Dramaturgia judicialesca telejornalizada

Os plenários dos tribunais semelham cada vez mais às bancadas dos telejornais. O exercício da função jurisdicional é menos tentativa de solução técnico-jurídica de uma pendenga real, do que ocasião para a exposição desbragada das visões de mundo dos magistrados, de sua ideologia propriamente dita

09/06/2017- Brasília- DF, Brasil- Sessão plenária do TSE para julgamento da Aije 194358. Foto: Roberto Jayme/Ascom/TSE
09/06/2017- Brasília- DF, Brasil- Sessão plenária do TSE para julgamento da Aije 194358. Foto: Roberto Jayme/Ascom/TSE (Foto: Vinícius Madureira)

Os plenários dos tribunais semelham cada vez mais às bancadas dos telejornais. O exercício da função jurisdicional é menos tentativa de solução técnico-jurídica de uma pendenga real, do que ocasião para a exposição desbragada das visões de mundo dos magistrados, de sua ideologia propriamente dita. Idiossincrásicas, o mais das vezes. Quase todas ela. A Ajufesp já havia gentilmente recomendado a certo juiz, diletante no orgulhoso ofício de comentarista político, que “renunciasse a toga” e fosse dar com os burros n’água furtada doutro palacete. O da imprensa, claro. 

Certa feita, Gilmar Mendes chegou a levar um puxão de orelha, diante de todos no STF, por parte do então Ministro Presidente Nelson Jobim: “Vossa Excelência há de convir que isso não são argumentos jurídicos que possamos debater aqui. Não estamos aqui para julgar o Governo.” (vide ADI n° 3.060). Ignorando de quando em vez o objeto mesmo das ações, qual seja, a cassação ou não da chapa Dilma-Temer, o ambivalente ministro Herman Benjamin (STJ e TSE) julgava-se “subjetivamente capaz” de julgar, antes, ora o sistema, ora o regime de governo. Em suma, repudiou com veemência o tal do “presidencialismo de coalizão”, moeda corrente em qualquer discussão com ares cívicos. No que repetiu, por mero acaso, o procurador Dallagnol. O voto do relator não deveria também ser impresso e, em forma livresca, rivalizar nas bancas com Leonardo Avritzer? Não bastassem os favores feitos à nação com sua destacada atuação na Lava Jato, o pródig(i)o Dallagnol também nos regalou com obra sua. Prefaciada, aliás, por uma conhecida comentarista política de todas as manhãs deste Brasil letrado. Inusitado?

Quem melhor designa esse fenômeno nada insólito parece ser ainda o meu dileto amigo Ruy Vasconcelos de Carvalho. De resto, o escritor brasileiro que mais me agrada ler. E reler, e não é de hoje. “Telenovealidade”. Difícil ele ser sobrepujado.

Vivemos num país excessivamente comovido, via televisão. E não só pelo cacho diário de telenovelas, pois a linguagem destas “é” a linguagem da televisão brasileira, com alguns empréstimos blockbusters. E há décadas. Essa linguagem, aliás, estende-se aos anúncios. Aos reality shows. E até mesmo ao jornalismo televisivo — não descartando-se aqui sequer o esportivo ou o político — que está impregnado dessa narratividade barroca e telemelodramática. Em especial, o seu mais poderoso bastião: o Jornal Nacional. Será mera coincidência que vem ensanduichado entre duas telenovelas? Será mero acaso que seja apresentado por um casal? E o que dizer das lágrimas de William Bonner quando da morte de Roberto Marinho? E de toda contrafação emocional que ronda o teor dos assunto tocados? Os semblantes dos apresentadores ou âncoras raramente são neutros. Mais isentos, compostos. Porém ou compungidos ou risonhos. Ou então, abertamente cínicos [...]. O adestramento dos, em geral, maus atores de telenovela vazou para jornalistas, que sequer são capazes de uma tarefa simples: “ler” as notícias num teleponto com um tom de voz minimamente neutro ou composto. Comentar essas notícias com um mínimo grau de dignidade [...]*

Agora transponha-se essa lógica às aparições do full bench. Havia mesmo algo de metalinguístico na longa cobertura do julgamento do TSE pelo Jornal Nacional, ontem à noite. Bonner e Poeta faziam a chamada dos votos proferidos individualmente pelos sete ministros como que se reportando aos “enviados especiais” de sempre. Uma a um. Direto de Brasília. Márcio Losekann como Rosa Weber; Heraldo Pereira Napoleão Maia (2016 como 1992; o sobrinho como o tio...). Faltou apenas dar-lhes o fatídico “boa noite”. Que deselegante! 

Por trás de uma retórica pomposa e obcecada com argumentos de autoridade, num palco moderador marcado pela imoderação, a noite do dia 09/06/17 é mera repetição farsesca da trágica noite congressista de 17/04/16. Em tempos de ira (et studio), arrisco, por fim, uma profecia, à guisa do velho Mouro na conclusão de seu 18 de Brumário. Uma profecia decerto fácil porque, enfim, já até cumprida. Mas se a toga republicana dos ministros não lhes cair dos ombros, a estátua de granito da Justiça de Cheschiatti há de se esboroar a olhos vistos na Praça dos Três Poderes.

* Disponível em: http://afetivagem.blogspot.com.br/2010/10/algo-com-uma-telenovealidade.html. 

 

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