Dólares dos investidores estrangeiros, o novo Ibope ideológico

Aparentemente motivados pelos noticiários dos meios de comunicação de massa, tenho observado muitos brasileiros preocupados com as indas e vindas dos dólares. Ou seja, preocupados com os dólares dos investidores estrangeiros

Dolar-Moeda estrangeira
Dolar-Moeda estrangeira (Foto: Tiago Zaidan)

Certa vez, fui atraído por uma discussão entre dois colegas - porventura, dois ex-alunos - em uma rede social. Era tempo de aumento de passagem de ônibus, assinada polemicamente pelo governador de Pernambuco, Paulo Câmara. A aluna, a qual era usuária de transporte coletivo, reclamou do descabido aumento do preço de um serviço o qual continuava insatisfatório. Para constatar a má prestação do serviço dos coletivos da grande Recife, basta observar que, quem pode, foge do ônibus e parte para o transporte individual. Curiosamente, o outro colega retorquiu, defendendo o aumento, mencionado ser compreensível, visto que os donos das empresas de ônibus precisam cobrir despesas e obter o lucro visado, inerente a atividade de um empresário no mundo capitalista.

Diante do debate, o que me chamou a atenção é que nenhum dos dois, até onde eu saiba, é dono ou acionista de empresa de ônibus. Nem de uma fábrica de carros. Mesmo que o ex-aluno não seja usuário de transporte coletivo, de algum modo, sente os efeitos colaterais de uma cidade que ainda privilegia o transporte individual. Vide o trânsito insuportável, a poluição e a pressão pela redução das áreas verdes da urbe para dar passagem aos bólidos.

Por fim: se eu, que sou usuário de ônibus, for me ocupar em defender os interesses dos donos das empresas de ônibus, quem vai se ocupar dos meus interesses enquanto usuário? Certamente não serão os donos das empresas, os quais, legitimamente, possuem os seus próprios interesses enquanto empresários. E, ao que parece, contam com a complacência do governador. Por que, então, eu deveria abrir mão dos meus interesses enquanto usuário para somar esforços em torno dos interesses – nem sempre conciliáveis – dos donos das empresas de ônibus?

Adicionalmente, testemunhei por muitos anos um case clássico em Alagoas, a Unidade da Federação que disputa o posto de detentor dos piores indicadores sociais do Brasil desde longa data, é um tradicional produtor e exportador de cana de açúcar. Os latifúndios dos empreendedores sucroalcooleiros, com suas gordas isenções as quais remetem ao governo estadual de Fernando Collor, não contribuíram para mitigar os problemas socioeconômicos do estado. Ao contrário, é possível que tenham aprofundado as distorções, visto que os indicadores do IBGE mostram que, na região da zona da mata, onde se concentram as usinas, figuram significativos bolsões de miséria do estado .

A despeito disso, não é difícil encontrar em Alagoas pessoas que tomem para si os interesses dos usineiros. Comemorem concessões do governo estadual a estes empresários do agronegócio, ou lamentem a falta de suporte dado a estes. Fiquem compadecidos com a debandada de usinas para outros estados – uma tendência recente - ou tornam-se irascíveis diante de notícias de ocupações de Sem-Terras em propriedades das usinas, como se fossem suas as terras.

O conceito que está por trás de tais dilemas, e os explicam, atende pelo nome de ideologia. Em linhas gerais, trata-se do encampamento de idéias e interesses de outra classe como se inerentes a minha própria classe. Em nível macro, com a ideologia, mesmo as classes dominadas trabalham pela reprodução do modo de produção da classe dominante, graças a sua inserção natural nas atividades do seio da estrutura econômica. Essa é, aliás, umas das características marcantes da ideologia, infligir sem que pareça uma imposição, antes fazendo crer que se tratam apenas de evidências necessariamente reconhecíveis, "naturais" e "inevitáveis", bem como frisa o sociólogo franco-argelino Louis Althusser (1918 – 1990), em sua obra mais importante, Aparelhos ideológicos de Estado. Marx (1818 – 1883) e Engels (1820 – 1895), no clássico A ideologia alemã, complementam ao afirmarem, sobre as idéias da classe dominante, que estas devem ser apresentadas como "... as únicas racionais e universalmente legítimas", marginalizando idéias que se opõem à estrutura econômico-social dominante como sendo inviáveis ou fruto de completo desentendimento.

Os meios de comunicação de massa são parte imanente da difusão de ideologias de uma classe hegemônica na sociedade, legitimando e mistificando os instrumentos de manutenção do status quo. Para Sérgio Caparelli, autor do livro Comunicação de massa sem massa, a ação dos meios de comunicação é sumamente ideológica, uma vez que, por meio dela, são expostos os interesses da classe hegemônica como sendo os interesses da sociedade em geral.

***

Muito se tem noticiado, através dos meios de comunicação de massa, uma curiosa e direta relação entre a fuga de dólares, ou a entrada deles, ao menor sinal da queda do atual governo. Se algum juiz acocha o ex-presidente, os dólares entram e, consequentemente, o valor da moeda americana cai. Se o presidente da Câmara, o maculado Eduardo Cunha, esbraveja e endurece a lida pelo impeachment, chegam mais Dólares. Por outro lado, à demonstração de resistência ao impedimento, os Dólares fogem. Saem correndo. É assim durante toda a semana. Eles chegam e saem; sequer desarrumam as malas. Mas não deixam de ler o jornal.

