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Sergio Ferrari

Jornalista latino-americano radicado na Suíça. Autor e coautor de vários livros, entre eles: Semeando utopia; A aventura internacionalista; Nem loucos, nem mortos; esquecimentos e memórias dos ex-presos políticos de Coronda, Argentina; Leonardo Boff, advogado dos pobres etc.

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Dívida adulta com a infância

A crise da infância questiona a consciência planetária. Uma em cada cinco crianças no mundo sofre com a pobreza extrema e a tendência é isso piorar

Unicef alerta que crianças que vivem em zonas de conflito em todo o mundo continuam sofrendo com a pobreza extrema (Foto: Unicef/ Aaref Watad)

Atualmente, em países de baixa renda, mais de 412 milhões de crianças sobrevivem com menos de 3 dólares por dia. No entanto, afirma o Relatório sobre o Estado das Crianças no Mundo, publicado pela UNICEF há apenas algumas semanas, "a pobreza infantil não se limita às regiões mais pobres do mundo". Na verdade, também afeta países de renda média e alta. De acordo com o relatório, se uma linha de pobreza mais realista fosse aplicada nesses países —por exemplo, 8,30 dólares por dia em vez de 3 dólares—-, o número de crianças em "pobreza monetária" no mundo subiria para dois em cada três, aproximadamente 1,4 bilhão.

"Em um momento em que os gastos militares atingiram a cifra exorbitante de 272 bilhões de dólares", enfatizam os autores do estudo da UNICEF, "centenas de milhões de crianças continuam sem bens básicos como educação, água limpa e moradia adequada." (https://www.unicef.org/es/media/176341/file/SOWC-2025-executive-summary-ES.pdf).

A dívida e seu impacto letal na infância

Muitos países em desenvolvimento enfrentam uma situação econômica complexa, cujo resultado quase sempre é a deterioração de seu crescimento, o que tem impacto direto nos programas de redução da pobreza e nos serviços públicos para crianças. Essa deterioração é agravada por cortes substanciais na ajuda ao desenvolvimento. Até 2030, essa fórmula letal pode causar a morte de cerca de 4,5 milhões de crianças com menos de 5 anos de idade. A ajuda planejada para a educação em 2026 será 25% menor do que em 2025, sem dúvida uma ameaça de desescolarização para 6 milhões de crianças. Essa realidade é agravada pelo impacto direto da dívida externa. De fato, quarenta e cinco dos países em desenvolvimento destinam mais recursos ao pagamento de juros dessa dívida do que ao orçamento de saúde.

"Os números atualizados sobre a situação das crianças são tão dramáticos quanto alarmantes", diz o teólogo Beat Wehrle, especialista suíço em direitos das crianças e membro do conselho diretor da ONG Terre des Hommes, na Alemanha, uma das mais dinâmicas do setor da infância. Mas, Wehrle argumenta, esses números não são inocentes; pelo contrário, "eles refletem o ataque sistemático neoliberal às políticas públicas." Com longa experiência trabalhando em vários países latino-americanos, Wehrle explica que essa agressão neoliberal se manifesta "no aumento significativo do nível de endividamento não apenas no nível estatal, mas também nas economias familiares". E com consequências dramáticas, já que a lógica neoliberal reduz a oferta de políticas públicas de educação e saúde. Essa redução, enfatizou Wehrle, também é agravada "pela queda injustificável dos recursos alocados à cooperação internacional, cujo exemplo mais significativo é a desintegração total da USAid, no início de 2025". E aponta que a mesma tendência também é percebida na maioria dos países europeus, como pode ser visto ao analisar a cooperação para o desenvolvimento e a ajuda humanitária no Velho Mundo.

As consequências dramáticas desses cortes, que já foram sentidas com tanta intensidade em 2025, serão refletidas no próximo Relatório UNICEF 2026. "É certo que a já dramática situação global que as crianças estão vivenciando tenderá a piorar ainda mais", conclui Wehrle.

Crianças marginalizadas

As maiores taxas de pobreza infantil no mundo estão entre as crianças mais novas. Em 2024, 22,3% das crianças com menos de quatro anos viviam em condições de extrema pobreza financeira, quase o dobro da porcentagem de jovens entre quinze e dezessete anos de idade.

Além das consequências do endividamento e da distorção das políticas nacionais, há outros fatores que não são menos críticos a serem levados em conta. Por exemplo, o nível de escolaridade dos dependentes de suas respectivas famílias.

