Do descaso à crueldade

É emblemático que o IDHM 2013 mostre sensíveis avanços sociais no Brasil nos últimos 20 anos, mas a educação seja dona do pior indicador entre todos os itens mensurados

A notícia é desoladora. A última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios – o Pnad 2012 – mostra que a taxa de analfabetismo no Brasil, que vinha em queda desde 2004, elevou-se de 8,6% para 8,7% de 2011 para 2012, considerada a população com mais de 15 anos de idade. A presidente do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), Wasmália Bivar, correu a informar que a variação de 0,1 ponto percentual significa estabilidade estatística. No nosso entender, a simples estabilização já configura uma flagrante derrota em se tratando de uma área de notória deficiência no Brasil, talvez o mais apertado dos nossos gargalos.

Algumas das mazelas dos governantes brasileiros nessa área foram bem descritas pelo senador Cristovam Buarque na mais recente edição da Revista da CAASP (www.caasp.org.br), como a priorização do ensino superior pelos governos FHC, Lula e Dilma, e a quase total inação dos três em relação à educação de base.

Em nossa opinião, o que se faz pela educação das crianças brasileiras aproxima-se de zero em termos qualitativos. É emblemático que o IDHM 2013 (Índice de Desenvolvimento Humano Municipal) mostre sensíveis avanços sociais no Brasil nos últimos 20 anos, mas a educação seja dona do pior indicador entre todos os itens mensurados. Atentemos para os seguintes dados de 2010: 91,1% das crianças de 5 e 6 anos frequentaram a escola; 84,9% das crianças de 11 a 13 anos cursaram os anos finais do ensino fundamental; e apenas 57,2% dos adolescentes de 15 a 17 anos completaram o ciclo.

Quando se analisa o ensino médio, a realidade é ainda mais sombria: apenas 41% dos jovens se formaram em 2010.

O que dizem esses percentuais? A leitura é simples: nossas escolas não despertam interesse crescente nos jovens, e o abandono em algum momento é inevitável. Sintoma dessa triste realidade é que apenas um em cada quatro brasileiros domina plenamente as habilidades de leitura e escrita, bem como os fundamentos matemáticos, segundo o último Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf 2011). Somos um país de analfabetos funcionais.

Se formos além da frieza estatística, que não deixa de ser reveladora, encontraremos situações que nos envergonham como Nação. As causas da baixa qualidade educacional no Brasil vão dos vexatórios salários pagos aos professores às aberrações pedagógicas como a aprovação automática.

Não será exagero se falarmos em crueldade. Criadas para ampliar a rede municipal de ensino de São Paulo, as escolas de lata foram adotadas também na rede estadual, a partir de 1998. Inicialmente instaladas em contêineres metálicos ou construídas em aço galvanizado, potencializam ao extremo as sensações de calor e frio e não têm qualquer isolamento acústico. É verdade que, na rede estadual, as escolas de lata ganharam contornos mais humanos, digamos, quando passaram a ser construídas mediante o chamado "padrão Nakamura" (estruturas metálicas, telhado de zinco, paredes de madeira compensada e painéis de chapa de aço). Ainda assim, entendemos que nossas crianças, que são nada menos que o futuro do país, merecem algo mais digno. Como disse um político do nosso passado recente, "cara é a ignorância, jamais a educação".

O Brasil é um dos países que mais evoluem no mundo em termos de desenvolvimento humano, revelou de fato o IDHM, e há quem diga que a educação é o carro-chefe dessa melhora. Uma análise superficial do estudo favorece tal visão enganosa. A leitura cuidadosa, contudo, mostra que, se avanço houve, foi quantitativo, graças à maior abertura das portas de entrada. Crescer em qualidade é algo bem mais difícil e, ao que parece, ainda distante.

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