Dissenso dos “Washingtons”

Será que o Olivetto acha que só tem um Washington no mundo das comunicações?

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(Foto: Fernando Frazão / Agência Brasil)


Muitas críticas ao publicitário Washington Olivetto por ter publicado em jornais o texto “O Rio Continua lindo”, no qual conta o passeio do seu filho, Theo, e mais quatro amigos, três estrangeiros e um brasileiro. Isso antes do pimpolho seguir para estudar cinema em Universidade na California. Não me surpreendi com o texto que faz alarde a um Rio paraíso.

Não fiquei nada surpreso porque sei que pessoas como o meu xará vivem num outro mundo e tratam que seus filhos permaneçam neste “Mundo de Truman”. Um mundo no qual não existe fome, miséria. Um mundo no qual não se vê ou não quer ver a vizinha Rocinha, que nada sabe sobre as agruras de quem lá vive. Um mundo que, para os Washington Olivettos, é um céu.

Conto aqui uma historinha. Há coisa de 35 anos trabalhava em São Paulo numa revista da indústria de cosméticos. Tinha alguns amigos publicitários, dentre os quais o Marino Anselmo.

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Pois bem, de vez em quando tomávamos umas cervejinhas. E, certa vez, comentei com o Marino que, de vez em quando, telefonava para jornalistas ou publicitários em razão do trabalho e me identificava. Invariavelmente, quando dizia meu nome, Washington, perguntavam: o Olivetto? E eu tinha que explicar que era e quem era o Washington Araújo. Foi um comentário banal, de boteco, sem nenhuma importância.

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Marino só ouviu e mudou de assunto. Um belo dia, o meu amigo me liga e afirma exultante: “Washington acabei de vingar você”. Quis saber qual e quem foi o alvo da vingança e ele disse, mais ou menos assim: “O Washington Olivetto me ligou dizendo somente: ‘Marino, aqui é o Washington’.  Eu perguntei de pronto, o Araújo? E ele respondeu meio puto da vida: ‘Que Araújo que nada Marino, quem é este Araújo. É o Washington, o Olivetto, porra’

Achei engraçada a iniciativa do Marino e fiquei pensando: será que o Olivetto acha que só tem um Washington no mundo das comunicações? Só o W no Brasil?

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Pois é, lá se vão três décadas e meia e vejo que, pelo seu texto o Olivetto, continua ignorando os Araújos, os Silvas…

Ah, moro no Rio há mais de 20 anos. Antes, morei em São Paulo desde o segundo ano de vida, vindo de Pernambuco. Uma coisa que aprendi nesta vida é olhar, sentir que existe um outro mundo além do meu conquistado com muita luta.

Como consenso com o Washington xará, a respeito do seu  texto, somente a Portela da Tia Surica e a Barraca do Uruguaio do Milton Gonzalez, da querida Glória e família, no Posto 9. Eles que sabem muito bem que o Rio é comprido e largo, muito largo, bem mais largo do que as dimensões do mar para a Lagoa Rodrigo de Freitas.

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Washington Olivetto, vá passear, conheça um Rio que, infelizmente, não continua lindo socialmente falando. Rio de miséria que, talvez estivesse melhor se pessoas da sua posição econômica se preocupassem mais com as mazelas sociais impostas ao povão.

No mais, entendo que você continua muito esperto no campo publicitário. Não é que reconquistou uma certa celebridade com este texto enaltecendo o seu Rio maravilha?

Ah, encerro com o final do texto do publicitário, quando este perguntou ao filho sobre as impressões com este passeio: “Pai, é simples: ainda nem começamos a faculdade e já fizemos uma pós-graduação de vida”.

Que vida? Pergunto eu, Washington Araújo.   

Abaixo, texto extraído, dos muitos do Facebook, de Antonio Quixadá e imagem do artigo de Washington Olivetto:

UM ABUTRE E O SEU CAIPIRISMO DESLUMBRADO

“Costumava ir à praia com minha filha em Ipanema, perto do Fasano. Vi uma ou duas vezes seus filhos, gêmeos, passando por ali. Moravam num prédio em frente, na Vieira Souto, o metro quadrado mais caro do país. Washington Olivetto foi – ou é, não sei, pois não sou do meio – um dos papas da propaganda brasileira, dizem que um gênio. Tem educação, cultura, inteligência, criatividade e dinheiro. Muito. Enriqueceu graças ao seu trabalho. É justo.

No entanto, como pode alguém com tantos predicados escrever algo tão descolado da realidade do país, com 33 milhões de pessoas passando fome, outras tantas desempregadas, inflação galopante, alto endividamento familiar e uma crise institucional sem precedentes?

O “céu” vivido por seu filho e amigos na cidade, enquanto faziam hora para partir para suas faculdades no exterior, é inimaginável para a maioria dos cariocas e dos brasileiros em geral.

Mesmo a “vida real”, como ele chama – em Londres para os amigos e em Orange County para o filho -, é algo muito distante da vida real dos habitantes de Pindorama.

O Rio de Janeiro é lindo se você for rico e puder gastar em menos de uma semana o orçamento de meses de trabalho de uma família menos abonada.

Não há nada de – vá lá – errado em um filho desfrutar da fortuna honesta do pai, mas escrever sobre isso, num momento como o atual, é de um mau gosto e de uma deselegância que deixam à mostra, mais uma vez, a profunda insensibilidade da nossa elite.”

Este artigo não representa a opinião do Brasil 247 e é de responsabilidade do colunista.

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