Direita sem rumo e esquerda sem discurso

Nem Bolsonaro acredita na proposta dele para detonar a previdência; a saída é ampliar o gasto público para gerar pleno emprego, enquanto congela a taxa de juros, para evitar explosão inflacionária com juro subindo bem acima do crescimento da economia. É a nova luta da esquerda, urgente

Direita sem rumo e esquerda sem discurso
Direita sem rumo e esquerda sem discurso (Foto: Adriano Machado - Reuters)

NOVA MACROECONOMIA

Os tucanos economistas são, essencialmente, políticos; perceberam que a teoria neoliberal não é eleitoralmente útil mais; os candidatos neoliberais de Temer, na última eleição, Meirelles e Alckmin, PMDB e PSDB, dançaram, depois do golpe de 2016, quando, pressionados por Washington, congelaram a economia, para tirar dos pobres para dar os ricos banqueiros, credores da dívida pública; como ganhar eleição ferrando o povo? Bolsonaro ganhou porque não debateu nada; nadou no desgaste da esquerda e na falência da direita tucana; como sobreviverão nas próximas eleições, abraçados com programa econômico antipopular; eles, então, nadam, agora, na onda que se desenvolve nos Estados Unidos, seguindo a esquerda do Partido Democrata, com vista à eleição presidencial de 2020, na tentativa de vencer o nacionalismo de Trump; para tanto se rendem à nova macroeconomia capitalista que tenta evitar bancarrota do estado endividado mantendo juro zero ou negativo como o novo normal no capitalismo em crise keynesiana.

RACHA ESPETACULAR

O racha entre os economistas que montaram o Plano Real na Era FHC(Lara Resende, Bacha, Pedro Malan etc)mostra, claramente, que o grande problema fiscal brasileiro não é a previdência social, como Paulo Guedes e os neoliberais estão falando; são os juros os principais culpados pelo desajuste econômico; desde 1994, quando FHC partiu para a sobrevalorização cambial, para combater hiperinflação, a taxa de juros, ditada pelos banqueiros, tem sido fixada pelo BC muito acima do crescimento do PIB; essa estratégia, ao longo dos últimos 35 anos, representou brutal transferência de renda do setor produtivo para o sistema financeiro; a prática de juros sobre juros, condenada como anatocismo pelo STF, transformou a dívida pública na maior fonte de renda dos bancos que desorganizou as finanças públicas; cálculos dos economistas dão conta de que de 1994 a 2019, a taxa média de juros ficou em torno de 18%; nesse período, o crescimento médio do PIB foi de 2,5%; a disparidade entre crescimento do PIB, em queda relativa, hoje, na casa dos 1%, e a taxa de juro, em permanente alta relativa, selic 6,5%, diante de inflação de 3,5%, desestruturou a economia, o sistema federativo e transformou o Brasil no país campeão mundial da desigualdade social, com expansão absurda da violência.

FHC BOMBEIA BANCOCRACIA

Ressalte-se que, no segundo mandato de FHC – 1998-2002 –, a Selic chegou aos 48%; no período fernandino a taxa média permaneceu em 26%. FHC fez prosperar a bancocoracia; no final de 2002, quando entrou Lula, o desemprego estava em 12,5 milhões de pessoas, a inflação na casa dos 13,5% e a taxa de juros, 26%, em média; ou seja, são os tucanos, desde o real, os responsáveis, com os juros absurdos fixados pelo Banco Central acima do crescimento da economia, os responsáveis por aprofundar o déficit fiscal no Brasil; Lula, diante da crise global, ampliou a oferta de crédito à produção e o consumo, de um lado, mas, de outro, deixou seguir a farra dos juros; não aproveitou o capital político popular, para impor, aos bancos, teto civilizado de taxa de juros; desse modo, os petistas, como os tucanos, sempre se sintonizaram com os especuladores do mercado financeiro; não é à toa que dizem ser o PT e o PSDB irmãos na relação macroeconômica com os algozes do povo brasileira, os banqueiros sanguessugas; quem tentou enfrentar os bancos e se deu mal foi Dilma, ao fazer o que Getúlio Vargas tinha feito, fixar a taxa em 7% ao ano; dançou.