Estes dólares são dos investidores estrangeiros. Eles não moram no Brasil e, provavelmente, pouco conhecem as cidades brasileiras. E não têm interesse em conhecer. Afinal de contas, eles não têm tempo a perder com isso. O Brasil não é o único país em desenvolvimento que está no mapa e na carteira de investimento desses senhores. E o jogo político do Brasil não é o único que está na pauta das notícias que lhes interessam.

Para eles, não importam os indicadores sociais, o nível de alfabetização ou a redução da mortalidade infantil do país onde apostam com seus Dólares. Também não badalam as sucessivas quedas do índice que mede a inflação, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), o qual fechou março em 0,43% . Não lhes interessam quem é mais ou menos corrupto, se o fisiológico PMDB ou os conspurcados PT e PSDB. Os investidores são pragmáticos. Pouco interessa a um investidor estrangeiro, que a pouco estava sendo alimentado com notícias sobre a crise russa, ou sobre possibilidades de investimentos no oriente, se chegou luz na casa de algum habitante do interior do Brasil. O Brasil, não passa de um cassino exótico, onde é possível apostar em investimentos. Aportar os tão queridos Dólares.

Os interesses dos investidores não são, necessariamente, os interesses de quem habita o campo e as cidades brasileiras. De quem passou a contar com luz elétrica em sua casa, no interior de Pernambuco. De quem ingressou na extensão da Universidade Federal do Vale do São Francisco, no sertão do Piauí. Ou da jovem que saiu do aluguel em um semicortiço e comprou o seu apartamento no subúrbio de Maceió, com subsídio do programa Minha Casa Minha Vida.

No entanto, aparentemente motivados pelos noticiários dos meios de comunicação de massa, tenho observado muitos brasileiros preocupados com as indas e vindas dos dólares. Ou seja, preocupados com os dólares dos investidores estrangeiros. Compadecendo-se deles na mesma medida em que se alienam da discussão de interesses autóctones, como o da redução da pobreza, a ampliação do acesso ao ensino superior, a chegada de médicos em recônditos. Avanços conquistados a despeito do duvidoso trabalho de muitos governadores e prefeitos, aos quais cabem parte da responsabilidade pela saúde e educação, conforme apregoa a distribuição de competências da Constituição Federal. O ensino básico, em geral sofrível no país, por exemplo, é de responsabilidade dos estados e municípios.

Ao fim e ao cabo, tem gente mais preocupada com a insatisfação dos investidores estrangeiros e de seus Dólares com o governo. Embora eles não morem no Brasil e não votem no Brasil. O noticiário aborda a chegada de Dólares relacionada a uma má notícia para o Planalto como uma vitória. Um indicador do caminho certo. Como se o interesse do investidor estrangeiro estivesse acima dos diversos outros interesses, alguns dos quais inconciliáveis, oriundos de uma sociedade complexa como a brasileira.

Obtusamente, os interesses dos investidores estrangeiros tornam-se, assim, "os meus próprios interesses". A despeito de que, quando os apostadores estrangeiros ganham dinheiro e, quando bem entendem, mudam-se de cassino. Vão para uma roleta mais benevolente.

A ideologia, neste caso específico, ganha contornos dramáticos. A aprovação ou não dos investidores estrangeiros aos rumos da política nacional passa a interferir e a ser aceita como legítima, colocando-se em cheque a própria soberania nacional. Naturaliza-se o improvável: o governo brasileiro passa a ter a obrigação de governar para os investidores estrangeiros. De conquistá-los, de garantir a aprovação destes, embora estes não sejam cidadãos brasileiros, não morem no Brasil e sequer tenham direito a voto.

Tecnicamente, os senhores dos Dólares não podem eleger ou derrubar o presidente do Brasil para defenderem os seus interesses diretos enquanto investidores. Contudo, através da ideologia, eles podem contar com os próprios brasileiros para isso. Tecnicamente, os brasileiros podem votar e pressionar o governo: "façamos, então, com que os brasileiros assumam para si os nossos interesses".

E os meios de comunicação de massa, ao ensinarem com o que devemos nos preocupar, são associados pródigos nessa lida. Ensina-nos a perder junto com quem de fato perdeu e a comemorar vitórias alheias como se fossem nossas ou de nossa classe.

Referências (publicação opcional):

 

[1] BRASIL. IBGE. Disponível em: http://www.cidades.ibge.gov.br/xtras/uf.php?lang=&coduf=27&search=alagoas. Acesso em 9 abr. 2016.

[1] ALTHUSSER, Louis. Aparelhos ideológicos de Estado: nota sobre os aparelhos ideológicos de Estado (AIE). Tradução: Walter José Evangelista e Maria Laura Viveiros de Castro. 2ª edição. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1985 (Biblioteca de ciências sociais; v.25). p.94-95.

[1] MARX e ENGELS. A ideologia alemã: Feuerbach – a oposição entre as concepções materialista e idealista. Tradução: Frank Muller. São Paulo: Martin Claret, 2004. p.80.

[1] CAPARELLI, Sérgio. Comunicação de massa sem massa. 3ª edição. São Paulo: Summus, 1986 (Novas buscas em comunicação; v.10). p. 43.

[1] BRASIL. IBGE. Disponível em: http://saladeimprensa.ibge.gov.br/noticias?view=noticia&id=1&busca=1&idnoticia=3137. Acesso em 9 de abr. 2016.

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