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Washington Araújo

Mestre em Cinema, psicanalista, jornalista e conferencista, é autor de 19 livros publicados em diversos países. Professor de Comunicação, Sociologia, Geopolítica e Ética, tem mais de duas décadas de experiência na Secretaria-Geral da Mesa do Senado Federal. Especialista em IA, redes sociais e cultura global, atua na reflexão crítica sobre políticas públicas e direitos humanos. Produz o Podcast 1844 no Spotify e edita o site palavrafilmada.com.

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Dr. ChatGPT entra no consultório sem pedir licença

A medicina entra na era dos algoritmos, mas a ausência de ética, responsabilidade e vínculo humano expõe riscos que jamais podem ser ignorados

Ilustração com logotipo do ChatGPT - 22 de janeiro de 2025 (Foto: REUTERS/Dado Ruvic)

O ChatGPT deixou de ser curiosidade tecnológica para ocupar um espaço concreto dentro dos consultórios. Já é, segundo estudo publicado pela revista The Lancet com foco na Catalunha, a ferramenta de inteligência artificial mais utilizada por médicos de família durante consultas clínicas. 

Não se trata mais de futuro — trata-se de prática corrente. E, como toda mudança silenciosa que altera rotinas sensíveis, ela carrega ganhos evidentes e riscos que ainda não foram plenamente enfrentados.

Uma paciente estranhou ao ver o médico falando sozinho após o atendimento. Não era descuido nem excentricidade. Ele ditava um relatório clínico que seria processado por um sistema de inteligência artificial e convertido em texto estruturado. 

A cena, que há poucos anos pareceria deslocada, hoje se normaliza. O problema é que a normalização costuma preceder a reflexão — e isso, na medicina, cobra um preço alto.

Os números ajudam a dimensionar o cenário. Em 2024, centros de atenção primária na Catalunha registraram dezenas de milhões de atendimentos. Sob pressão crescente, médicos passaram a recorrer à IA para redigir relatórios, organizar informações, sugerir hipóteses diagnósticas e reduzir o peso burocrático que consome horas preciosas. O ganho de eficiência é real. Mas eficiência, isoladamente, nunca foi critério suficiente para legitimar práticas médicas.

Eu acompanho esse movimento com atenção redobrada. Há, sem dúvida, um alívio operacional que pode devolver ao médico algo que o sistema havia sequestrado: o tempo de escuta. Mas também há uma transformação mais profunda, menos visível e mais inquietante. Quando uma máquina passa a mediar etapas essenciais do raciocínio clínico, não estamos apenas acelerando processos — estamos redesenhando a própria natureza da decisão médica.

O estudo revela um dado que desmonta um clichê recorrente: são os médicos mais experientes que lideram a adoção dessas ferramentas. 

Isso não elimina, porém, um problema central.

Muitos profissionais utilizam a inteligência artificial sem domínio claro de seus limites. E isso cria uma zona cinzenta perigosa, onde confiança e delegação se misturam sem critérios sólidos.

Não consigo ignorar a questão da responsabilidade. 

Quando um médico transfere parte da análise, da escrita ou mesmo da formulação de hipóteses para um sistema, ele compartilha — ou dilui — a autoria da decisão. Mas a responsabilidade não se dilui na mesma proporção. Em caso de erro, não há algoritmo que responda diante do paciente. A cadeia de responsabilidade continua sendo humana, ainda que o processo já não seja integralmente humano.

Conheço amigos que inseriram exames laboratoriais de grandes redes no ChatGPT e se espantaram: ao confrontar com o médico, a leitura era quase idêntica. Isso me inquieta. Se essa prática se difundir, quantos optarão pela conveniência imediata, substituindo a consulta pela ilusão de autonomia clínica?

Esse deslocamento não é trivial. A relação médico-paciente sempre foi sustentada por algo que nenhuma tecnologia conseguiu replicar: confiança construída na presença, na escuta, na responsabilidade compartilhada. 

Quando o paciente passa a buscar respostas diretas em sistemas automatizados, não está apenas economizando tempo — está alterando a lógica do cuidado, deslocando o eixo da decisão para um território onde não há vínculo, nem compromisso, nem consequência direta.

Resta uma pergunta que não admite suavizações: temos real consciência do que colocamos em risco ao trocar o olhar clínico de um médico de confiança por respostas geradas por sistemas atravessados por vieses, falhas, lacunas e até alucinações? 

Isto porque a medicina não se esgota na leitura de dados; ela exige responsabilidade, contexto, prudência e compromisso com a vida.

E há um ponto ainda mais sensível, que não pode ser varrido para debaixo do tapete: terá o GPT qualquer noção do que seja ética médica? 

Algoritmos não juram, não respondem moralmente, não carregam o peso de um erro diante de um paciente concreto. Delegar decisões clínicas a sistemas assim não é apenas uma escolha técnica — é uma escolha ética de alto impacto.

Seria simplista defender uma rejeição pura e simples da inteligência artificial. A medicina sempre incorporou ferramentas: do estetoscópio ao prontuário eletrônico, da tomografia aos sistemas de apoio à decisão. 

Então como explicar esse meu espanto? É que a diferença, agora, está na profundidade da intervenção. 

A IA não apenas auxilia — ela interpreta, sugere, escreve e, em muitos casos, influencia decisões. isso não é pouca coisa, ainda mais se tratando do bem mais precioso que temos — nossa saúde.

O que se impõe, portanto, não é resistência cega nem adesão acrítica. É formação rigorosa, consciência dos limites e, sobretudo, clareza ética. 

Médicos precisam ser preparados não apenas para usar essas ferramentas, mas para confrontá-las, questioná-las e, quando necessário, ignorá-las. A se acreditar que o Conselho Federal de Medicina e os conselhos regionais de medicina precisam estar mais do que atentos a esse novo quadro. Eles precisam evoluir e de forma muito rápida e eficiente. Não podem ser instâncias burocráticas, carimbadoras de protocolos, tribunais que suspendem ou não de seus associados a prática médica — agora é outro o nível.

A cena do médico falando sozinho deixa de ser curiosa e passa a ser simbólica. Talvez estejamos, todos, aprendendo a dialogar com uma presença nova — silenciosa, veloz, sedutora. 

Mas, como não poderia deixar de ser, existe uma linha que não pode ser cruzada sem consequências: aquela que separa o apoio tecnológico da substituição do julgamento humano.

Porque, no fim, a pergunta não é sobre o que a inteligência artificial é capaz de fazer. A pergunta é outra, mais direta e mais exigente: até onde estamos dispostos a abrir mão da responsabilidade humana em nome da conveniência?

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.