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Alexandre Machado Rosa

Alexandre Machado Rosa é professor do Instituto Federal de São Paulo (IFSP) e doutor em Saúde Coletiva.

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Do Haiti ao Irã: a persistência da tecnologia colonial da violência

A violência, tanto militar quanto econômica, molda a ordem global, desde a punição da Revolução Haitiana até a escalada de tensões no Oriente Médio

Grafite mural contra as tropas no Haiti

A história dos impérios demonstra que sua dissolução raramente é abrupta. Em vez disso, é um processo gradual de desgaste, no qual os custos políticos, econômicos e militares da dominação superam seus benefícios. No entanto, a formação desses impérios, particularmente os europeus, foi profundamente marcada pela violência como princípio estruturante. A colonização das Américas e da África não se limitou à ocupação territorial ou à exploração econômica; foi sustentada por processos sistemáticos de escravização, assassinatos, torturas, estupros e destruição cultural de populações inteiras, além da apropriação material e expropriações de riquezas minerais e terras. Povos indígenas e civilizações complexas, como maias e incas, sofreram colapsos demográficos devastadores seja pela violência física, seja pelas doenças transmitidas pelo colonizador, além da desarticulação de suas formas de organização social e política. Como observa Eric Hobsbawm, a Era dos Impérios (1875–1914) representa o auge da expansão das potências capitalistas, mas também o momento em que se intensificam as contradições de um sistema fundado na dominação e na violência, que mais tarde culminariam nas grandes crises do século XX.

Tecnologia colonial da violência

Como Clóvis Moura destaca, o colonialismo deve ser visto como um sistema estruturado de dominação, onde a violência não é ocasional, mas sim constante e organizada.  Essa violência colonial, uma verdadeira tecnologia, compreende um conjunto de práticas e mecanismos que visam subordinar povos e territórios, perpetuando hierarquias raciais, econômicas e políticas em escala global.  A dominação colonial, portanto, não apenas explorou, mas também criou formas duradouras de desigualdade e exclusão que persistem até hoje.

A Revolução Haitiana (1804) marca um ponto crucial nessa história. Ao abolir o sistema escravista e estabelecer a primeira república negra moderna, o Haiti não apenas rompeu com a ordem colonial, mas também revelou suas bases violentas e racistas. A reação das potências coloniais, especialmente da França, foi imediata e exemplar. Após a independência, o Haiti foi submetido a isolamento diplomático e bloqueio econômico, numa tentativa de conter a influência de sua revolução.

Em 1825, sob ameaça militar, o rei Carlos X impôs ao Haiti o pagamento de uma indenização de 150 milhões de francos — posteriormente reduzida — como condição para o reconhecimento de sua independência. O acordo, firmado sob coerção pelo governo de Jean-Pierre Boyer, obrigava o país a compensar antigos proprietários de terras e de pessoas escravizadas, instaurando a chamada “dívida da independência”. Financiada por bancos franceses, essa dívida comprometeu profundamente a economia haitiana por mais de um século, com pagamentos que se estenderam até 1947.

O caso haitiano constitui um dos exemplos mais contundentes de como a violência colonial se reconfigura em mecanismos econômicos e financeiros, perpetuando a subordinação mesmo após a independência formal. A ousadia de uma revolução antiescravista foi respondida com isolamento, coerção e espoliação sistemática, revelando a disposição das potências coloniais em punir exemplarmente qualquer ruptura com a ordem estabelecida.

Essa dinâmica evidencia que o fim dos impérios não implica o desaparecimento das estruturas de dominação, mas sua transformação. Ao longo do século XX, enquanto antigos impérios europeus entravam em declínio, novas formas de poder global emergiam. Os Estados Unidos, ao consolidarem sua posição hegemônica, especialmente após a Segunda Guerra Mundial, passaram a exercer influência decisiva sobre a ordem internacional, recorrendo tanto a mecanismos econômicos quanto a intervenções militares para manter sua posição.

No entanto, como em experiências imperiais anteriores, essa hegemonia também revela sinais de desgaste. Intervenções sucessivas em regiões estratégicas, particularmente no Oriente Médio, evidenciam os custos crescentes da manutenção de uma ordem global baseada na projeção de poder. Ao mesmo tempo, a ascensão da China como potência econômica e tecnológica reconfigura os equilíbrios internacionais, apontando para um cenário cada vez mais multipolar e instável.

Os conflitos contemporâneos, nesse sentido, não podem ser dissociados dessa longa duração histórica. Assim como no caso do Haiti, ainda que em contextos distintos, persistem mecanismos de coerção, disputa por recursos e imposição de interesses que remetem às lógicas do imperialismo. A ordem global atual, embora formalmente marcada pela soberania dos Estados, continua atravessada por hierarquias e assimetrias que têm raízes profundas no passado colonial.

Se a história dos impérios ensina algo, é que nenhuma hegemonia se sustenta indefinidamente, sobretudo quando fundada na exploração, na violência e na desigualdade. O que está em curso não é apenas a possível decadência de uma potência, os EUA, mas a crise de um modelo histórico de dominação ancorado na exploração e na acumulação. Tal como no Haiti de 1804, experiências que desafiam essa ordem tendem a ser punidas; mas também, como a própria história demonstra, são essas rupturas que abrem caminho para novos horizontes. A questão que se coloca, no presente, é se o mundo assistirá passivamente à reorganização dessas hierarquias ou se será capaz de produzir, mais uma vez, uma inflexão à altura dos desafios do seu tempo, que é a multipolaridade. 

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.