Nas famílias onde os líderes familiares não receberam educação básica, a taxa de pobreza extrema é de 32,9%. Em famílias onde o chefe de família concluiu o ensino superior, essa taxa é de 5,8%.

Significativamente, cerca de 79% das crianças em extrema pobreza vivem em comunidades rurais. No entanto, em áreas urbanas, o nível de pobreza em assentamentos informais e favelas é muito maior que a média.

Crianças com deficiência têm muito mais probabilidade de sofrer com a pobreza porque os custos de saúde são muito mais altos para suas famílias. Por outro lado, cuidar dessas crianças geralmente impede que seus pais ou responsáveis trabalhem fora de casa. Crianças deslocadas ou refugiadas, cujos números muitas vezes são subestimados, correm maior risco de cair na pobreza não apenas durante o trânsito, mas também desde o momento em que chegam ao novo destino. Estudos feitos na Colômbia, no Líbano e Uganda apontam altas taxas de pobreza entre populações deslocadas.

Crianças indígenas também apresentam taxas de pobreza muito mais altas. Nos vinte e três países que ratificaram a Convenção dos povos indígenas e tribais, em 2024, 18,7% dessas comunidades viviam em extrema pobreza monetária, em comparação com 9,3% da população geral.

Não menos significativo é o impacto das guerras e outras situações de conflito. Metade das crianças em contextos de conflito (e a fragilidade deles resultante) sofre de pobreza extrema. Em contextos não afetados, apenas 11,4%.

Guerras como fatores agravantes

Ao redor do mundo, há um aumento extraordinário nos conflitos armados: 2024 e 2025 registraram o maior número de países envolvidos em conflitos armados desde a Segunda Guerra Mundial. Em 2024, cerca de 19% das crianças viviam em zonas de conflito, uma porcentagem quase o dobro do que havia em meados da década de 1990. Em 2024, as Nações Unidas identificaram 41.370 casos de violações graves contra crianças em zonas de conflito, um aumento de 25% em comparação com 2023. A negação de acesso humanitário deixa as crianças em sério risco de abuso, exploração, doenças e fome.

Entre 2014 e 2024, a taxa de pobreza monetária extrema em contextos de fragilidade e conflito aumentou de 46% para 50,2%; fora dessas áreas de conflito, a taxa caiu de 19,9% para 11,4%. Em outras palavras, a metade das crianças em áreas de conflito; e apenas um em cada nove em áreas sem conflito.

Os conflitos geram pobreza porque minam a estabilidade econômica, destroem infraestrutura e interrompem serviços públicos, como água, educação e fornecimento de energia. As interrupções na educação violam o direito das crianças de aprender e prosperar e, consequentemente, corroem tanto o potencial individual quanto a prosperidade conjunta.

Segundo Wehrle, os dados analisados pela UNICEF revelam duas realidades particularmente preocupantes. Por um lado, a redução do investimento público na primeira infância e, por outro, o aumento significativo no número de crianças expostas a situações de conflito armado e violência. A confluência desses dois fatores, argumenta Wehrle, converte a infância numa vítima privilegiada da irracionalidade adulta.

A infância como ator de mudança

Embora o estudo da UNICEF ofereça um retrato bastante claro da realidade dramática da infância, Wehrle observa que é "notável que continue sendo um relatório sobre crianças", já que a questão da participação das crianças, adolescentes e jovens aparece apenas marginalmente no documento. Dessa forma, tanto a produção dessa realidade dramática, quanto a reflexão sobre ela, ficam sob responsabilidade apenas dos adultos". Isso é, sem dúvida, um fato lamentável porque, como argumenta esse especialista suíço, as crianças são ou deveriam ser muito mais do que vítimas: elas também devem ser consideradas sujeitas com direitos e agentes de mudança. A falta de uma perspectiva direta e de participação concreta das crianças na definição de prioridades em políticas públicas é algo que precisa ser urgentemente questionado e resolvido. Se a redução na participação da sociedade civil já é grave em nível global, segundo Wehrle, "a ausência das vozes e das ações das crianças, adolescentes e jovens é um erro ainda mais significativo". Portanto, ele insiste, "nada sobre a infância deve ser aceito sem a participação direta das próprias crianças". Embora o panorama global da infância hoje seja difícil, complexo e pouco esperançoso, existem, no entanto, segundo Wehrle, inúmeras experiências positivas de afirmação dos direitos de crianças, adolescentes e jovens em nível local e em todo o mundo. Essas experiências, conclui, precisam ser conectadas de maneiras mais significativas para que se tornem uma voz cada vez mais impossível de ignorar.

Tradução: Rose Lima.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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