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Washington Araújo

Mestre em Cinema, psicanalista, jornalista e conferencista, é autor de 19 livros publicados em diversos países. Professor de Comunicação, Sociologia, Geopolítica e Ética, tem mais de duas décadas de experiência na Secretaria-Geral da Mesa do Senado Federal. Especialista em IA, redes sociais e cultura global, atua na reflexão crítica sobre políticas públicas e direitos humanos. Produz o Podcast 1844 no Spotify e edita o site palavrafilmada.com.

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Domingo, amor e a coragem de permanecer

Entre afetos, perdas e imperfeições, uma reflexão sobre a felicidade possível e a coragem rara de permanecer ao lado de alguém

Domingo, amor e a coragem de permanecer (Foto: Brasil 247)
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Domingo tem seus próprios direitos. Há dias em que a cabeça precisa descansar das manchetes sobre a guerra na Ucrânia, das tensões no Oriente Médio, das tarifas anunciadas pelos Estados Unidos ou das intermináveis discussões em torno do Banco Master e de seus desdobramentos. Existem excelentes colegas acompanhando tudo isso. Hoje, permito-me uma pequena licença jornalística.

Domingo merece outro ritmo.

Depois de uma semana inteira dedicada aos conflitos do mundo, penso que a mente humana também necessita de um intervalo. E é justamente isso que pretendo oferecer ao leitor: alguns minutos para falar sobre algo menos urgente para os jornais, mas decisivo para a vida de cada um de nós..

Com o passar dos anos, fui chegando à conclusão de que uma das grandes ilusões da vida adulta é imaginar que existam pessoas simples de amar. Não existem. Nenhum de nós veio ao mundo acompanhado de manual de instruções. Carregamos nossas memórias, inseguranças, hábitos, silêncios e manias. Somos, ao mesmo tempo, abrigo e desafio para quem decide caminhar ao nosso lado.

Hermann Hesse escreveu certa vez que “cada ser humano é uma tentativa única da natureza”. Sempre considerei essa uma das frases mais bonitas da literatura do século XX. Ela me recorda que a diversidade humana não é um defeito a ser corrigido. É a própria condição da existência.

Talvez por isso tantas relações se desgastem. Esperamos compreensão, mas nem sempre compreendemos. Desejamos acolhimento, mas ainda estamos aprendendo a acolher. Sonhamos com maturidade sem admitir que nós mesmos seguimos em permanente construção.

A felicidade, ao menos como a compreendo hoje, nunca esteve ligada à ausência de dificuldades. Ela se aproxima mais da capacidade de atribuir sentido ao caminho percorrido.

Milan Kundera escreveu, em A Insustentável Leveza do Ser, que “a vida é vivida apenas uma vez”. Gosto dessa observação porque ela desmonta uma fantasia muito comum. Não haverá uma segunda existência para confirmar se teríamos sido mais felizes em outro casamento, em outra profissão ou em outra cidade. ao menos com “estas condições de temperatura e pressão do mudo da natureza“ vivemos esta vida. Apenas esta.

E essa constatação deveria nos tornar mais generosos. Muitas vezes rompemos relações por razões que voltaremos a encontrar mais adiante, porque nenhum ser humano atravessa a existência sem limitações.

Irvin Yalom, por sua vez, afirmou que “a morte é a condição que torna a vida preciosa”. Concordo profundamente com ele. A consciência da finitude muda a maneira como enxergamos as pessoas que amamos.

Quando somos jovens, acreditamos que haverá tempo para tudo. Tempo para o telefonema adiado. Tempo para o abraço que ficou para depois. Tempo para pedir perdão.

A experiência ensina outra coisa. Perdi pessoas queridas cedo demais para alimentar essa ilusão. Não acredito em almas gêmeas. A vida real é mais interessante do que os contos de fadas. O que acredito é que, de vez em quando, duas pessoas imperfeitas se encontram e decidem enfrentar juntas as inevitáveis mudanças da existência.

E permanecer, em uma época que transformou quase tudo em objeto descartável, talvez seja uma das formas mais discretas e mais belas de coragem.

No fim das contas, penso que a felicidade não esteja em encontrar alguém perfeito. Ela se aproxima muito mais de encontrar alguém diante de quem podemos ser inteiramente humanos.

E, sinceramente, isso já é um presente extraordinário.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.