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Washington Araújo

Mestre em Cinema, psicanalista, jornalista e conferencista, é autor de 19 livros publicados em diversos países. Professor de Comunicação, Sociologia, Geopolítica e Ética, tem mais de duas décadas de experiência na Secretaria-Geral da Mesa do Senado Federal. Especialista em IA, redes sociais e cultura global, atua na reflexão crítica sobre políticas públicas e direitos humanos. Produz o Podcast 1844 no Spotify e edita o site palavrafilmada.com.

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Dostoiévski desmonta certezas

Em meio à cultura digital, sua obra resiste como defesa radical da empatia e da compreensão diante do erro humano

Dostoiévski desmonta certezas (Foto: Wikicommons)

Viajar com Dostoiévski não é visitar a Rússia do século XIX. É entrar numa sala mal iluminada onde a consciência humana ainda está sendo interrogada. Seus personagens não descansam, não se explicam por inteiro, não cabem em diagnósticos rápidos. Eles pensam demais, erram demais, sofrem demais. Por isso continuam vivos. Num século dominado por cancelamentos, vaidades digitais, condenações sumárias e pequenas crueldades convertidas em opinião pública, Dostoiévski permanece incômodo porque nos obriga a fazer justamente o que mais evitamos: compreender antes de condenar.

Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski nasceu em Moscou, em 1821, num ambiente marcado por disciplina, religiosidade, doença e tensão social. Perdeu cedo a mãe, viveu sob a sombra de um pai severo e conheceu, ainda jovem, a precariedade que depois daria matéria moral a seus romances. Nada nele foi decorativo. A dor não entrou em sua obra como tema literário, mas como experiência física, espiritual e política.

Em Crime e Castigo, publicado em 1866, Raskólnikov mata para provar uma teoria. Acredita que certos homens extraordinários poderiam ultrapassar a moral comum. O crime, porém, não termina no assassinato. Começa depois dele, quando a culpa transforma a mente do personagem num tribunal sem descanso. Dostoiévski parece nos dizer que nenhuma inteligência basta quando se rompe a dignidade do outro.

Esse é o ponto em que sua obra toca violentamente o presente. Vivemos cercados de discursos que simplificam seres humanos em frases, pecados, erros antigos, recortes de vídeo, opiniões mal formuladas. A cultura do julgamento instantâneo gosta de réus, não de almas. Dostoiévski, ao contrário, sabia que o ser humano é quase sempre mais vasto do que sua pior ação e mais contraditório do que sua melhor intenção.

Em 1849, sua vida quase terminou diante de um pelotão de fuzilamento. Preso por participar de um círculo intelectual crítico ao czarismo, foi levado à execução. No instante final, a pena foi comutada. Em vez da morte, vieram quatro anos de trabalhos forçados na Sibéria. A experiência não o tornou mais superficial. Tornou-o mais profundo. Ali, convivendo com criminosos, camponeses, homens esmagados pela miséria e pela violência, Dostoiévski aprendeu que até o homem mais degradado conserva alguma centelha humana.

Essa descoberta atravessa Recordações da Casa dos Mortos, O Idiota, Os Demônios, Os Irmãos Karamázov e Notas do Subsolo. Seus romances não oferecem consolo fácil. Eles abrem feridas. Ivan Karamázov interroga Deus diante do sofrimento inocente. Aliócha busca a fé sem abandonar a compaixão. Dmitri é desejo, impulso, excesso, culpa. O homem do subsolo é rancor, lucidez, autodestruição e vaidade ferida. Todos eles parecem falar ao nosso tempo, esse estranho tempo em que estamos hiperconectados e espiritualmente dispersos.

Dostoiévski antecipou muitas inquietações da modernidade: a alienação urbana, o ressentimento, o niilismo, a solidão, a culpa, a liberdade sem responsabilidade, a razão sem misericórdia. Antes que a psicologia moderna organizasse seus conceitos, ele já havia colocado em cena personagens partidos por dentro. Antes que as redes sociais transformassem a vida em espetáculo permanente, ele já havia compreendido a fome humana por reconhecimento, poder e absolvição.

Sua própria vida foi feita de abismos. Sofreu de epilepsia, enfrentou dívidas, foi dominado pelo jogo, escreveu sob pressão financeira, conheceu humilhações e recomeços. Nada disso o diminui. Ao contrário: torna sua obra mais urgente. Dostoiévski não escreveu a partir de uma torre moral. Escreveu do chão, da queda, da febre, da culpa, da esperança arrancada quase à força.

Por isso ele incomoda tanto a frivolidade contemporânea. Nossa época gosta de frases rápidas. Dostoiévski exige permanência. Nossa época prefere personagens planos. Dostoiévski revela criaturas contraditórias. Nossa época transforma divergência em sentença. Dostoiévski pergunta o que existe por trás do erro, do crime, da fé, da dúvida, do orgulho, da vergonha.

Quando morreu, em 1881, São Petersburgo acompanhou seu funeral como quem se despedia de uma consciência nacional. Mas Dostoiévski não ficou no século XIX. Ele atravessou Freud, Nietzsche, Kafka, Camus, Sartre, o cinema, a literatura moderna e chegou ao nosso cotidiano digital, onde cada tela parece oferecer uma pequena Sibéria moral para quem pensa diferente.

Ler Dostoiévski hoje é recusar a pobreza espiritual do julgamento automático. É admitir que a alma humana não cabe no tribunal das redes. É compreender que a culpa pode destruir, mas também revelar. Que a liberdade sem ética vira delírio. Que a razão sem compaixão produz monstros elegantes. Que a fé, quando verdadeira, não elimina a dúvida: atravessa-a.

Minha viagem com Dostoiévski é essa travessia. Não procuro nele um santo, nem um mestre confortável. Procuro um escritor que teve coragem de olhar para a escuridão humana sem apagar a possibilidade de redenção. Num mundo intoxicado por futilidades, cancelamentos e certezas agressivas, Dostoiévski ainda nos devolve uma pergunta essencial: antes de condenar alguém, fomos capazes de compreendê-lo?

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.