilo que a sociedade trata como valioso. A partir dali, sua vida se torna uma investigação pública sobre o peso real das convenções.

É nesse caminho que Diógenes se aproxima do cinismo, corrente fundada por Antístenes. O cinismo não era um discurso elegante, mas uma ética prática. Seu ponto de partida era simples e perturbador: grande parte do que fazemos não nasce da necessidade, mas da repetição. Vestimos, acumulamos, casamos, competimos porque aprendemos que é assim que se vive.

Diógenes leva essa crítica ao limite. Reduz seus bens ao mínimo, vive em espaços públicos e transforma o cotidiano em argumento filosófico. A autossuficiência torna-se seu eixo moral. Quanto menos alguém precisa, menos se submete. E dessa redução nasce sua ideia de liberdade: não a liberdade abstrata, mas a capacidade concreta de não obedecer ao que não faz sentido.

Essa postura explica sua rejeição a vínculos que, para ele, multiplicavam dependências. O matrimônio, visto como ápice da vida social, era tratado com desconfiança. Não por desprezo às relações humanas, mas por entender que muitas delas eram organizadas por expectativas externas, não por reflexão real. Para Diógenes, viver acompanhado podia significar perder autonomia antes mesmo de perceber.

A mesma lógica orienta sua crítica à filosofia excessivamente conceitual. Diógenes via em Platão o exemplo de um pensamento distante da experiência. Quando Platão definiu o ser humano como “um bípede sem penas”, Diógenes respondeu com um gesto calculado: depenou uma galinha, lançou-a no espaço da Academia e disse: “Eis o homem de Platão”.

Não se tratava de humor vulgar. Era uma crítica precisa ao risco de conceitos que ignoram a vida concreta. Para Diógenes, filosofia que não altera a maneira de viver é apenas retórica bem organizada.

Essa coerência prática aparece com ainda mais força no episódio mais conhecido de sua biografia: o encontro com Alexandre, o Grande. O conquistador visita Diógenes, que repousava ao sol. Ao se aproximar, Alexandre se coloca à sua frente, projetando sombra sobre ele — um gesto involuntário, mas carregado de simbolismo.

Alexandre se apresenta, reconhece o filósofo e oferece conceder qualquer desejo. Diógenes não se levanta, não agradece, não pede riquezas. Apenas responde: “Sai da frente do meu sol.” O pedido é literal e definitivo. Tudo o que ele exige do homem mais poderoso do mundo é que não lhe retire aquilo que a natureza oferece gratuitamente.

Há ainda o episódio narrado por Mênipo de Gádara, quando Diógenes é capturado por piratas e posto à venda como escravo. Perguntado sobre suas habilidades, responde: “Sei comandar homens.” Comprado por Cheníades, torna-se educador de seus filhos. Mesmo sob condição jurídica de escravo, mantém intacta sua autonomia intelectual.

Diógenes viveu longamente para os padrões da Antiguidade. As fontes divergem, mas situam sua morte entre 324 e 321 a.C., após mais de oito décadas de vida — alguns autores falam em cerca de noventa anos. Há quem diga que morreu no mesmo ano que Alexandre. Verdade ou lenda, a coincidência é eloquente: o maior conquistador territorial e o homem que não quis possuir nada encerram o ciclo quase juntos.

Ao ser questionado sobre o destino de seu corpo, Diógenes respondeu: “Joguem-me aos cães.” Quando perguntaram se não temia as mordidas, completou: “Se estarei morto, como poderiam me ferir?” Não há desprezo pela vida nessa frase, mas recusa em organizar a existência a partir do medo.

Em 2026, Diógenes permanece atual porque aponta para o ponto cego do nosso tempo. Vivemos cercados de dispositivos que prometem relevância, consumo percebido como necessidade, pressa convertida em virtude. Ele nos força a um inventário incômodo: do que eu realmente preciso para viver, trabalhar, criar, discordar? Quanto do meu dia é decisão — e quanto é submissão elegante?

Se o Oráculo disse “desfigura a moeda”, o recado que atravessa os séculos é claro: mexa no que sua época chama de valor. Ponha à prova as convenções que se apresentam como inevitáveis. Diógenes não ensinou a viver melhor. Ensinou a viver com menos ilusões — e, no início de um novo ano, poucas lições são mais exigentes do que essa.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.