JURO ZERO, NOVA ONDA MUNDIAL

A situação começou a mudar, não por força das resistências internas aos especuladores, mas devido à crise mundial de 2008; de lá para cá, os bancos centrais, especialmente, agora, resolveram jogar na lata de lixo a velha teoria econômica segundo a qual a inflação decorre do excesso de demanda, que justifica juros altos para combater a inflação; papo furado que tucanos e petistas engoliram nas últimas 3 décadas; diante do crash capitalista, os BCs americano, europeu, japonês, chinês, russo, inglês etc ampliaram a oferta monetária e reduziram a taxa de juro a zero ou negativa; a conclusão deles é a de que com o endividamento excessivo, keynesiano, dos governos, não é possível mais ao capitalismo suportar juro positivo; a polêmica levantada, agora, por André Lara Resende, no Valor Econômico, que já dura 2 semanas, colocou em polvorosa os neoliberais seguidores de Paulo Guedes; a crise econômica decorre dos juros altos fixados acima do crescimento da economia; o resto é conversa fiada, como a que a grande mídia engole, de que é preciso fazer superavit primário(receita menos despesas, exclusiva juros) elevado para equilibrar dívida pública, como forma de reduzir os juros; há quase 40 anos vem essa lenga lenga mentirosa, ditada com ares de ciência econômica.

DÉFICIT E PLENO EMPREGO

A saída é fazer o contrário, déficit público para gerar pleno emprego, enquanto se sustenta juro abaixo do crescimento do PIB; e no caso, agora, quando a dívida está saindo pelo ladrão, o jeito é congelar os juros, como fazem os capitalistas desenvolvidos; caso contrário, pinta instabilidade permanente, desemprego, violência etc; com juro congelado, não há perigo de expandir a dívida, que cresce com a emissão de dinheiro pelo governo; como emissor, o estado/governo é capital, não tem, como diz Lara Resende, repetindo Keynes e Abba Lerner, restrição para agir com autonomia; o pleno emprego é fator de estabilidade, para permitir aos empresários, diante da oferta monetária estatal, pagar impostos ao governo; os impostos, como destaca Lerner, são, apenas, lubrificante da economia; o governo, teoricamente, não precisa deles, porque emite sua própria moeda; o pleno emprego, nesse contexto, é o fator de equilíbrio funcional, ao contrário do equilibrismo esquizofrênico imposto a partir de cortes de gastos sociais para equilibrar dívida/PIB como pressuposto para reduzir juros; inversão da realidade que, somente, interessa os credores do governo.

NOVA FRENTE DE LUTA DA ESQUERDA

Assim, a pregação de Guedes de que o déficit só será superado pela reforma da Previdência subiu, no ambiente do debate nacional, que se amplia, no telhado; por isso, no momento, o PT teria que chamar Lara Resende, no Congresso, para ampliar essa discussão que confronta diretamente a tese de Paulo Guedes, cujo objetivo é apenas entregar o sistema de seguridade social para os bancos, no momento em que os credores percebem que se continuarem os juros altos acima do crescimento da economia pintará ruptura econômica e consequente calote; antes que isso aconteça, procuram se resguardar, tomando para si a maior fonte de distribuição da renda nacional, a seguridade social; déficit da previdência é balela pura, como, aliás, comprovou CPI no Senado; a jogada política portanto é lutar pela queda de Guedes, urgente; nem Bolsonaro acredita na proposta dele para detonar a previdência; a saída é ampliar o gasto público para gerar pleno emprego, enquanto congela a taxa de juros, para evitar explosão inflacionária com juro subindo bem acima do crescimento da economia. É a nova luta da esquerda, urgente.

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