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Bárbara Bezerra

Técnica em Segurança do Trabalho pelo antigo CEFET-RN (atual IFRN), cientista social e antropóloga formada pela UFRN. Ingressou na Petrobrás em 2007 e integra a diretoria do Sindicato dos Petroleiros do Norte Fluminense (Sindipetro-NF). Atua também na direção da Federação Única dos Petroleiros (FUP), onde coordena o Coletivo de Mulheres Petroleiras

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Do lar à plataforma: a continuidade da violência contra mulheres no setor petroleiro

Desigualdade salarial, sub-representação e silenciamento não são fenômenos isolados. Eles conectam a vida doméstica ao ambiente profissional

Visão aérea de uma plataforma da Petrobras na Bacia de Campos, a P-52 (Foto: REUTERS/Bruno Domingos)

A separação entre vida pessoal e vida profissional é, para muitas mulheres, apenas formal. As violências sofridas dentro de casa — psicológicas, morais e materiais — não ficam restritas ao ambiente doméstico. Elas reaparecem no local de trabalho, com outra linguagem, outra roupagem, mas a mesma lógica de poder. No setor de petróleo e gás, historicamente masculinizado, essa continuidade é respaldada por dados.

A desigualdade em números

Levantamento do DIEESE, com base na RAIS do Ministério do Trabalho, aponta que, em 2023, havia 18.331 mulheres atuando no setor de petróleo e gás natural no Brasil, o que representa apenas 20,5% do total da força de trabalho. O dado revela uma sub-representação estrutural em um setor estratégico da economia nacional.

Quando o recorte é salarial, a desigualdade se torna ainda mais evidente. Segundo o mesmo levantamento, as mulheres do setor sempre receberam, em média, menos que os homens. Em 2012, elas ganhavam o equivalente a 85,1% da remuneração média masculina. Em 2020, essa proporção chegou a 92,8%. Mas, em 2023, caiu para 80,2%. A oscilação não é apenas estatística — ela indica que, mesmo quando há avanços pontuais, a estrutura permanece frágil e vulnerável a retrocessos.

No caso da Petrobrás, a relação entre a remuneração média de mulheres e homens variou entre 0,91 e 0,97 ao longo do período de 2012 a 2023. A própria empresa atribui parte da diferença à predominância masculina nos chamados “regimes especiais de trabalho”, que incluem adicionais salariais. O dado, contudo, revela como a segmentação ocupacional também opera como mecanismo de desigualdade.

Liderança: o teto que persiste

A desigualdade não se limita ao acesso ao emprego ou à remuneração. Ela também aparece nos espaços de comando. Entre petroleiras internacionais selecionadas pelo estudo, a Petrobrás apresenta a menor participação proporcional de mulheres no total da força de trabalho. No recorte de cargos de chefia, o percentual é de 25%, também o mais baixo entre as empresas analisadas. A sub-representação na liderança reforça um ciclo conhecido: menos mulheres em posições estratégicas significam menor capacidade de transformação cultural interna.

Violência material e autonomia

A desigualdade salarial não é apenas um descompasso contábil; é uma forma concreta de violência material. Ganhar menos significa acumular menos patrimônio, depender mais da renda familiar e enfrentar maior vulnerabilidade em situações de ruptura conjugal ou violência doméstica. A desigualdade construída na plataforma atravessa a porta de casa.

Quando mulheres recebem 80% do salário médio de seus colegas homens no mesmo setor, o impacto vai além do contracheque. Ele se traduz em menor poder de barganha, menor autonomia e maior exposição a ciclos de violência no ambiente privado. A violência econômica no trabalho retroalimenta a desigualdade dentro da família. E vice-versa.

A naturalização da exclusão

O próprio título do relatório — “Aqui é só para homens” — remete à frase ouvida pela primeira geóloga contratada pela estatal nos anos 1960, Marília da Silva Pares Regali. Décadas depois, os números mostram que a cultura de exclusão não foi totalmente superada.

No ambiente corporativo, a violência psicológica se manifesta na deslegitimação constante, na cobrança diferenciada, na resistência à presença feminina em áreas operacionais e no isolamento em ambientes predominantemente masculinos, como plataformas offshore.

Em casa, a violência psicológica aparece no descrédito, no controle financeiro e no silenciamento. São expressões distintas da mesma lógica: a tentativa de manter mulheres em posição subordinada.

Não são esferas separadas

Os dados do DIEESE mostram que a desigualdade de gênero no setor petroleiro não é episódica, mas estrutural. A baixa participação feminina (20,5%), a disparidade salarial persistente e a sub-representação em cargos de chefia compõem um mesmo quadro.

Em 2023, as mulheres representavam apenas 20,5% da força de trabalho no setor de petróleo e gás natural no Brasil. No mesmo ano, a remuneração média feminina correspondia a 80,2% da remuneração média masculina — proporção inferior à registrada em 2020, quando havia alcançado 92,8%. No caso da Petrobrás, a presença feminina nos cargos de chefia é de 25%, o que evidencia que o chamado “teto de vidro” — barreira invisível que limita a ascensão de mulheres aos postos mais altos, mesmo quando possuem qualificação equivalente — permanece operando, mesmo após décadas de inserção das mulheres na empresa.

Quando o ambiente profissional reproduz a lógica de hierarquização de gênero, ele reforça as desigualdades já existentes na esfera privada. A violência não muda de natureza ao atravessar o portão da refinaria ou do heliporto da plataforma. Apenas muda de cenário.

Para muitas mulheres, o lar e o trabalho não são mundos independentes. São territórios conectados por uma mesma estrutura que ainda insiste em definir quem pode comandar, quanto vale o trabalho feminino e qual é o lugar que lhes cabe ocupar.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.